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Desde que comecei a fazer o exercício de olhar o mundo à minha volta não mais na primeira pessoa do singular, mas como terceira pessoa – sem me deixar de fora, entretanto, da minha própria análise; quando comecei a exercitar estar no papel de observadora e protagonista, ao mesmo tempo, da minha vida e da minha experiência social, me deparo constantemente com a árdua tarefa que tem sido para a significativa maioria das pessoas – inclusive para mim por tantas vezes – estar em dia com o contexto moderno.

Numa época em que temos ao nosso alcance o segredo da felicidade nas prateleiras de supermercado, nas receitas dos nutricionistas, nos treinos comprovadamente eficazes das selfies nas academias, nas orientações das tendências da moda dada pelas blogueiras para que estejamos sempre “igual o tom do lugar”, parece minimamente estranho que continuemos dando tão errado, constatação a que chego pela quantidade de “likes” percebidos em textos como “passo a passo para você sair da fossa”, “10 razões por que ele não merece suas lágrimas”, além da enorme quantidade de livros de auto-ajuda que se pode encontrar nas livrarias.

É surpreendente perceber que a nossa geração – e não posso afirmar ao certo quando exatamente começou esse movimento – siga estabelecendo tantas regras sociais, comportamentais, receitas de sucesso – nem testadas nem comprovadas – que fazem a nós mesmos reféns e tornam as nossas vidas tão mais difíceis, sofridas e frustradas do que seriam se apenas nos déssemos o direito de ser, querer, pensar, agir e amar no sentido mais livre e natural de cada um desses verbos: sem fórmulas e procedimentos que nos prometam qualquer coisa, mas pela simples aventura de aceitar o que vier.

É incrível como somos contraditórios nesse movimento. Rejeitamos a opressão do culto ao corpo, a ditadura do manequim 36/38, dizemos que também somos bonitas usando 44/46, mas em segredo vivemos constantemente de dieta, de olho na dieta da proteína, no suco detox que promete emagrecer 3kg em uma semana. Gritamos por direitos iguais para homens e mulheres, mas nós, mulheres, ainda hesitamos infinitamente em “enviar um charme” para aquele rapaz que nos interessou no aplicativo de paquera porque vamos parecer muito “desesperadas” ou “oferecidas”. Ou, se temos um match, “é melhor esperar que ele puxe um assunto”. Chamar o rapaz pra sair ou dizer que está só interessada em sexo casual então? É quase caso de polícia. E é, também, surpreendente ver como há um falso discurso de que homens gostam de mulheres que têm iniciativa e são bem resolvidas, mas ficam absolutamente chocados e, muitas vezes, desconcertados quando a mulher vai direto ao ponto. A maioria deles se sente deslocado de seu papel e completamente sem saber como dar continuidade àquela troca (prefiro essa palavra a “relação”, que pode acabar sendo entendida como algo que envolva sentimentos e expectativas).

Compartilhamos textos sobre como devemos nos arriscar no amor porque o que vale é a experiência em si de um sentimento maravilhoso e que nos faz transcender, que nos melhora como seres humanos; textos que falam sobre como vivemos um contexto em que está todo mundo interessado em ser amado, mas ninguém interessado em dar amor. Mas qual a última vez que você esteve apaixonado(a) e entregou seu afeto à pessoa objeto do seu sentimento sem que tivesse a segurança de que essa pessoa também estava interessada em você na mesma proporção? Qual a última vez em que você disse: “eu estou apaixonado(a) por você e, honestamente, não espero que você esteja por mim. O simples fato de sentir o que sinto, por si só já é uma grande felicidade para mim porque o amor é uma experiência maravilhosa e única cada vez que acontece”?

Novas regras surgem todos os dias. Surgem novas receitas de felicidade que praticamente nos sentimos obrigados a pelo menos tentar. Todos os dias sentimos a necessidade de pertencer a algo e ao mesmo tempo de mostrarmos ao mundo que somos livres das amarras estabelecidas pela sociedade – que, por acaso, somos nós mesmos.

Somos ambíguos da hora que acordamos a hora que vamos nos deitar. Sofremos de uma bipolaridade institucionalizada. Todos os dias criamos um passo a passo para o modelo de perfeição, bem como nesses mesmos dias repetimos facebook a fora que temos o direito de sermos quem quisermos, ainda que não estejamos participando do grupo daqueles que idealizamos como perfeitos: sejam os corpos sarados, sejam os pseudo-intelectuais, pseudo-cults, os engajados política ou socialmente.

Vivemos um contexto de oligofrenia criado por nós mesmo em que temos que ser tudo ao mesmo tempo, não podemos falhar ou faltar em nada, quando justamente ser tudo ao mesmo tempo é a própria materialização do não ser nada.

Carregamos nas costas o mundo que criamos; jogamos fora a chave dos grilhões a que nós mesmos nos prendemos. Perdemos a habilidade de ser pelo simples fato de estarmos ocupados tentando ser. Não conseguimos nomear nossos sentimentos, porque já não sabemos mais o que sentimos quando não se parece com o que foi estabelecido por nós mesmos que deveríamos sentir em determinada situação. Já não podemos chorar por alguém com quem ficamos uma única vez e que sumiu, porque chorar numa situação como essa é sinônimo de carência, e ser carente não está na moda. Devemos todos ser auto suficientes. Devemos todos nos sentir completos por nós mesmos e pessoas completas por si mesmas não conhecem a carência porque o outro é dispensável. Mas o que faço então com aquela tristeza pela morte do que nem nasceu naquela noite com aquela pessoa que não consigo esquecer? Faço uma selfie cheia de sorrisos e com frases de efeito e posto no instagram para que a cada curtida eu tente convencer a mim mesma de que aquele sorriso é de felicidade sincera. Mas não é, também isso, sinônimo de carência?

Nem sempre é fácil ter um olhar reflexivo sobre si, sobre os que o cercam, sobre o mundo e o contexto em que se vive. Ser um contemporâneo de si mesmo pode ser muito conflituoso no mais das vezes. Tenho feito essa observação há algum tempo a cada vez que me pego na condição de “espectadora da minha própria vida”.

É um trabalho árduo esse: o de se colocar de fora das situações em que se encontra, o de afastar-se do objeto para alcançar a objetividade necessária ao debruçar-se sobre a própria experiência social. Mas, mais difícil do que esse, é o trabalho de tentar existir num estado que se aproxime o máximo possível do que se pode chamar de natural. O de deixar transparecer a nossa própria essência, ser o que espontânea e genuinamente somos, sentir o que nos despertam as experiências cotidianas sem tentar enquadrar isso num padrão sentimental para cada ocasião, dar de nós o que temos a quem queremos e deixar que a pessoa aceite ou não o que oferecemos sem que isso determine se estamos ou não à altura de alguém. O exercício de nos julgarmos dignos da felicidade pelo simples fato de existirmos e de deixarmos que a nossa experiência seja a melhor que possa ser pelo seu desenrolar natural – o que, necessariamente, incluirá momentos de felicidade, mas também de decepções, que tanto nos acrescentam e tornam melhores. Entendermos que a liberdade propriamente dita não está no direito de lutarmos pela nossa liberdade de sermos quem quisermos ser, mas sim no simples fato de não nos preocuparmos com essa luta e nos ocuparmos apenas de nos deixar ser, sabendo que os únicos limitadores dessa liberdade, na prática, somos nós e não o outro.

Quando tivermos a coragem de assumir o risco das nossas tristezas sem nos preocuparmos com o que o outro pensará sobre isso, aí sim, poderemos assumir os bônus das nossas felicidades.

Imagem: Tumblr


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