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Estava eu voltando de uma viagem. Entrei no ônibus muito de cansada e já com um pouco de sono devido a meio dramin que eu havia ingerido. Aquela tinha tudo pra ser uma viagem comum mas não foi…

O ônibus partiu e uns 40 minutos depois fez uma parada para buscar uma passageira. Eu já estava dormindo. As luzes que estavam apagadas se acenderam para que a passageira pudesse se acomodar. Eu acordei zonza de sono. Nem abri os olhos. A passageira tinha dificuldade pra se locomover. Encontrou um assento vago em algumas cadeiras atrás da minha. O assento era na janela, mas ela pediu que a pessoa que estava no corredor trocasse de lugar com ela. Explicou que tinha rompido os ligamentos do seu joelho e que sentando no corredor seria mais fácil pra ela se acomodar. A outra pessoa aceitou trocar de lugar. As luzes se apagaram novamente e o ônibus partiu.

Eram mais de onze da noite. O silêncio reinava exceto por vez ou outra que alguém tossia ou por alguma criança que conversava. Eu enfim poderia dormir em paz…

Foi nesse momento que a passageira que havia entrado por último começou a chorar. Ela chorava de soluçar. Aquilo causou um aperto muito grande em meu coração. Não dá pra ficar em paz quando alguém sofre ao nosso lado. Despertei. Queria fazer algo, mas também tive receio de ser invasiva. Então alguém ligou pra ela. Ela atendeu e disse que estava bem. À medida que eles conversavam eu pude entender um pouco a situação, que era a seguinte: ela havia sido agredida pelo marido. Ela alegou que o marido havia rompido os ligamentos do seu joelho em uma agressão. Sendo assim, ela estava indo embora da casa e da cidade em que vivia com ele.

A outra pessoa do lado da linha a aconselhava a pensar direito e reconsiderar sua decisão, ela respondia: “fulano, eu aguentei muito. Não estou fazendo nada de forma precipitada. Há muitos anos venho aguentando isso. No último Dia dos Namorados, eu não recebi nenhum abraço. Há anos o ciclano não me diz um “eu te amo”.

Fiquei aliviada por ela estar indo embora e por dentro eu desejei muito que ela se mantivesse firme naquela decisão. Mas no final da conversa ela disse: “quem sabe o ciclano acaba dando mais valor em mim agora que ele me perdeu? Quem sabe ele não melhora…”. Disse ela não descartando uma volta.

E quem sou eu pra julgar? É fácil pra quem está de fora falar, mas a verdade é que as vítimas de relacionamentos abusivos precisam muito mais do que vontade para sair de uma situação assim. É preciso condição financeira, apoio da família, dos amigos, apoio psicológico… E uma sociedade que muitas vezes valoriza mais o casamento em si do que uma relação saudável, acaba por não oferecer plenamente esse apoio.

Não sou especialista nessa área então não vou me ater a analisar a situação. A minha vontade era apenas dar apoio a ela, praticar a sororidade. Mas ali, naquele ônibus, não me achei capaz disso, com tantas pessoas ao redor. Eu nem havia visto o rosto dela, só sabia que se locomovia com dificuldade. Pensei na possibilidade de procurá-la quando o ônibus parasse no destino, mas chegamos às 4 horas da manhã e o horário não favorecia, já que todos correram em busca de um táxi.

Mas aquilo ficou em mim. O seu choro até hoje eu sou capaz de lembrar. E eu ainda penso em quantas mulheres sofrem caladas. Ou quando falam, não são ouvidas. Os casos que chegam aos nossos olhos ou aos nossos ouvidos são minoria. Existem uma infinidade de mulheres sofrendo uma infinidade de tipos de violência. Algumas nem chegam a ser feridas fisicamente, mas as feridas de abusos emocionais e psicológicos, embora nem sempre visíveis, são tão graves quanto às físicas. Às vezes uma simples ameaça já desestabiliza uma mulher a ponto de ela perder o chão.

Os soluços daquela mulher calaram a minha voz. As lágrimas dela umedeceram os meus olhos. Doeu mais em mim porque não havia sido a primeira vez que eu via uma mulher chorar por esse motivo. Doeu mais ainda porque, infelizmente, eu sabia que não seria a última. Doeu porque também eu nada fiz naquele momento.

Mas dentro de mim ficou uma decisão: empoderar uma mulher sempre que possível. Fazer ecoar a voz daquelas que lutam. A violência de cada dia precisa ser tratada com a nossa consciência de cada dia. Com a nossa luta de cada dia. Com a nossa voz de cada dia. Como disse Elis Regina em um áudio que ouvi recentemente: “a gente tem que se envolver e batalhar pelo bem. É responsabilidade e obrigação nossa. É dentro da casa da gente que se começa a revolução da nossa sociedade. É dentro do ser humano”.

Eu não tive os ligamentos do joelho rompidos em uma agressão. Não recebi conselho para reconsiderar um relacionamento abusivo. Mas, definitivamente, não dá pra dormir com o coração tranquilo quando eu sei que uma desconhecida ao meu lado está com a alma devastada pela violência doméstica. Não dá pra dormir com o coração tranquilo quando eu sei que eu deveria ter mostrado a ela que, pelo menos naquele ônibus, ela não estava sozinha.  E não há dramin que traga o sono de volta. Aquele choro que ouvi no ônibus ainda ecoa em meus ouvidos e eu sei que essa luta também é minha. Mulheres, nós precisamos estar mais unidas. Nós precisamos de sororidade.

Imagem: Pinterest


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