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Olá, ‘migas. Peguem o chá de camomila porque (voz de narradora de documentários, rs): nesse texto você vai encontrar a relação entre o cantor de tantas emoções, Roberto Carlos; um protesto americano contra um concurso de beleza na década de 60 e o feminismo.

Sobre velhice e feminismo: os cabelos brancos de um eterno broto

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Tradução: os direitos da mulher importam!

Nas trocas que tive com azamiga por conta da primeira publicação, a problemática do padrão de beleza e como ela remete ao amor próprio foi abordada em praticamente todas as conversas, inclusive com minha mãe – o que me colocou a pesquisar e refletir mais sobre o feminismo para mulheres que hoje são mamães e vovós na terceira idade e que vivem, como sabemos, dentro de uma sociedade patriarcal que tanto tende a subestimar o amadurecimento e velhice femininos.

APRESENTO-LHES: O BROTO

Para aqueles que não me conhecem, mamãe tem 65 anos e ter uma mãe já na terceira idade me traz preocupações, mas também vários ensinamentos valiosos e serenidade. Tudo o que sou eu devo ao amor, confiança e liberdade que ela me dá (olhinhos brilhando). E, apesar das nossas diferenças, contrastes e discussões, nosso amor é inquestionável.

Sempre tive a sorte de ter uma boa relação com mamãe. Ela foi minha primeira professora na vida escolar e, nos últimos anos, fico feliz por ser eu quem tem tomado o papel de mentora nas nossas conversas, em uma tentativa de aconselhar e reeducar uma mulher a não sucumbir às lascas do machismo e da cultura patriarcal do interior paulista.

Como escreve Simone de Beauvoir no capítulo “Da Maturidade à Velhice”, em O Segundo Sexo (leiam esse livro!), a partir do momento que uma mulher é considerada velha, pelos olhos dos outros, ela “é bruscamente despojada de sua feminilidade; perde, jovem ainda, o encanto erótico e a fecundidade de que tirava, aos olhos da sociedade e a seus próprios olhos, a justificação de sua existência e suas possibilidades de felicidade: cabe-lhe viver, privada de todo futuro, cerca de metade de sua vida de adulta”.

Simone conseguiu descrever a angústia da velhice feminina quando tinha ainda seus 38 anos

Seja por empatia, observação ou por experiência própria, ela com (apenas) quatro décadas de vida, concluiu que as mulheres eram deixadas de serem vistas como mulheres para serem enxergadas como velhas e dispensáveis. E isso se dá por meio do olhar masculino que é ensinado a desejar mulheres que obedeçam a um certo padrão de beleza, conexo a esta análise, ao padrão jovem e submissa. (Machismo é uma bosta mesmo, fato)

O REI CANTANDO DESAMOR

Pois bem, um dia estávamos mamãe e eu arrumando a casa, eu na cozinha e ela na área de serviço. Como ninguém merece cair no tédio com essa rotina, tentei tornar as coisas menos piores. “Mãe, quer ouvir Roberto Carlos?”. Eu sabia que ela já estava cansada. Logo, cedi o meu gosto musical para fazê-la reviver boas lembranças da sua adolescência e a gente bater um papo. Coloquei a playlist do cantor com gosto até (juro), porque pouco tinha ouvido da sua discografia exceto as mesmas músicas de sempre de fim de ano na tv.

Veja bem, a intenção não é ofender as fãs do cantor e muito menos despreciar sua carreira, mas sim debater o feminismo com uma geração de mulheres que hoje são mães e avós, possivelmente fãs dele, que se deixaram levar no salão pela dança coladinha sem atentar para letras machistas disfarçadas de romantismo. Ou ainda pior, quando inconscientemente os dizeres dessas letras se estenderam para o casamento sendo acometidos sem contestações.

Eu revirei os olhos com várias letras

Mas mamãe parecia estar sob o efeito romântico da volta a sua juventude de tal modo que a conversa que se seguiu nesse dia foi primordial para eu ajudá-la a entender e querer tornar a vida dela menos acomodada, suas vontades mais firmes e seu feminismo, ainda que introspectivo, mais acentuado.

Ponderamos juntas como a música ‘É meu, é meu, é meu’, de 1968, fez parte da alienação sexista da década de 60 e 70, a qual, podemos induzir, fez com que quase toda uma geração, principalmente de cidade pequena, agora, pouco saiba, compreenda ou acate a luta feminista, justamente por causa de desinformações e do cenário midiático (que até hoje manipula nossa causa).

É uma música que retrata a imagem romântica da época, mas….

É compreensível que muitas mulheres a tenham recebido com graça em alguma serenata por conta das características do que era amar naquele tempo. No entanto, quando indagada por um olhar feminista, trata-se de uma letra machista e tirana, representante da dominação moral, material e física da mulher e que, definitivamente, não deve ser aceita como forma de amor.

Logo nos primeiros versos é identificado o aspecto sócio-cultural quando o homem ainda era o principal, quando não o único sustento financeiro do núcleo familiar, tornando as mulheres suas dependentes, sua posse. Se hoje é uma decisão delicada, imagine naquela época uma mulher ter coragem para sair de uma relação abusiva sabendo que estaria sujeita a retaliações moral e financeira? É uma realidade que não se atém somente à um espaço e tempo. É triste saber que muitas mulheres ainda são vítimas de violência em função da mentalidade possessiva dentro do relacionamento.

A letra também exalta bastante o corpo da “amada”. O que soa como elogio acaba por objetificar as mulheres quando enfatiza que beleza é o mais evidente – para, novamente, satisfazer um ideal sexualmente satisfatório para os homens. Há ainda a possibilidade de se interpretar a condição de disponibilidade emocional exigida das mulheres para agradar e cuidar de seus parceiros e os vários substantivos no diminutivo, (o que me irritou muito) que constroem a imagem de fragilidade da mulher e a sua condição de precisar pertencer a alguém – um homem – por conta disso.

Subordinadas até quando?

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Há também o debate de domínio intelectual com os dizeres “tudo o que você pensar” (é dele) e outro verso dizendo “não adianta discutir”, claramente se referindo ao silêncio e subordinação esperados da mulher dentro de um relacionamento, sendo mais notados em casamentos antigos. Mas, independente desse quesito, sem muito esforço, conseguimos recordar alguma ocasião quando a mulher, ao ter opinião própria, foi alienada, diminuída ou ridicularizada pelos parceiros por causa da crença de que mulheres não sabem das coisas, não é mesmo?

Podemos ainda levantar a discussão sobre a liberdade de expressão da mulher, uma vez que, por ter sido escrita e interpretada por homens, sua conotação pode ter sido mais comodamente aceita se comparada aos esforços que artistas mulheres tiveram, nos mesmos anos, para reafirmarem suas carreiras, seus potenciais e liberdades.

Enfim, escrota é apelido para essa letra e o que ela retrata, e por isso ela levanta tantos nichos de debate. Eu admito um certo extremismo na releitura que fiz dela e que, sim, a letra pode ganhar outras interpretações que se encaixem dentro de um relacionamento saudável. Mas o que mais me indignou foi que, enquanto eu conseguia enxergar abusos que muitas mulheres se submetem dentro de um namoro ou casamento, incluindo as desventuras do casamento de mamãe, ela precisou de ajuda para correlacionar esses fatos todos e o mais triste: ela não é a única que precisa ser amparada pelo movimento para enxergar essas analogias .

FEMINISMO E VELHICE

Mamãe é uma das mulheres que conheço que é feminista, mas não se declara como. Acredito muito que isso acontece por causa de tantos tabus e mitos que ainda cercam a ideologia, e que precisam ser simplificados e trabalhados (com muito amor na causa! rs) para que o movimento encontre e se efetive em mulheres mais velhas.

Mamãe não percebe, mas provou ser feminista várias vezes. E é o feminismo dela que se personifica em mim por amor e que por amor, eu tento fazer com que ela aprenda e entenda melhor a luta e siga adiante, se desvencilhando do machismo naturalizados. Confesso que às vezes é uma tarefa árdua. Afinal, são duas vivências e mentalidades opostas. Porém, é de tamanha importância que seu feminismo seja mais contundente para que ela se sinta mais à vontade com ela mesma.

Principalmente agora

Porque, convenhamos, não deve ser simples envelhecer e ver seu corpo mudar, sua energia diminuir, as limitações se imporem e ter que vender um rim para arcar com um plano de saúde, quando não, ter que se sujeitar ao atendimento público decadente. Deve ser uma realidade doída de se encarar e mais ainda quando você tem ciência dos números. Mas seu espírito ainda infere o melhor da sua juventude.

Quantas vezes não ouvimos dos mais velhos que eles pensam como se ainda tivessem seus 30 anos, quando tem 70?

ACONTECEU NA HISTÓRIA

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A música foi lançada em 1968. Coincidentemente, no mesmo ano, nos EUA, ocorreu o episódio conhecido como Bra-Burningou A Queima dos Sutiãs. O acontecido foi um protesto com cerca de 400 ativistas do Women’s Liberation Movement (pesquisa lá sobre elas!) contra a realização do concurso de Miss America em Atlantic City.

A opressão do corpo e intelecto femininos é antiga e, aparentemente, nenhuma civilização foge da criação de padrões para dominar as mulheres através da imposição do que deve ser belo e aceitável, com conceitos e tendências criados por homens e para a satisfação dos mesmos (nenhuma novidade até aqui). Então, como protesto contra a indústria da beleza que submetia as mulheres psico, físico e economicamente, as ativistas jogaram em latões seus sutiãs, sapatos de salto alto, cílios postiços, sprays de laquê, maquiagens, Playboys, espartilhos, cintas e outros ditos “instrumentos de tortura” com intenção de queimá-los. Contudo, o fogo nunca se acendeu porque não foi permitido pelas autoridades, por se tratar de um espaço privado. E mesmo assim a atitude foi revolucionária.

O protesto chamou atenção midiática, contudo, teve um efeito dual

Por um lado propagou o ideal do movimento diante de uma luta justificada. Ao mesmo tempo, a mídia misógina se atreveu a manipular a conotação da imagem daquelas mulheres reunidas ao colocar, por exemplo, a imagem de uma militante em plena reinvindicação com o dedo apontado para um policial ao lado da foto de uma das concorrentes do concurso, questionando, explicitamente, qual das mulheres a sociedade preferiria. Em outras palavras, qual mulher os homens deveriam fazer suas parceiras se tornarem, seja pelos meios que fossem.

Esses concursos de miss disso e daquilo, a exploração comercial e a sacrifício físico que a indústria da beleza nos submete são peritos em nos limitar, criar estereótipos e competições no mundo feminino e faz parte de um sistema fortemente cravado na mente e comportamento das pessoas, principalmente das mais velhas que acreditam em conceitos afrontosos sobre o que é romance, beleza e direitos da mulher, sendo carentes de ajuda para alcançar a completude do feminismo.

REFLEXÕES FINAIS (FINALMENTE, EU SEI, RS)

Das mulheres que protestaram em 1968, hoje, muitas são professoras universitárias, escritoras, filosofas e militantes. Elas trazem maturidade e peso para a luta pelos direitos das mulheres. E como nos ensina nossa ‘miga Simone de Beauvoir, o feminismo deve nos ensinar que cada mulher deve ser o que ela bem entender e que ela será acolhida. O feminismo é plural e se transforma para acomodar realidades e construir novos significados a partir das vivências de cada uma, afim de tornar o movimento e a sociedade mais justos para com todas.

A música do tio Roberto nem toca mais no rádio (por que mexer com o que está quieto, Carmen?!). Mas a razão de a ter trazido à tona novamente é justamente criar um feminismo que atente para mulheres da terceira idade. Principalmente a mais vulneráveis, que precisam de ajuda para quebrar seus próprios tabus e inseguranças com relação ao seu corpo ou suas ideias.

Juntas somos mais!

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Aqui, então, cabe (re)lembrar que somos lindas à nossa maneira e o amor pelo nosso corpo. Nossa história e nossa natureza nos fazem fortes, independentes e poderosas. Passamos ou vamos passar pelos mesmos dilemas e a sororidade deve consolidar-se cada dia mais. Então, lembre-se de que você não está sozinha. E que, como disse Simone de Beauvoir, a “transformação é a lei da vida” e “a inércia, essa sim, é equivalente à morte.

É fato que nós seremos senhoras diferentes do que nossas avós e mães são: mais livres e confiantes. Aquelas que colocarão nossa própria alegria antes da de qualquer homem. Mais tolerantes e justas – principalmente com nós mesmas. Nós temos ideia do que queremos para quando formos velhas. Afinal, estamos redefinindo o que é ser uma mulher velha ao quebrar padrões antigos de beleza e conduta. Assim, é tanto quanto nosso dever nos voltarmos para o potencial e ensinamentos da terceira idade para que o movimento ganhe mais força e voz.

Cada um pode atribuir o tom que quiser às músicas como essa que analisei com mamãe. No entanto, as feministas vão encontrar mais um motivo para nos rebelarmos contra o patriarcado. O objetivo? Garantir direitos e igualdade social. Tanto para as novinhas, quantos para os eternos brotos.

Vai lá e mostra esse texto para alguém que você ache que precisa lê-lo. E obrigada por ter lido até o fim (reverência).

Imagem: Pixabay


 


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