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Você também deve ter passado o fim de semana assistindo a segunda temporada de Stranger Things, que estrou na sexta-feira, dia 27. E por mais que eu tenha ficado tentada a passar os meus dias só me atualizando sobre a trama, um comentário no Twitter me chamou a atenção. Ele tinha a seguinte pergunta: ‘o que aconteceu com a Eleven de Stranger Things?’.

Era claro que o questionamento não tinha nada a ver com a personagem Eleven, mas com a atriz que a interpreta, Millie Bobby Brown, já que mostrava duas fotos diferentes suas: a primeira na festa de estreia da série no ano passado e a segunda, no mesmo evento este ano.

A diferença é gritante. Porque, antes, Millie representava exatamente a idade que tinha, 12 anos: com looks mais com cara de criança, sem saltos ou maquiagem pesada e os cabelos mais naturais (ela raspou a cabeça para o papel, se você não sabe). Mas agora, ela envelheceu 20 anos, usando roupas e um cabelo que com certeza não são condizentes com uma criança de 13.

Sim, a Eleven ainda é uma criança.

Mas parece que as pessoas esqueceram desse fato e vimos, bem diante dos nossos olhos, como acontece o processo de sexualização de jovens atrizes no showbiz. A gente já comentou sobre isso antes, especificamente sobre como Camila Cabello, do Fifth Harmony, passou por isso.

A mudança de Millie Bobby Brown foi tamanha, em apenas um ano, que ela chegou até a ser considerada uma ‘mulher sexy’ por uma revista internacional – uma falha de comunicação, porque a W publicou na capa o nome da atriz abaixo do título ‘Porque a televisão está mais sexy do que nunca’. Ainda assim, é no mínimo curioso que o nome dela tenha aparecido sob esse contexto.

De qualquer maneira, é um fato que a aparência de Millie foi muito manipulada. Agora, ela usa mais maquiagem, aposta no cabelo liso e numa roupa mais ‘madura’. A impressão é que ela já é adulta, e não uma pré-adolescente.

Ela não é a primeira a passar por tudo isso. Maisie Williams está no elenco de Game Of Thrones desde os 12 anos e comentou que teve sorte – segundo ela, o seu papel não exige que ela seja ‘bela’ e, por isso, ela não sentiu que foi vista por esse viés, um preferido de Hollywood. Porém, conforme as temporadas evoluíam, ela sentiu a pressão crescer e a sensação foi um pouco destrutiva para ela.

A modelo Cara Delevingne também comentou que a sexualização de jovens mulheres é ‘nojenta’. Ela, que começou a carreira cedo, sentiu na pele o que é ser vista por olhos que a transformam em um objeto sexual, quando ela nem mesmo entendia o que é ser sexy. “Você começa quando é muito jovem e fica sujeita a coisas que não são boas”, disse ela.

A sexualização de meninas começa cedo.

Você lembra do caso de Valentina, do Masterchef Junior? A menina, que tinha 12 anos na época, foi alvo de inúmeros comentários nojentos (na falta de outro termo melhor) de homens adultos nas redes sociais. Ela, que era uma criança como todas as outras participantes do programa, virou um objeto sexual só porque aparentava ser mais desenvolvida e ‘bonita’ do que as demais.

A verdade é: qualquer relação de natureza sexual com uma criança é considerada estupro. E ter qualquer tipo de relação sexual com menores de idade ou consumir conteúdo erótico produzido com crianças é, sim, um ato de pedofilia. A questão é que essa sexualização de meninas parece normal, porque a nossa sociedade ensinou que as mulheres têm uma única função: satisfazer os desejos do homem – e nem podemos chamar esses homens de pedófilos por isso, já que não houve um crime consumado e a pedofilia é uma doença mental que pode ser tratada quando diagnosticada.

Dessa forma, a partir de uma certa idade, em que as meninas já ‘aguentam’, segundo os comentários nojentos (de novo) que vemos por aí, elas já são vistas como capazes de cumprir essa função. Não só isso, mas o fetiche masculino por mulheres mais novas e o reforço dos padrões de beleza por uma aparência sempre jovem infantilizam mulheres adultas – alimentando esse ciclo de erotização infantil.

O que aconteceu com a intérprete de Eleven é mais um reflexo de como a nossa sociedade enxerga as mulheres. Ao mesmo tempo que colocamos meninas com roupas mais justas e decotadas, com cara de ‘mulherão’, vemos ensaios de mulheres mais velhas com bichinhos de pelúcia, uniformes escolares e outros elementos infantis que transformam a inocência de uma criança (especificamente, de uma mulher) em algo altamente sexualizado.

Por conta de toda essa ‘bagagem’ cultural, criou-se o mito de que as meninas amadurecem mais cedo que os meninos. Isso é mentira. Essa ideia só existe porque as meninas precisam lidar com pressões sociais que os meninos não têm acesso. Elas desde novas têm que aprender como lidar com as investidas masculinas, são ensinadas a serem mais delicadas (para conquistar os homens) e cuidadosas (porque são responsáveis pela casa, na maioria das vezes). Elas engravidam, então carregam a responsabilidade de ter um filho o tempo inteiro na cabeça – e o aborto é proibido, por isso são elas que têm que tomar cuidado para não engravidarem e os homens são isentos dessa responsabilidade.

Ou seja, as meninas aprendem coisas que os meninos desconhecem, elas vivem uma realidade diferente, e por conta disso, precisam aprender mais cedo a ter uma cabeça de adulto. Além disso, a própria sociedade incentiva que as mais novas namorem homens mais velhos, justamente porque tem a cabeça mais madura e precisam de uma diferença de idade para encontrarem um parceiro à altura. Pura mentira, é apenas uma forma de manipulação para isentar o homem de desejar mulheres muito mais novas do que eles e, por consequência erotizar crianças.

Tudo isso é uma representação da cultura do estupro e da violência que a mulher sofre diariamente. O ponto principal é que nada disso é culpa de Millie Boby Brown, ou de qualquer menina que tenha passado por um processo erotizador na vida (praticamente todas). É um reflexo de uma construção social altamente machista e que pré-determinou que as mulheres são objetos sexuais criados para servir ao homem.

A saída disso, com certeza, é a educação: educar homens sobre o seu privilégio masculino, sobre como essa visão afeta a vida de meninas no mundo inteiro e o que precisa mudar para que homens e mulheres sejam considerados iguais. O caminho é longo, mas é necessário. Afinal, menina nenhuma merece perder a infância se preocupando com o peso ou com ‘os namoradinhos’ só porque as pessoas acreditam que isso é normal.

Foto: Instagram / Reprodução


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