O que você procura?

Nessa semana carregamos uma data simbólica muito bonita. Acontece que dia 08 de abril é o Dia Mundial do combate ao câncer. E, por coincidência, foi neste mesmo mês, há dois anos, que perdi uma de minhas melhores amigas.

Foi minha primeira experiência de luto, e uma das minhas maiores provas de amor e fé. Com a doença dela, aprendi que uma das ferramentas de combate ao câncer mais poderosas não está no tratamento, mas sim nos afetos. Mas senta aqui um tiquinho que vou te contar o por quê digo isso.

Prazer, Aída Flora

combate ao câncer

Dona Aída era uma taurina convicta, assim como sua neta. Nós duas carregávamos um laço muito especial, que era ligado por maquiagens, novelas das seis, novenas de fim de ano e VÁRIAS cochiladas ao longo da tarde. Ela, assim como eu, adorava um drama. Seus filmes prediletos deveriam ter um enredo baseado em fatos reais. Aliás, ela tinha um gosto bem obscuro por ‘romantizações de sofrimento’, principalmente quando ela estava no meio. E, curiosamente, essa era uma das coisas que eu mais gostava nela, porque era teatral, porém, autêntico. Se não tivesse um draminha no meio, não era a minha avó, entendem?

Ela viveu a vida inteira para os outros, e eu me incluo nisso. Ela carregava o maior estereótipo de vovó amorosa de todos os tempos. Sua receita? Amor. Assava bolo, fazia farofa toda vez que eu ia almoçar com ela, montava em mim, me mordia toda e batalhou contra sua própria labirintite quando eu, no auge dos meus 10 anos, pedi a ela para ir em um brinquedo de parque comigo. E sim, era uma daquela sombrinhas que rodavam. Até que foi tranquilo pra ela… eu espero!

Enfim, por umas boas décadas, ela fez do seu objetivo de vida comer, rezar, amar…. e cuidar do meu vô. Apesar de achar que ela exagerava no tratamento de vez em quando, não era de se espantar. Sô Velário enganou a morte umas trocentas vezes. Desde que me entendo por gente, ele já fez duas cirurgias de ponte de safena, teve câncer de próstata, teve um AVC, e até hoje costuma ter uns episódios de epilepsia. Só que eu conto isso rindo, com o coração todo quentinho, porque acredite se quiser: ele continua um pentelho até hoje, que faz todo mundo rir.

combate ao câncer

O lance é que ela fazia isso com tanta dedicação, tanto amor, que não parecia ser um esforço cuidar dele e da família. Na verdade… ela sempre foi movida por esse sentimento.

O tal do ‘carocinho’

Só que daí a vida de vovó deu uma reviravolta que fez com que ela olhasse mais para si. Ela teve que aprender a se amar mais, sabe? Se colocar na frente dos outros de vez em quando.

Me lembro do dia como se fosse ontem. Ela me ligou para perguntar qual anti-inflamatório eu tomei para sarar minha amidalite. ‘Era Nimesulida, vó. Mas por quê?’. ‘Ah, eu tô com um carocinho aqui no pescoço que deve ser uma inflamação‘.

Ok, era só ela tomar durante sete dias e pronto.

Aproximadamente um mês depois descobrimos, bem antes dela, que o carocinho era, na verdade, um tumor maligno. Tentamos esconder a notícia por 4 dias, para que ela pudesse aproveitar uma viagem que estávamos fazendo na época. Mas entre uma cervejinha e outra, ela falava que sabia que estava doente, e que esse poderia ser o último ano de vida dela.

Tenho a imensa felicidade de te contar que ela, no auge dos seus dramas hiper românticos, se despediu de todos nós pelo menos duas vezes a cada ano, por cinco anos. Todo aniversário era “o último”, todo ano novo era um jeito diferente de dizer “adeus”, mas a gente sabia que o corpo dela dizia o contrário. Ela estava bem, e em paz de espírito, porque sabia que não estava sozinha. Era curiosa a forma como ela falava que nunca se sentiu tão perto de Deus como naquele momento.

A maior ferramenta de combate ao câncer é o amor, e a fé

combate ao câncer

Acontece que estou contando toda essa história para explicar que o maior tratamento de combate ao câncer que minha avó teve foi a fé, e o nosso amor. De nós por ela, e dela por nós.

Não tinha UM dia sequer que ela não assistia a missa das 6 (porque teve uma época mais chatinha que ela não conseguia ir à igreja). A rotina era certa: rezar o terço das 6, assistir a novela das 7, e depois sentar na mesa da copa e ler uma revista, ou um jornal. E eu ficava do lado dela em todos esses rituais. ‘Deus te abençoe, minha netinha querida‘. ‘Bença ne nós todos, vó‘. ‘Amém. Quer que eu esquente uma sopinha pra você?‘.

Não digo que nem ela, e nem nós, não sofremos ao longo de seu tratamento. Mas a cada vez que eu via ela fechando os olhinhos enquanto cantava os versos dedicados à Mãe Rainha, dava pra sentir o poder que a fé dela, e o nosso amor, tinham sobre aquilo tudo.

O combate ao câncer acontece pela prevenção, pelo tratamento, pelas idas rotineiras aos médicos, mas não podemos NUNCA esquecer que o maior antídoto para isso tudo é a fé, e o amor. Eu não sou religiosa, e confesso que depois que minha vó adoeceu, perdi um pouco a fé. Estranho, né? Enquanto ela se enchia de esperanças, eu perdia. Mas só de ver o quanto ela ficava mais e mais forte, eu ficava bem.

Mais para o finalzinho, ela ficou de cama por uns três meses. Toda lindona, com as unhas feitas. Ela carregava um olhar vazio de vez em quando. Parecia que a morfina fazia ela esquecer de quem era, ou de onde estava. Mas assim que ela me via, eu reconhecia nos olhos dela a minha avó danada, que me fazia rezar e me mordia depois.

Os escudos dela eram também os nossos

combate ao câncer

Ela conseguiu batalhar contra o câncer por 5 longos anos, e no meio destes, ela chegou a sarar de verdade. Entrou em remissão. Saiu cantando pelas ruas que ‘a saúde é o que interessa, o resto não tem pressa’. Infelizmente, o maldito carocinho começou a crescer de novo, e não tinha nada mais o que pudéssemos fazer, a não ser dar amor.

E foi o que fizemos. No começo, eu não conseguia olhar para ela direito. Tinha medo de encarar a ideia de perdê-la. Mas o tamanho do amor que eu tinha (e tenho) por ela me ajudou a olhar nos olhos dela todos os dias, enquanto eu cantava que a netinha linda dela havia chegado.

E não teve um dia sequer que ela não sorriu para mim.

combate ao câncer

Enfim… é claro que é importante tratar de assuntos que envolvam o combate ao câncer de forma consciente, mas eu queria dar um viés mais leve para esse tema. Queria dizer que o amor e a fé sobrevivem a tudo, e que o antídoto está na forma como demonstramos estes dois.

Eu amei minha avó com todas as forças do ano 0 ao 23. E assim fez toda a minha família também, cada um no seu tempo. E é isso que sempre deu forças a todos nós.

 


@ load more
E-mails especiais
Faça parte da comunidade de mulheres mais empoderadas do mundo!
Escolha os temas que mais gosta
Quero!
Obrigada, agora falta pouco...
Por favor, fique de olho em sua caixa de entrada (às vezes, pode acontecer do email estar no SPAM ou na aba Promoção caso use GMail). Quando receber nosso email é só clicar no link de confirmação ;)
Enviaremos nos próximos minutos um email para você confirmar o recebimento de nossos conteúdos.
Os melhores conteúdos do Superela.
Um único email por semana.
Queremos te enviar OS MELHORES
conteúdos do Superela.
Você vai adorar! ❤
Vamos ser amigas? :)
Queremos te enviar OS MELHORES
conteúdos do Superela.
Você vai adorar! ❤