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Minha carreira contábil começou em 2006 e aprendi desde o bê a bá no primeiro emprego. Quando entrei em minha primeira contabilidade, não entendia nada dos documentos contábeis. Passei três meses no arquivo contábil que, naquela época, era um misto de papel com barata e poeira. Passada essa fase de “conhecer documentos”, comecei a trabalhar no setor fiscal. Não era fácil adivinhar o CNPJ das criaturas nas notas fiscais modelo 1, nem explicar pros clientes que não podiam emitir série D com o valor total do faturamento mensal em uma única nota.

No último dia do mês – eles faziam isso pra economizar nota fiscal e tempo, felizmente a era digital chegou e acabou com muitas dessas coisas. Eu amava o trabalho no fiscal naquela época. Aquilo era minha vida. Me esforçava pra ser a melhor, ia atrás de informações, atendia os clientes, sanava dúvidas. Realmente eu gostava, gente!

Mas, de 2006 pra 2013, muita coisa mudou. Mesmo contratada para implementar, parametrizar e fazer rodar certinho o Sped Fiscal – sistema de escrituração fiscal digital – em uma empresa, me pegava pensando “não é isso que quero pra minha vida”. Estava na faculdade de Contábeis. Sempre lia as notícias contábeis, estava antenada em cada mudança na legislação. Mas, na faculdade, todas as disciplinas, vejam bem, todas que eram exclusivamente de contabilidade – e eu tinha uma dificuldade enorme. Por vezes, ao dizer aos professores “nunca fechei um balanço nessa vida e nem quero”, eu ouvia “Gabe, o que tu faz nesse curso?”. Fechar balanço pra quem é da área contábil é tão fácil quanto acordar e abrir os olhos. Pra mim, era o fim do mundo.

E respondo a vocês o que eu fazia: eu me enganava. Me iludia. Cheguei a entrar o ano de 2015 pensando “é focar na beca, na faixa rosa, no canudo e no chapéu pra cima, que eu venço isso”. Estava a um ano de me formar em Ciências Contábeis. Odiava contabilidade com todas as minhas forças. Já tinha trabalhado no Contábil, julgando que o problema era o Fiscal. Mas não era o setor, era a área. E há alguns anos, trabalhava no financeiro e amava. Quando comecei a trabalhar no Financeiro e com Recursos Humanos, descobri que eu gostava mesmo era de gente. Por isso, os planos de contas e o débito e crédito me confundiam tanto a cabeça.

Então, no meio do ano passado, baseada no pensamento “de que me adianta me formar em algo odeio? Vou olhar pras fotos e sentir enorme tristeza!”; tomei fôlego e larguei a faculdade de contábeis. Muita gente me chamou de maluca, pois faltava só um ano pra me formar. Já estava fazendo TCC. Na adolescência, fazendo karatê, muita gente dizia que eu era maluca e que tinha que fazer balett ou vôlei, por ser alta. Quando fui morar sozinha aos 22 anos, sem nem ter emprego, me chamaram de maluca. Quando me mudei de Pará de Minas/Minas Gerais  pra Porto Alegre/Rio Grande do Sul, sem conhecer ninguém, me chamaram de maluca.

Quando doei 34 cm de cabelo para o Hospital Infantil do Câncer aqui de Porto Alegre e a extensão das minhas madeixas mudou drasticamente do fim das costas pro fim da minha nuca, também teve quem me chamasse de maluca. Sempre vai ter alguém pra dizer que você está maluca, que perdeu o juízo, que não está medindo as consequências, mas poucos sabem da sua tristeza na situação em que está e poucos ainda imaginam a sua frustração e dor em não fazer o que gosta. Eu seria maluca se continuasse na mesmice por medo de mudar.

Pra quem fez tantas mudanças na vida, mudar de curso à beira da formatura, não era nada. A essa altura, a dúvida era: transferir contábeis pra economia ou pra administração? Detalhe: minha primeira faculdade, aos 17 anos, recém-saída do Ensino Médio, foi em 2003, fui até o quinto período de Ciências Biológicas, que também odiava, todos na sala sabiam do que era composta uma célula e eu custava a acompanhar.

E em 2006, quando comecei a trabalhar em contabilidade, eu já tinha decidido que queria fazer administração. Larguei Biológicas. Fiquei uns anos sem estudar. Seguia nesse caminho por ser uma área que após alguns anos de experiência, é bem remunerada. E só agora, em 2016, 10 anos depois, que eu tive coragem pra fazer o curso que queria: administração e estou nas áreas que gosto.

Não tenho vergonha alguma, de aos 31 anos, enfim, descobrir que curso deveria fazer e estar feliz nele. A formatura ao invés de 1 ano, vai demorar 2. Vale a pena esperar. Decidi que depois da pós em administração, farei jornalismo. E que um dia ainda quero fazer psicologia. Meu avô tinha duas faculdades. Eu posso ter três, só preciso de disposição. O mundo atual é cruel. Exige que aos 17, 18 anos, os jovens tenham bem definido o que farão de suas vidas. Isso faz com que se sintam frustrados aos 25, por estarem na faculdade ainda, por estarem desempregados, por não serem gestores ou por depender dos pais. Calma gente! Vamos respirar! A vida não acaba aos 30. Pelo contrário, ela começa!

Fiz Enem em 2015 para, hoje, estudar com bolsa do prouni e percebi naquele fim de semana que os jovens, na sala do Enem, estavam tão ansiosos que a maioria comia salgados de pacotinhos Elma Chips ou chocolates. Alguns chegaram até a falar na saída da prova que aquilo ali era a “chance da vida deles”, “a única”. Não gente! Não é! Têm muitas pessoas que começam a primeira faculdade aos 50 anos. Isso porque não deixaram o sonho morrer. O que você fez com seu sonho? Onde ele anda?

Esses anos na contabilidade, sem gostar, me fizeram tão mal que engordei 30 kg. Desde fevereiro estou em dieta e reeducação alimentar e já se foram 11 kg. A vida profissional, por si só é uma selva. Não vale a pena transformarmos ela em uma coisa mais desafiadora ainda trabalhando no que não é a nossa cara. Eu aprendi muita coisa mudando de área e de curso. Estou feliz hoje, trabalhando no financeiro e com recursos humanos.

E isso é demais! Tenho inspirando pessoas a repensarem seus caminhos. O comodismo é como uma janela suja que nunca será limpa e sempre vai embaralhar a visão do outro lado. Não se permita ser infeliz na profissão por ganhar bem por isso. Nada paga a felicidade de acordar para trabalhar e gostar do que faz. De ver que a hora voa. De ter orgulho em dizer “trabalho na área tal e adoro”. Nada paga!

O que eu aprendi quando larguei a Contabilidade a 1 ano de me formar

Aprendi que, aos 18, ninguém precisa ter definido que carreira seguir.

Aprendi que é muito triste acordar e pensar “lá vou eu, mais um dia, trabalhar no que odeio e olhar o relógio a cada 5 minutos esperando o final do expediente”.

Aprendi que não vale a pena ter um salário alto, em uma área que não é minha cara e ser infeliz a maior parte do dia no trabalho.

Aprendi que ter coragem pra trocar o caminho é o primeiro passo para ter felicidade na profissão.

Aprendi que se algo acontecer com a tal “carreira- amor” que está no currículo há anos, eu posso trocar de área e sobreviver à mudança.

Aprendi que sempre é hora de mudar se algo dentro mim grita por isso.

Aprendi que o comodismo que nos acorrenta a algo que até já nos faz mal é como um vidro que deve ser quebrado – urgentemente.

Aprendi que muita gente se enterra em uma área que não gosta por puro medo de arriscar e preferir o comodismo.

Aprendi que minha autoestima é mais importante do que o que vão pensar de mim.

Aprendi que dinheiro nenhum vale a minha insatisfação profissional.

Aprendi que trocar a área requer humildade e coragem.

Aprendi que vale  pena apostar no que eu gosto.

Imagem: Pinterest

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