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Certa vez, fui dama de companhia de minha amiga em uma festa, e ela, já pelas tantas da madrugada, tão sábia e confiante como somente os ébrios de coração conseguem ser, disse algo que marcaria o resto dos meus dias:

– Amiga, tô bêbada.

Não, não foi essa a frase. Essa foi apenas a confissão que ela me fez antes de iniciar o seguinte discurso filosófico:

– Acho que quanto mais a gente bebe, mais largos ficam os furinhos de nossa peneira. – apoiou o queixo em sua long neck, como se essa pose a fizesse parecer mais inteligente.

Encarei-a por alguns instantes tentando imaginar que raio de peneira seria aquela, quando ela se aproximou já demonstrando alguma impaciência por eu não ter acompanhado seu raciocínio.

– A peneira, ué! –olhou de lado duvidando da estupidez de sua interlocutora. –Sabe os buraquinhos da tela da peneira? Eles são pequenininhos, por quê..? – entoou a pergunta e acompanhou meus olhos esperando uma resposta que não veio. – Porque deveriam filtrar quem vai passar por ali, certo? Mas aí vem a tequila e o buraquinho aumenta, vem outra tequila e o buraquinho aumenta e depois de tanta tequila, no fim da noite, onde é que tá sua peneira? – agora ela se esquecia da seriedade e se dobrava de rir. – Não tem mais telinha, ENTENDEU? Só o aro! Ta passando todo mundo! TODO MUNDO!

Suspirei cansada e olhei ao redor para aquela festa cheia de gente que eu não conhecia, para minha amiga metida a sábia escorada no balcão suspirando pelo barman e entendi, por fim, que eu não estava na mesma onda, quem dirá entenderia qual era a relevância daquela peneira…

Até que depois de alguns anos, algumas cervejas e alguns erros, fiz comprovações empíricas de que a condição de nossa peneira está diretamente ligada ao nível de etanol no sangue e, portanto, essa história procede. Por quê? Não força meu QI mediano, pois isso eu não sei, sei que por mais óbvia que seja essa teoria da peneira, a gente vive persistindo no erro.

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Ta, mas será que essa brilhante metáfora se aplica somente a noites de sábado regadas à cerveja, quando a gente termina beijando rapazes que nem de longe atendiam nossas expectativas? Não né. Nossa peneira também perde a telinha quando tomamos doses muito mais nocivas (e menos divertidas) do que tequila: essa tal carência que injetam em nossas veias todos os dias e mal nos damos conta.

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Como isso? Ora, estamos aí na vida curtindo, viajando, fazendo amigos e nem nos preocupando muito com essa história de “tampa da panela”, afinal o mundo também precisa de umas frigideiras, mas… Mas aquele último filme lindo do Patrick Dempsey, mas essa noite fria de domingo, mas minhas amigas todas se casaram e eu já to especialista em ser madrinha, mas eu não consigo mais me divertir sozinha e aí – olha o perigo – em vez de querer um companheiro, agora eu preciso de um companheiro e dane-se essa porcaria de peneira e de parâmetros, pois isso é conversa de gente que não consegue arrumar ninguém!

drunk girl

 Socorro mãe, descobri que mulher sozinha é sinônimo encalhada! 

A partir daí movida única e exclusivamente pela carência, a gente se sujeita a qualquer coisa e quando eu digo qualquer coisa gente, não tô exagerando. Vai de relacionamento abusivo a casais que só tem afinidade no sexo. Minha amiga, por exemplo, tinha filtros absurdos escolher seu “príncipe” e entre eles, sem brincadeira, tinha até o time que o cara deveria torcer. Esperou, casou umas amigas, esperou, riscou uns itens da lista, esperou, riscou outros, e no fim desesperou. Numa confidência ultrassecreta me disse que o último filtro de sua peneira era que o cara lhe sorrisse, seja na rua, seja via emoji, seja desejando bom dia, o importante que ele risse e eu só pude dizer MAS QUÊ?

É impossível escolher um namorado como quem pede pizza “Oi boa noite, tudo bem? Eu gostaria de pedir um alto, moreno, fluente em pelo menos três idiomas, simpático, que goste de Oasis e de animais e que tenha covinhas na bochecha. Traz troco pra cinquenta, por favor.” Poooor outro lado, imagine só listar “Hétero, solteiro e de preferência que saiba ler”, ou como uma amiga mais velha, casada, uma vez me orientou: “Para conversar sobre livros e filosofar sobre a vida, sempre teremos noite de vinho com os amigos. O homem tem que saber fazer as coisas direito, ser trabalhador e ser uma boa pessoa.”

“Ah… Sério?”

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Enfim, beber e perder parâmetros: quem nunca? Sentir-se só e se sujeitar a relacionamentos nocivos por causa da carência: quem nunca? Ter medo da solidão e aceitar o primeiro que lhe aparece: quem nunca? Mas vamos deixar esses quem nunca no passado e focar no que pode ser mudado daqui pra frente, hã? Só vamos precisar de um pouco de autoconhecimento (piada, né? Não!) para responder às nossas próprias perguntas e não nos deixar levar pelo discurso ensaiado do que disseram que se deve querer, porque de dever já basta ter que trabalhar.

No fim das contas, não tem problema querer encontrar alguém legal, como também não tem problema se descobrir uma frigideira, ou não querer nada disso e ficar de boas, apreciando a paisagem da vida. Complicado é se sentir tão pressionada a seguir a cartilha de crescer, casar e se reproduzir a ponto de perder a telinha da peneira e acabar caindo numa cilada (de verdade, Bino!), porque pra curar ressaca de tequila do dia seguinte, sempre há um litro d’água e uma Aspirina, e pra se livrar da ressaca moral de ter dado uns beijos no cara que só falava de si mesmo, sempre haverá a opção ‘Delete’. Agora, a dor de cabeça de se juntar ao primeiro que lhe aparecer apenas por se sentir na obrigação de ter um relacionamento… Ah, aí eu não sei como é que cura, mas deve dar um pouco mais de trabalho. Na dúvida, vamos manter nossa peneira com telinha, aro e tudo mais. Que tal?

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Imagem: Pinterest

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