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Não me lembro ao certo, de como foi à aquisição do meu primeiro diário pessoal, mas foi na infância, por volta dos nove anos, depois de uma aula de português na escola que incentivava essa prática. Sempre fui uma criança só e tímida, extremamente amada e criada por avôs, com todo aquele jeito maravilhoso que eles têm de conduzir vidas. Era diferente, magra e muito alta, então o bullying era constante. Não entendia bem aqueles dois universos tão diversos, um de extremo amor em casa e outro doloroso na escola.

Hoje percebo como foi importante e libertador transformar minhas emoções em palavras naqueles diários. Com mais maturidade e alguns anos de escritos reprimidos, sim, aos quatorze anos queimei todos eles como uma forma de catarse e retornei a escrita aos trinta e quatro, isso soa até meio cabalístico, mas posso dizer que retornar me trouxe leveza novamente, por fazer do papel um ouvido amigo mais uma vez.

Na verdade ele sempre foi aquele grande companheiro, acolhendo minhas lágrimas e recebendo meus sorrisos. Tornava-se roteiros para os sonhos, um instrumento fantástico. Hoje não mais acolhe as angústias geradas pelos apelidos de poste ou vara de cutucar estrela, recebidos na época, mas as delícias e o amargor de estar em crescimento e experimentação nesse grande laboratório chamado vida.

Durante o dia a dia, escrevemos muitos posts, e-mails, textões no WhatsApp, desabafos no Twitter, entre outros, mas pouco falamos e escrevemos sobre nós, sobre nossas emoções verdadeiras. Pouco expressamos sobre o sentir, pouco escrevemos ou falamos sobre o sorrir, sobre desejos e anseios. Lembro-me da época das cartas e de como era poético o seu recebimento e envio, um espaço onde se abria o coração e as emoções tomavam formas. Me arrisquei novamente ao diário pessoal, meio tímida, ressabiada, mas feliz por cada frase escrita. Naquele espaço posso transbordar meu eu sem medo ou receio de perder meu tom.

Então que tal tentar? Que tal falar e escrever mais sobre os sentimentos, como um meio de extravasar e difundir as alegrias, tristezas, sabores e amargores de se estar aqui. Isso pode ser surpreendente, pode trazer força, lágrimas e muitas risadas. É tão bom receber carinhos ou ter uma conversa sincera, porque não iniciarmos conosco?

Comece com um bilhete, daquele escondido no guarda-roupa, uma carta deixada no travesseiro, um cartão bonito que te incentive, uma frase bacana na geladeira ou no espelho. Ou até mesmo a composição de um diário pessoal, porque não? Para te incentivar, deixo abaixo a minha narrativa fazendo as pazes com o meu e torço para que possamos cada vez mais, através de escritas, falas, gestos ou pensamentos, trazer leveza, coragem e certezas de como sempre podemos ser plenas.

Meu querido diário…

… Estou de volta e realmente com uma saudade que só pude sentir agora. Percebi através desse reencontro, a falta que faz transformar os anseios, a dor e a alegria em palavras. Desde do último encontro muita coisa ocorreu. Aquele tão sonhado dezoito anos aconteceu e aquele grande amor sentido, não era tão grande assim.  A escola e seus bullyings, que na época nem tinha esse nome, foram superados, mas trouxeram uma grande paixão por girafas, por tantas vezes ser chamada por elas, lembra? Eu te narrava aos prantos toda essa dor, que se transformou em amor ao 1,80 de altura, inacreditável não é? Quem diria que eu iria gostar da minha estatura.

Conta lá Diário, para aquela menina sonhadora e triste, que suspirava por querer ser como as amiguinhas, que tudo mudou e que crescer dói, mas é libertador. Conta pra ela também que todo aniversário tem bolo enfeitado e que pão com mortadela e Coca-cola não tem mais o mesmo gosto dos da excursão da escola. Conta para ela que não houve casamento aos trinta e que não se é velha aos trinta e cinco. Há os trinta! Foi uma super festa, duas bandas de rock, amigos queridos e espumante para comemorar, com pedido de beijo na boca de presente e tudo. Não houve crise. 

Conta para aquela menina que ela pode sonhar, que pode querer alçar voo e voar. Conta para ela que é importante se olhar, se respeitar e sentir. Que ela pode se expressar e que deve se amar. Conta para ela que tudo tem seu tempo e que o florescer precisa seguir etapas importantes para germinação. Fases que nos exigem o adubo e cuidado do auto amor, a água da renovação e o sol da luz interior.

Conta para ela que tudo passa, por isso é necessário degustar a vida, provando seus sabores e escolhendo o melhor que ela pode nos oferecer, mas agradecendo também pelas dores do caminhar, que trouxe e trará o aprender. Conta para ela a importância do sorrir, aquele sorriso que vem da alma, acompanhado do brilho nos olhos, daqueles que valorizam as pequenas delicadezas e gentilezas do porvir e não esqueça, por favor, de citar sobre o valor terapêutico do abraço, aquele bem dado, que demonstra o encontro de dois corações em uma troca tão necessária de afeto.

Fala com ela para dançar, para rodopiar o corpo e sacolejar a alma e que o melhor diálogo começa em si. Que possa sentir as cores e viver seus amores do início ao fim e que o fim é só um recomeço.

Um dia Diário, ela vai crescer, vai ficar apressada e prática, anulará seus sonhos, considerará fraqueza falar de si. Pode ficar insegura, não olhar nos olhos e ter o mau humor daqueles que não se permitem. Pode escolher relacionamentos mornos pelo medo de ousar e de se expor. Por isso conta tudo para ela bem rápido, para evitar qualquer embaraço, para que ela possa realmente ser e sentir.

Imagem: Pinterest

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