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Ontem fui levar minha filha adolescente ao dentista, que fica em um prédio no centro da cidade. Ao chegarmos, o rapaz da recepção – que estava em pé ao lado do elevador nesse momento – resolveu abrir a porta para nós, como vinha fazendo para todos os outros, numa gentileza que ele, ingenuamente, chamou de cavalheirismo.

Minha filha, que tem se interessado pelo movimento feminista, participando de coletivos, saraus, reuniões e afins, sentiu-se ofendida com sua colocação e, ao entrarmos no elevador falou baixinho para mim que ‘cavalheirismo é um tipo de machismo’.

Fiquei pensando sobre essa afirmação que ela fez e, embora possa concordar com ela em certos aspectos, não posso deixar de considerar o outro lado da questão, o da gentileza.

Se por um lado o cavalheirismo, no sentido opressor da palavra, pode ser considerado uma forma disfarçada e benevolente de machismo porque traria em si a ideia da incapacidade feminina, por outro, pode ser, simplesmente, um jeito atencioso e delicado de tratar outro ser humano.

Já dizia o profeta que ‘gentileza gera gentileza’ e, nesses dias em que esse tipo de atitude tem ficado esquecida e guardada no armário, acho que perdemos os olhos de enxergá-la quando ela se manifesta.

Há uma linha muito tênue separando gentileza e cavalheirismo quando se trata da relação homem-mulher e ela se encontra, especialmente, dentro de nossas cabeças e corações. Refiro-me às cabeças e corações de ambos, homens e mulheres.

A mesma ação, igualzinha, do mesmo jeitinho, pode ser considerada gentileza ou cavalheirismo, dependendo do que se passa na cabeça de quem a executa, de quem a recebe e de quem a presencia.

Para mim, por exemplo, o recepcionista abriu a porta do elevador para nós gentilmente. Para minha filha, foi cavalheiresco. E para ele próprio?

Nos dias de hoje, só posso achar que para ele tenha sido uma mera gentileza, especialmente porque ele estava abrindo a porta para todos.

Nós, mulheres, precisamos ter cuidado para não interpretarmos todas as atitudes gentis e atenciosas dos homens de acordo com nosso próprio pré-conceito – o que, com o tempo e o uso, acaba se tornando realmente preconceituoso.

Será que estamos assim tão secas e endurecidas, tão esturricadas por dentro, que não somos mais capazes de nos abrir para a atenção e o cuidado que partem de alguém do sexo oposto ao nosso sem nos ofender? Será que não mais nos sentimos dignas de uma cortesia, a não ser que ela não venha de algum homem? Será que nos sentimos assim tão diminuídas que não nos permitimos receber? Fechamos nossos corações e afiamos tão bem as nossas garras para refratar quaisquer ofertas de humanidades masculinas?

Será que se, gentilmente, porque nos sentimos assim, com vontade, uma de nós abrir a porta do elevador ou do carro para um rapaz, não estaremos também ofendendo o gênero masculino? Estaremos sendo feministas no mesmo sentido machista que tanto combatemos? Nunca na vida, nós, seres humanos, poderemos mais nos permitir atos gentis para com o sexo oposto?

Será que o futuro da humanidade é de cada um por si? Um não pode mais ser amável com o outro sob a pena de ser mal interpretado, de sofrer com o preconceito cultivado no coração alheio?

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No dicionário, entre outros significados, cavalheirismo é definido como civilidade, cortesia, distinção, nobreza e – pasmem! – gentileza, qualidades que deveriam ser cultivadas em todo ser humano, independentemente de raça, gênero, classe ou qualquer outra palavra separatista.

E quais são as atitudes de um ser humano nobre e cortês, você já pensou sobre isso?

No seu dia a dia, quantas atitudes civilizadas e nobres você desempenha para com pessoas do mesmo gênero que o seu e também para com o gênero oposto? Quantas você aceita com satisfação que alguém lhe ofereça?

Alguma vez já lhe aconteceu de tentar ser gentil e acabar sendo mal interpretada? Como você se sentiu? Que tipo de mundo estamos semeando quando combatemos a amabilidade? Somos todos humanos e, como tais, devemos nos tratar com igualdade e livres de implicâncias e hostilidades.

Queremos direitos iguais na sociedade, sim! Então, por que, ao invés de lutarmos contra as manifestações corteses dos homens, não começamos, nós mesmas, a manifestar atitudes cavalheirescas para com eles e todos?

Será que não temos o direito, e eu diria que também o dever, de tratar bem um homem só porque ele é homem e a sociedade está mal organizada?

Concordo com Marvio dos Anjos quando ele diz que algumas mulheres acreditam tanto no feminismo que passam a psicanalisar todo e qualquer ato que o homem faça a seu respeito. E aí, tudo que se pretende carinho passa por agressão e dominação.

E aqui enfatizo a ideia que iniciou meu texto:

Há uma linha muito tênue separando a gentileza do cavalheirismo quando se trata da relação homem-mulher e ela se encontra, especialmente, dentro das cabeças e corações de ambos, homens e mulheres.

O mundo precisa de mais civilidade e gentileza, e não de menos. E essas qualidades devem vir de todos os lados.

Nossa luta deve ser por igualdade do direito de também sermos ‘cavalheiras’, corteses, gentis, atenciosas, carinhosas, humanas. E pelos homens aceitarem tais atitudes nossas com satisfação, como um ato de pessoas iguais, de valorização mútua.

Hostilizar o cavalheirismo é burrice. É nivelar por baixo. É como dizer que todos temos que perder para podermos ser iguais.

Não é por aí que devemos ir. O caminho da igualdade é o caminho do ganha-ganha. Ganhamos quando espalhamos gentilezas por aí. Para todos.

Não, não é preciso abrir portas para ninguém. Não é isso que as pessoas buscam em um relacionamento, seja afetivo ou não.

Mas temos o direito de julgar alguém, homem ou mulher, e classificar como machista ou dominador apenas porque me abriu uma porta?

Olhe para dentro de si e encontre a sua semente de humanidade. Então, da próxima vez que alguém ultrapassar todos os medos e inseguranças e conseguir ser gentil com você, antes de emitir qualquer julgamento pré-concebido, permita-se receber. Talvez você descubra que a gentileza é realmente bela, sincera e tem o poder da reciprocidade. De gerar mais gentileza.

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Imagem: pinterest.com/superelaoficial

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