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O que você procura?

Querido ansioso, hoje eu vou te contar uma historinha. Não é pra dormir, não, é pra você ficar bem acordado.

Outro dia alguém me perguntou se eu não sentia vergonha por falar, tão abertamente, sobre a ansiedade crônica. Pedi para que a pessoa esclarecesse a expressão “vergonha”. Ela arregalou os olhos, abriu a boca, mas não falou nada. Depois, começou a gaguejar feito um papagaio com soluço. Eu sorri. Não porque era engraçado (tudo bem, era), mas porque sabia qual rumo aquela conversa iria tomar.

Então, eu mesma expliquei: disse a ela que já tive vergonha, sim, porque eu não me encaixava, porque tinha reações que as outras pessoas não tinham. E disse também que essa vergonha (de assumir que sofria de um transtorno mental) foi a mestre de obras na escavação do buraco no qual me afundei. Disse também que, naquele momento, eu sabia que se tivesse procurado ajuda antes, o buraco não seria tão profundo.

Continuei: “Então, quando passei uma temporada hospedada no porão que existia no fundo do poço, entendi: a única vergonha que deveria levar em conta era aquela que eu sentia de MIM MESMA. Se fizesse algo contra a minha natureza, se de alguma forma contrariasse os meus princípios, aí, sim, poderia ficar envergonhada COMIGO”.

Eu e o meu reflexo choroso no espelho, eu e a madrugada em claro, eu e o chicotinho de autoflagelo que carrego na bolsa. Mas, vergonha de dar a cara à tapa, mostrando a face da ansiedade, não tenho, não.

Sabe por quê?” – perguntei, e ela continuou muda. “Porque falando a respeito, sem hipocrisia, posso ajudar pessoas que sofrem a mesma coisa e que se sentem uns trapos”. Pessoas que levantam da cama doloridas e agoniadas, que vestem suas máscaras e saem de casa – para a escola, para o trabalho, para qualquer lugar… Elas saem para interpretar, porque o ansioso é um personagem de si mesmo.

Ele faz de tudo para que os outros não percebam sua condição, não notem suas mãos suando e tremendo, não notem os espasmos involuntários que seu rosto dá quando ele força um sorriso, não percebam sua voz falha e não ouçam sua respiração – às vezes entrecortada, às vezes profunda.

Ao contrário do que muitos pensam, tudo o que ele menos quer é chamar atenção. Tudo o que ele mais deseja é que a ansiedade não o afete pois, se acontecer, lá vai ele passar vergonha…

Infelizmente, são muitos os ansiosos (mais de 18 milhões de brasileiros, segundo a OMS). Digo infelizmente porque é uma merda, mesmo. Mas a pessoa não escolhe, né? “Ah, vou escrever uma cartinha pro Noel pedindo pra sofrer de ansiedade crônica na idade adulta!” #partiupolonorte

Não dá pra explicar e/ou exemplificar os “n” motivos que levam uma pessoa a ser acometida por algum tipo de distúrbio – seja ansiedade, depressão, síndrome do pânico – nem é esse o objetivo aqui.

“Mas tem gente que vive em condições muito piores do que você e não tem nada isso”.

Caraca, meu! Isso aqui por acaso é uma competição de sofrimento? Ele virou modalidade nas Olimpíadas dos Menos Afortunados e a gente não tava sabendo?

Daí, eu disse à pessoa: “Você usa óculos, né? Tem miopia, astigmatismo, hipermetropia? Como você se sentiria se alguém jogasse seus óculos fora e dissesse que isso é bobagem, é frescura? Que isso é coisa da sua cabeça? Que você só usa óculos pra ficar estilosa e chamar atenção? Que existem pessoas com problemas muito piores na vista”?

É diferente”. – foi o que ela me respondeu. Ok, é diferente. A conversa acabou por ali. Não era diferente, era intransigente.

Então, agora, eu não estou falando com aquela pessoa que insiste em “insinuar” que eu deveria sentir vergonha por ter ansiedade – ou mesmo por falar sobre. Estou falando com você, que se sente sozinho e que, às vezes, tem raiva de si mesmo por ser considerado diferente.

Na época da escola, você chegou a ficar de recuperação? Era chato, né? Mas você não era a única pessoa da sala, vários amigos/colegas também estavam por lá. Todos com dificuldade na mesma disciplina, todos no mesmo barco. Não era divertido, a presença deles não era um alívio, mas era um alento – afinal, você não estava sozinho.

Outras pessoas com dificuldades semelhantes estavam ali – um apoiando o outro, um incentivando o outro, um zoando com o outro. Faziam grupos de estudo nos finais de semana, enquanto outros amigos saiam pro cinema, pra balada, pra casa da avó.

Era meio frustrante, mas, tudo bem, você não estava sozinho.

É com você que eu estou falando. Você não está sozinho. É fácil julgar, mas não é fácil caminhar. Todo mundo tem problemas, dos mais diversos tipos – principalmente os de saúde. Mas a grande maioria das pessoas tem muita dificuldade em falar sobre o assunto saúde mental, então, fale com quem está disposto a ouvir e a entender. Não deixa a vergonha te vencer, não deixa o preconceito te derrubar. Procure ajuda.

Não falar sobre problemas de saúde mental significa que o estigma tóxico que está por aí vai continuar impedindo as pessoas de pedir ajuda, de conseguir o tratamento que elas precisam e de ajudar as pessoas a entenderem que um transtorno mental é uma doença crônica, como qualquer outra doença crônica. Você não é a sua doença.” – Glenn Close, atriz.

Imagem: Pexels


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