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Sexta-feira 13. O que para alguns pode lembrar um filme de terror dos anos 80, para uma supersticiosa apaixonada por Halloween é mais do que uma data especial. A comemoração não podia ser melhor: à noite tinha um encontro marcado com Adore Delano, drag queen revelada no programa RuPaul’s Drag Race, na festa Realness, no Centro do Rio. O estilo de Adore, inspirado nas bandas de grunge dos anos 90, desafia estereótipos de gênero por fugir das representações sociais do que é considerado “de homem” ou “de mulher”. Enquanto algumas drags escolhem um visual mais “polido”, e optam por usar vestidos, espartilhos e salto alto, ela acredita que a beleza da arte drag pode ser expressada através de uma camisa xadrez e pés descalços.

estereótipo de gênero

Imagem: Reprodução/ Realness

Apesar de me considerar uma “drag queen em formação”- ainda não tenho um nome (sugestões?) e nem sei cobrir as sobrancelhas-, precisava estar montada para conhecer uma das minhas maiores inspirações drag. Escolhi a personagem Tiffany Valentine (a noiva de Chucky, o boneco assasino) como referência para combinar com o visual de Adore. Quem me ajudou em todo este processo foi minha amiga Athena Sparks, drag queen do Pietro Leon que arrasa a cena do Rio de Janeiro há cerca de três anos.

O que eu não esperava, era que o encontro e a performance de Adore seriam superados pela apresentação de Palloma Maremoto. A drag carioca, persona da Shizue Morimoto, subiu ao palco como uma boneca em tamanho real, ao som de “Barbie Girl” e incorporava todos os estereótipos de gênero do que uma “mulher perfeita” deveria ser. Peruca longa loira, tubinho rosa e maquiagem exagerada. A performance se tornou uma crítica a estas imposições quando a música trocou para “Máscara”, da Pitty e ela se despiu de tudo, literalmente. Rasgou uma espécie de máscara de látex que usava no rosto, arrancou o vestido, se encharcou de glitter vermelho e levantou uma bandeira com os dizeres “Meu corpo é arte livre”.

Foto maravilhosa da @larissasav na performance de ontem na @realnessrj ❤ #performance #dragqueen #drag #rpdr #barbiegirl

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Foto: @lucascgibson na última @realnessparty com @adoredelano . #dragqueen #drag #performer #riodejaneiro #makeupartist

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“Quando a gente faz drag “veste a máscara” para se despir perante ao mundo. Você se monta pra se desmontar. É um momento que a gente recebe a liberdade social de ser qualquer coisa que nós quisermos, inclusive nós mesmos.” Palloma Maremoto, em entrevista exclusiva para o Superela

A importância da quebra de estereótipos de gênero desde a infância

Embora tivesse ficado extasiada e inspirada pelas apresentações, quando acordei no dia seguinte, o que vi na minha timeline foi uma enxurrada de discurso de ódio. O vídeo “Na hora do Lanche”, postado pela Universidade de Juiz de Fora (UFJF) em homenagem ao dia das crianças, estava causando polêmica nas redes sociais. A drag queen Femmenino, personagem de Nino de Barros perguntou às crianças de um colégio o que elas queriam ganhar de presente, e o que achavam da divisão entre brinquedos “de menina” e “de menino”.

O deputado Jair Bolsonaro e páginas como a do movimento Escola sem Partido compartilharam um trecho de 15 segundos editados do vídeo original. A postagem de Bolsonaro aparece com os dizeres “Prestem atenção na canalhice que estão fazendo com nossas crianças”. Na página Femmenino no Facebook, Nino postou um vídeo em resposta a alguns dos comentários que recebeu. “Queremos acabar com a família? Sim, mas apenas com um tipo de família, é um formato muito específico de família patriarcal que mantem homens e mulheres presos em padrões do passado”, diz o artista.

Por mais divertida que tivesse sido a minha noite anterior, não dava para ficar tranquila ao ver com os meus próprios olhos o preconceito escancarado contra um artista que desafia estereótipos de gênero, e levanta uma bandeira que também faz parte da minha luta pessoal. Por isso, reuní um time incrível de drag queens experientes para contar como essa divisão entre “coisas de menina” e “de menino” podem ser prejudiciais desde a infância e explicam como a arte drag pode ser uma importante ferramenta de expressão pessoal de gênero.

Drag queens e performance de gênero

estereótipos de gênero

Athena Sparks (esq.), Vlada Vitrova (centro), Palloma Maremoto (dir.)

Quando era pequeno, o Pietro foi obrigado a surfar, andar de skate, jogar futebol, mas o que ele gostava mesmo era brincar de boneca. Roubava as bonecas da irmã oito anos mais velha, cortava os cabelos e esperava que a irmã jogasse no lixo para que ele pudesse pegar. Já a Leticia, quando ganhou uma casinha de bonecas fez questão de encher de animais de plástico e de bonecos do forte Apache para simular um “incêndio”. A Shizue, por sua vez, não era muito fã de rosa porque “não queria se enquadrar” no padrão do que era característico “de meninas”.

O que essas três crianças tinham em comum é que não se conformavam com os estereótipos de gênero impostos a elas. Por muitas vezes, seja na infância ou na adolescência, eles foram chamados atenção por não se comportar de acordo com os padrões da sociedade.  Ainda bem, porque cresceram para transformar todos esse questionamento em arte, e deram origem às drag queens Athena Sparks, Vlada Vitrova e Palloma Maremoto, respectivamente.

“Eu vejo drag como uma forma de contestar e discutir as expectativas sociais e os estereótipos de gênero. Seja pela performance do gênero oposto, ou a performance do próprio gênero. Ou a performance de algo que não se enquadra nesse binarismo – que é o que eu pessoalmente acho mais interessante!”– Vlada Vitrova, em entrevista para o Superela

A arte é um importante instrumento de expressão e transformação da sociedade. Conforme os debates vão avançando, é importante que as performances acompanhem esta evolução, e principalmente, ultrapassem o senso comum. Considerando que estamos vivendo uma fase na qual intervenções artísticas dentro de museus estão sendo censuradas, é ainda mais relevante que artistas fora do mainstream ganhem reconhecimento para mostrar que os questionamentos sociais, sejam eles sobre igualdade de gênero, identidade de gênero ou sexualidade, não serão silenciados.

“As pessoas têm dificuldade de entender o que é gênero, de entender o que é sexualidade e de entender o que é arte. Isso é uma forma de sanar essa dificuldade, não é simplesmente uma causação de mostrar e afrontar. É um afronte sim, mas um afronte pensando na compreensão das pessoas.”- Athena Sparks, em entrevista para o Superela

Segundo a Vlada, que além de ser drag queen já deu aula para crianças de 3 a 11 anos, a imposição de estereótipos de gênero na infância pode causar isolamento, dificuldade de aprendizado e até aversão a relacionamentos. A Palloma conta que cansou de ouvir dos caras com quem se relacionava que ela era “muito independente” ou “muito solta”. “Ou seja, eles não gostavam que eu os tratasse como eles tratavam as mulheres”, reflete.

Para a Vlada a solução foi incorporar uma personagem espiã soviética, uma representação de mulher forte, decidida e independente, e não surpreendentemente a vilã que antagonizava com a donzela delicada sexy e amável dos filmes. Outras mulheres como a Vlada e a Palloma têm recorrido à arte drag para se expressar dentro do feminismo, e construir um novo conceito de feminilidade através de suas personas.

“Fazer drag me tornou uma feminista mais ativa. Quando se entra em um meio dominado por homens é preciso se manter forte e muito consciente do lugar que a mulher deve ocupar na sociedade. “- Palomma Maremoto, em entrevista exclusiva para o Superela.

 


Agora que você já refletiu sobre estereótipos de gênero, que tal ajudar uma amiga no Clube Superela?

 


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