O que você procura?

O aborto costuma ser um tema de extrema delicadeza e, por isso, deve ser tratado com cuidado. Porém, um detalhe importante me incomoda: a falta de informações sobre este. Alguns dados, como a taxa de mortalidade das mulheres que optam por abortar, são preocupantes, e mesmo assim, o assunto vive debaixo dos panos.

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Ilustração: Digg

Porém, um outro detalhe que me preocupa AINDA mais é o direcionamento das dúvidas REAIS das mulheres que decidem abortar. Durante algumas navegadas aqui e ali pelas internet da vida, descobri que um dos termos mais procurados no Google sobre o tema aborto são: “quem aborta vai para o inferno”? Quase empatados com essa pergunta, temos as seguintes dúvidas: “quem aborta tem perdão?”, “quem aborta é excomungado?” e “quem aborta vai preso?”. Percebi que ali existia o medo do futuro, do que aconteceria caso a pessoa decidisse abortar. Mas além do medo “do futuro”, ainda tinha o medo do desconhecido.

E aí, uma incoerência no meio disso tudo surgiu. Junto a essas perguntas carregadas de culpa, havia outras, também recorrentes e bastante pesquisadas, como “o que aborta rápido?”, “o que aborta mesmo?” e “como abortar?”. Desse lado de cá percebi uma coisa maior que o medo: o desespero, a consequência. Temos aí o embate entre a decisão e a ‘solução’.

De tantas dúvidas que perpassam a vida sexual da mulher, nenhuma parece ter respostas claras. Nem por parte da mídia, das escolas e até mesmo da vida. Depois de me deparar com esses números imersos em dualidades não respondidas, a primeira pergunta que me fiz foi:

Por que quem realiza um aborto tem medo de ir para o inferno?

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Ilustração: Helô D’Angelo

Primeiro, para solucionar essa dúvida preciso responder a uma pergunta outra pergunta igualmente importante: QUEM é que aborta? Qual é o perfil dessa pessoa? O que será que se passa na cabeça dela?

Pensa comigo: das 4 perguntas que citei no primeiro parágrafo, apenas UMA tem relação com o país e seus direitos e deveres. Neste caso, deveres. E sinto dizer que, para quem pergunta se o aborto pode levar uma mulher à cadeia, a resposta é sim. Porém, mesmo assim, o maior medo da maioria das mulheres que cogita a ideia de abortar não está aí. Engraçado, né? Um dos maiores argumentos que priva uma moça de ter direito sobre o próprio corpo é religioso.

E isso nos leva a um segundo fato: o perfil da mulher brasileira que comete um aborto é o de casada, que já possui filhos e assume a fé cristã. E isso é um dado coletado pela Pesquisa Nacional do Aborto, desenvolvida pela Anis – Instituto de Bioética e realizada em 2016. Ou seja, as pessoas que questionam o caráter de mulheres que decidem se submeter a tal prática mal sabem que o perfil delas não está nem perto do de promíscua e descuidada. E olha que eu consegui provar isso com duas pesquisas diferentes que não têm nenhuma relação entre si.

O mais triste disso tudo é que precisei fazer pesquisas por conta própria, porque essas informações nunca tinham chegado para mim antes…

Tá, mas e o inferno?

Bem, toda a condenação religiosa por trás do aborto possui ligação direta com o fato de que somente Deus tem o poder de dar e tirar uma vida. Logo, não importa se o que existe dentro de você é uma sementinha de arroz, pois essa sementinha é um ser vivo. E é aí que as opiniões se dividem: essa vida começa onde? Tal concepção vale a mesma coisa para os olhos de Deus, e o País?

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Ilustração: Joan Tru

No fim das contas, acabamos caindo naquela pergunta tão polêmica que contornam as discussões sobre o aborto: onde a VIDA começa? Bem, nem o homem e nem mesmo a biologia foram capazes de nos dar a resposta definitiva. Porém, nossa Constituição abre uma pequena brecha nessa discussão. Ela afirma o direito e proteção à vida, mas não especifica ONDE essa vida começa.

Ou seja: fico te devendo essa resposta. A única coisa que tenho segurança para falar é que, na minha opinião, as pessoas deveriam ser livres para acreditar onde essa vida começa de fato, se é após o nascimento, ou se é ainda no processo de desenvolvimento celular. O que não aprecio é a mistura que acontece entre crença e realidade de um todo. Calma aí que eu te explico melhor isso:

Entre Estado e Religião, onde o aborto ficaria?

O Brasil é um Estado laico. Ou seja: ele promove OFICIALMENTE a separação entre Religião e Estado. Isso quer dizer que ele defende o tratamento dos cidadãos de forma igual, independente das opções religiosas de cada um. Além disso, ele preza pela liberdade religiosa como um todo, sem gerar benefícios a ninguém levando o tipo da fé em consideração.

Isso quer dizer que o Brasil é Ateu ou Agnóstico? Não não. Ele apenas se posiciona de forma neutra quando o assunto é religião (ou deveria). Na verdade, nosso país é o segundo maior Estado católico do mundo. De acordo com os dados do IBGE de 2013, ele possui, aproximadamente, 127 milhões de fieis, o que equivale a 12% do número de católicos do MUNDO. O problema não mora aí, mas sim no risco de tais dogmas interferirem nas decisões políticas.

E é aí que quero chegar: a biologia não consegue definir onde a vida começa de fato; nossa Constituição não deixa claro EM QUE MOMENTO a vida de uma pessoa começa de fato; o Brasil promove a separação entre Religião e Estado para que a fé não interfira nas decisões do Estado. Gente, mas e aí? Onde o aborto se enfia no meio dessa bagunça toda?

O grande problema da proibição do aborto

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Ilustração: Thais Almeida Rocha

Mesmo sendo um crime contra o homem e, aparentemente, contra Deus, o aborto continua sendo feito de forma clandestina por milhares e milhares de mulheres. As perguntas que citei no começo desse texto provam isso. Primeiro, elas querem saber se vão para o inferno, ou se merecem o perdão. Depois, elas procuram por alternativas que REALMENTE funcionam.

A questão principal e mais grave é que, de acordo com a Organização Mundial de Saúde, uma mulher morre a cada dois dias em função de um aborto ilegal. Isso acontece justamente pele fato de o aborto ser considerado, hoje, um crime. Vamos ao beabá para que você possa entender isso bem direitinho:

O aborto é ilegal. Ou seja: antes de ir para o inferno, a mulher pode ir para a cadeia

O aborto é somente permitido nos seguintes casos: quando a gravidez se torna um risco à vida da mãe, quando a gravidez é resultado de um estupro, e quando o feto é anencéfalo (não tem o cérebro). A mulher que pratica o aborto ilegal sofre uma detenção que varia de 6 meses a 2 anos. Já a pessoa que provoca o aborto ilegal pode ficar detida de 4 a 10 anos.

Mesmo nos casos permitidos, as mulheres ainda sofrem barreiras morais e religiosas extremamente intensas. De acordo com o Censo do Aborto Legal, realizado pela Anis (Instituto de Bioética), existem apenas 37 serviços, em TODO o país, que praticam o aborto em casos de gravidez resultada de um estupro. 30 destes também realizam o aborto em casos de anencefalia e 27 abortam em casos de gravidez de risco.

Ou seja? Até mesmo quando o procedimento é legal, ainda assim não é fácil de consegui-lo. E aí eu estou aqui, falando mais e mais sobre o aborto, de como ele é ilegal e quando é legal, mas ainda não expliquei O QUE É, de fato, o aborto, né? Como será que ele acontece? É seguro quando feito de forma legal? Será que dói?

Vem cá que eu te conto:

Afinal, como funciona o aborto?

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Ilustração: Layse Almada

Na verdade, existem dois tipos de aborto que podem ser realizados com acompanhamento médico (lembrando que somente nos casos legais). Se a gestação estiver no início e se a mulher estiver com a saúde controlada, ele pode ser feito em casa mesmo, através de medicamentos. Estes podem ser por via oral, em forma de comprimidos, ou por introdução das doses do remédio na vagina. Ambos receitados pelo médico responsável. Se a gestante estiver insegura, ou se sua saúde for delicada, esse procedimento pode ser feito em uma unidade de saúde, onde ela terá acompanhamento médico durante todo o processo.

Agora, também existe o aborto por procedimento médico, onde o cirurgião utilizará um pequeno aparelho de aspiração à vácuo para retirar o embrião da parede do útero.

Em ambos os casos, se realizados com segurança, a dor que uma mulher pode sentir, de acordo com a OMS, é similar à cólica menstrual, podendo ser amenizada com o uso de analgésicos tranquilamente. Porém, vale ressaltar duas coisas: a primeira é que se feito sob condições ilegais, o aborto pode ser extremamente doloroso e, em casos mais graves, pode até matar. A segunda é que DOR é um termo relativo, que varia de pessoa para pessoa, e possui mais de um significado. Não é porque a mulher aborta que ela não sentirá os pesares de todo o processo. Acredite: a decisão de se submeter a um aborto não é fácil e nem simples.

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Ilustração: Pixabay

Por fim, quando monitorado direitinho, e realizado por vias legais, o aborto apresenta riscos mínimos à saúde da mulher. A verdade mais doída é que o maior risco que o aborto carrega é o fato de ele ser ilegal, colocando em risco a vida de milhões e milhões de pessoas.

Aborto é uma questão de saúde

Esse assunto deveria parar de perpassar por vias religiosas e morais a partir do momento em que a taxa de mortalidade de mulheres em função do aborto começou a aumentar. Mais uma vez me recorro à pesquisa que apresentei no começo desse texto: o titio Google recebe um zilhão de perguntas sobre o perdão da mulher que pratica o aborto, mas também tenta responder a zilhões de perguntas de mulheres que, mesmo assim, decidem abortar.

A educação necessária para a prevenção sexual está disponível nos postos de saúde, nas mídias, nas escolas e etc. Mas é preciso admitir que essas informações não atingem a todas as pessoas e, mesmo atingindo, existem outros fatores além do “cuidado tomado durante a relação”. A camisinha pode furar, o marido pode ser abusivo e não permitir que a mulher use a camisinha, o descuido foi tomado, infelizmente, em uma época ruim da pessoa, socialmente ou financeiramente, e outros n motivos que provam que as coisas não deveriam ser “preto no branco”.

Sendo assim, te pergunto:

Mesmo sendo ilegal, por que as mulheres continuam abortando?

aborto

Ilustração: Layse Almada

Porque a mídia não nos conta tudo o que deve. Porque ela não denuncia fatores que tornam o número de mulheres que abortam ilegalmente cada vez maior. Ela não conta, por exemplo, que a mulher presa por praticar um aborto o fez porque tinha 3 filhos para criar e o marido resolveu abandonar a família ainda na primeira gravidez. Ela não conta que essa mulher não consegue trabalhar porque precisa cuidar e alimentar três crianças e, de repente, se engravidou de uma quarta e se entregou ao desespero.

A mídia não problematiza o direito da mulher de escolher se tornar mãe, e de ter controle sobre o seu próprio corpo. Ela não discute situações onde uma menina de 15 anos que engravidou por acidente não tem maturidade o suficiente para cuidar de um recém-nascido. Toda a concentração está NO PESO do CRIME que ela cometeu. Está na MORTE que ela sofreu por ter praticado um aborto ilegal. E isso faz com que a sociedade a culpe por ‘não ter tomado a decisão certa’ e a critique por ‘se submeter a um procedimento como esses num quartinhos dos fundos de um açougue no centro da cidade. Ela não contesta os fatores religiosos e morais que cercam essas mulheres, deixando-as sem alternativas viáveis.

Ninguém te conta que a mulher deveria ter mais espaço, mais poder, autonomia e respeito.

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Ilustração: Midge Blitz

Poucos comentam que o aborto ilegal é um reflexo de uma sociedade machista que priva as mulheres de tanta coisa que, no final, somos objetos reduzidos à favor dos homens.

Sobre a defesa da legalidade do aborto e outros ‘miúdos’ eu converso com vocês em outro texto. Neste primeiro, minha intenção foi trazer alguns argumentos que possam nos fazer refletir sobre a relevância que a mulher tem na sociedade, e de como não somos orientadas da forma correta. Aliás, muito pelo contrário: além de mal orientadas, somos reprimidas por todos os lados.

E isso não pode continuar assim.

Ilustração: Layse Almada


E o que vocês responderiam a essa pergunta aqui abaixo, feita por uma de nossas usuárias do Clube Superela?


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