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10h da manhã. Dois de Novembro.

Com uma câmera no pescoço, um bloquinho e uma caneta no bolso, percorro o cemitério. Não quero explorar a tristeza de ninguém, apenas retratar tudo o que me chamar atenção. Quero presenciar em silêncio o ritual que não faz parte de mim, pois não tenho religião. Minha mãe e minha avó me seguem, atentas às minhas paradas a fim de não atrapalharem a foto. Eu busco o responsável pelos cuidados do local.

Ainda estamos no primeiro cemitério. Túmulos simples e olhares curiosos me cercam. “Estou muito ocupado”, responde o funcionário de cabelos brancos e cigarro na boca, enquanto assiste à televisão de 14 polegadas sem volume. Ao me dirigir ao cruzeiro, observo diversas oferendas, flores e resquícios de velas que nunca param de queimar – sempre há alguém para acender mais uma. Em silêncio e com todo o respeito procuro fotografar o momento, preservando a identidade daqueles que fazem preces. “Você tem autorização para fazer isso?”, pergunta uma mulher que alega um “incômodo geral”. Olho para os lados e digo que não estou fotografando o rosto de ninguém, mesmo que ela seja a única prestando atenção na minha presença.

Os vivos é quem precisam de mais paz, tolerância e amor no coração”, pensei.

feminicídio

Fomos para o cemitério municipal. Estamos num condomínio? Desculpa, a cidade não é tão grande e ainda não me acostumei a ver os mausoléus chiquérrimos – melhores que muitas casas. Chegamos em meio a uma multidão. Centenas de pessoas se amontoam para ver os túmulos de duas figuras importantes para a história do município. Com receio, tiro a tampa da lente e aponto a câmera para os corredores que mais parecem ruas de um bairro nobre. Bobagem, poucos segundos depois avisto “flashes” e “selfies” do meu lado, daqueles que parecem fazer algum tipo de “turismo necropolitano”. Não resisto e me uno a eles na caça daqueles castelos mortuários. No cruzeiro, uma família acende velas. O pai orienta a filha enquanto a mãe observa a cena. Peço licença, ainda “arisca” pela experiência do outro cemitério. “Sem problema algum”, diz ela. Ao sair, me despeço do meu antigo professor de física e membro de uma igreja evangélica, que entrega panfletos cujo título pergunta “o que acontece com a vida após a morte?”. Pensando nisso, eu dou uma última olhada no portão de ferro pesado.

Para quantas de nós mulheres as flores representam morte?

Quantas de nós estivemos de frente a esse mesmo portão pelo simples fato de sermos mulheres? Nesse momento eu quero números. Chego em casa e, buscando na internet, me deparo com uma afirmação do site da Organização das Nações Unidas (ONU) no Brasil, numa notícia publicada no ano passado (2016). “A taxa de feminicídios no Brasil é a quinta maior do mundo”. Não, o corretor é quem está errado desta vez. Feminicídio, essa palavra existe. Uma mulher morrendo pelo simples fato de ser mulher. Morrendo pelo simples fato de ser dona de seu corpo e seu espírito.

feminicídio

Quantas mulheres já foram jogadas, trancadas e compactadas naqueles mausoléus? Naquelas lápides? Naquele chão? Quantas de nós estão embaixo da terra agora – em carne, osso ou pó? Sob aquela terra fria e pesada, dentro daquele bloco de madeira. Não há mais ciúme bobo, agressões acidentais ou casamentos preservados pelo bem dos filhos. Lá só há escuridão e esperamos que haja paz. Depois que tudo acaba, o boletim de ocorrência vira uma estatística. Depois que uma mulher morre, todo o preconceito e a discriminação se tornam as armas do crime. E quanto às que estão vivas?

Nesse exato momento uma mulher é agredida, estuprada, assediada e coagida.

Nesse exato momento uma mulher é encorajada a desistir da denúncia. Fazem ela pensar que merece a violência que recebe. Fazem ela pensar que não é capaz de reagir e se o fizer não será amparada. Muitas vezes, quando ainda assim tem forças para resistir, realmente não recebe o apoio que precisa – nem de autoridades nem de pessoas próximas. Minha mãe está fora de casa, trabalhando em pleno feriado, percorrendo as ruas e visitando casas. Será que ela está bem?

Eu rezo para que não seja com ela ou comigo dessa vez.

feminicídio

Me dói o coração pensar que é com a mãe ou filha de alguém. Por um momento me arrepio, pois posso sentir o grito agudo de dor da Grande Mãe por todas nós seres femininos ecoando na Alma do Mundo. Corre, mulher! Corre! Pede ajuda! Não se cala! Pudera eu acolher de braços abertos no calor do meu peito todas as mulheres que já tiveram que passar por algum tipo de violação do seu espaço. Pudera eu pedir como presente de Natal ou desejo de Ano Novo que todas nós tivéssemos um único dia para descansarmos em paz ainda com vida!

16h37min. No dia em que escrevi esse texto era Dia De Finados, mas para todas aquelas que lutam pela vida a cada segundo, é apenas Dois de Novembro.

Imagem: Camila Maciel


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