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O que aprendi com os gatos sobre relacionamentos

Ricardo Coiro

Colunista Superela

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Tenho aprendido muitas coisas interessantes assistindo a tutoriais no YouTube. Aprendi, por exemplo, a fazer um feijão “daqui, ó” – escrevi isso segurando o lóbulo esquerdo. Também aprendi a colocar bucha na parede, cortar cebola sem muitas lágrimas e a fazer barras paralelas corretamente. Que cara é essa? Acha que só existe aprendizado em salas de aula e com a ajuda de professores com doutorado na lomba? Não mesmo.

Professores “profissas” são fantásticos, essenciais à humanidade, porém, também podemos aprender coisas relevantes sem eles, com o auxílio de fontes que, muitas vezes, são totalmente ignoradas pelos distraídos – ou por gente que passa o dia inteiro caçando pokémons. Quais fontes? Animais de estimação, por exemplo. Gatos, mais especificamente. E é sobre o que aprendi com eles, observando-os de pertinho, que falarei neste texto. Pode ser?

Até 2012, só havia me relacionado de maneira profunda com os cachorros. E vivia a dizer absurdos como: “Os gatos são animais egoístas e ingratos que só permanecem perto de seus donos por causa de abrigo e comida”. Rotulava os felinos sem ao menos conhecê-los, baseado somente na opinião furada de gente que repete – sem questionar – tudo que ouve. Até que, graças ao acaso, eu encontrei um gatinho (o Temaki) perdido em uma estrada de terra, e por paixão à primeira dormida em meu colo e outras fofurices irresistíveis, acabei adotando-o.

Depois, para não deixá-lo sem companhia, adotei mais um: a Samira. Aí que a coisa ficou interessante: além de ter conseguido uma chance de aprender bastante sobre o comportamento dos gatos – que é muito diferente do comportamento dos cachorros -, comecei a perceber que me comportar como eles – e como eles se comportam comigo – nas relações ajudaria a torná-las mais leves e, consequentemente, mais duradouras.

No começo, sentia-me um pouco frustrado quando o Temaki – ou a Samira – não atendia aos meus chamados. “Temaki, venha aqui!”, eu ordenava, várias vezes, e o Temaki apenas me olhava com cara de “Mano, cê acha que eu sou seu criado? Acha mesmo que estou vinte e quatro horas à disposição das suas vontadezinhas egoístas?”. Algumas muitas ignoradas depois, contudo, eu percebi que precisava aprender a respeitá-los, já que eles, nem sempre, querem o mesmo que eu – o que é natural em qualquer relação. Certo? Com eles aprendi a controlar meu desejo de posse, a não permitir que vontades divergentes atrapalhem relações ou gerem frustrações insuperáveis. Quando eles querem ficar no sofá e eu na cama, ok.

Não os forço mais. Deixo-os livres para decidirem por onde andar, sem me comportar feito dono mandão, assim como tento agir com a minha namorada. Isso mesmo que você entendeu: tento manter com a minha namorada uma relação parecida com aquela que tenho com meus gatos. Uma relação sem “Faça isso!” e com abundância de “O que acha de fazermos aquilo? Se não quiser, tudo bem, de verdade”. Uma relação na qual não há a inviolável – e insuportável! – obrigação de fazermos as mesmas atividades ou de estarmos sempre no mesmo espaço, saca? Às vezes, tô no bar e ela no parque. Noutras, ela no bar e eu… Ah, você entendeu.

Em relacionamentos anteriores, confesso: já quis mandar, impor minhas vontades, conduzir as coisas sempre a finais capazes de atender aos meus interesses. E, por isso, muito sufoquei e me frustrei. Sufoquei porque, de alguma forma, tentava encoleirar minhas parceiras a relações que, em alguns momentos, pareciam as relações entre seres humanos e cães; nas quais existe hierarquia, superioridade, desiquilíbrio de poder entre as partes. E frustrei-me porque não consegui: elas partiram quando sentiram falta da liberdade, quando notaram que, ao meu lado, estavam presas em uma cela invisível e condenadas a podas de todos os tipos.

Então saquei que, com os gatos, podia aprender a me relacionar com os humanos de maneira mais honesta e sustentável. Aprendi, por exemplo, que oferecer liberdade e carinho (não forçado, vale ressaltar) é o melhor incentivo que podemos dar para que alguém queira ficar ao nosso lado – ou voltar para ele no final do dia. Aprendi que as partes de uma relação nem sempre vão desejar as mesmas coisas; e que, mesmo assim, é possível levar a vida em conjunto e construir algo bonito e cheio de afinação e unidade.

Quando parei de tentar controlar o outro (seja ele um gato, seja ele a moça com quem hoje divido a cama), notei que tudo ficou mais leve, para todos os lados. Aos gatos e à minha namorada, eu faço o possível para deixar evidente a minha disposição para dar-lhes carinho e amor; esforço-me para expor a minha capacidade de entender que eles, em muitas ocasiões, não vão querer o mesmo que eu. Deixo-os livres para decidirem quando querem ficar sozinhos no sofá e quando desejam dormir sobre meu peito. E deles, obviamente, espero a mesma compreensão, ou seja, que entendam – e respeitem – as vezes em que não estarei a fim de “cafunezar” de um jeito que causa sono e ronronadas.

Agora eu entendo: muitas pessoas não gostam dos gatos porque não podem controlá-los da mesma maneira que fazem com os cães, o que não quer dizer que um vínculo afetivo entre eles e os felinos seja algo inviável, como teimam em acreditar, e pior: declarar por aí. É um vínculo viável, sim, com certeza, opa se é, contudo, é um vínculo formado por partes que se enxergam como iguais, no qual assobios e “Finja de morto!” dificilmente fazem algum efeito.

Um vínculo que, a meu ver, faz total sentido às relações amorosas entre humanos. Afinal, ninguém é dono de ninguém apesar dos pronomes possessivos que vivemos a usar quando queremos nos referir àqueles com quem compartilhamos a existência e, às vezes, o minúsculo sofá cheio de pelos e manchas que restaram de memoráveis domingos.

 

Ricardo Coiro

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