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Hollywood foi tomada por uma polêmica das grandes: Harvey Weinstein, um dos maiores produtores e magnatas do cinema, está sendo acusado de abuso sexual e assédio. A denúncia não vem de uma única atriz, mas de várias – são três décadas de abusos que só agora estão sendo propriamente investigadas.

Segundo os relatos, Harvey Weinstein criou uma cultura de assédio dentro de sua empresa, dando em cima ou assediando diretamente novas atrizes que chegavam para trabalhar com a sua produtora, a Miramax. As vítimas incluem atrizes de alto calibre em Hollywood, como Angelina Jolie, Gwyneth Paltrow, Ashley Judd e Cara Delevigne – e o escândalo movimentou toda a classe artística de Hollywood.

Harvey Weinstein não é o único problema de Hollywood

É óbvio que o produtor precisa ser devidamente investigado, julgado e receber a punição conforme as leis norte-americanas, mas ao invés de falarmos do caso em si, gostariamos de abordar um outro assunto: como é difícil as mulheres se fazerem ouvir em um caso de assédio.

Toda a história envolvendo Harvey Weinstein é um exemplo perfeito disso. Em 2005, 12 anos atrás, Courtney Love deu uma entrevista em que, indiretamente, falava sobre o que o produtor fazia. No vídeo, que você pode ver abaixo, ela deu um conselho para as jovens tentando o sucesso no showbiz: “Se um dia você for convidada para uma das festas de Harvey no hotel Four Seasons, não vá”. Ninguém deu muita atenção para o comentário e Courtney, como sempre, foi tachada de louca e drogada.

Antes disso, em 1998, Gwyneth Paltrow disse para o lendário apresentador Dave Letterman como o Harvey tinha o poder de ‘coagir’ (isto é, forçar, obrigar alguém a fazer alguma coisa contra a sua vontade) qualquer pessoa a fazer o que ele queria. E é possível ver o nervosismo da atriz durante a sua fala – a definição de risos nervosos.

E tem mais: na década de 90, a atriz Lysette Anthony, do filme Olha Quem Está Falando, acusou o produtor de um estupro que aconteceu nos anos 80. Por que, então, só agora esses casos estão sendo levados a sério?

Não é difícil de entender a resposta: porque Hollywood, assim como tantas outras esferas da nossa sociedade, é machista. É um mercado que sempre valorizou o homem ao invés da mulher – assim como o restante do mundo e das esferas sociais. A diferença é que no cinema isso fica muito mais escancarado, vide a falta de filmes inspiradores com mulheres protagonistas, a disparidade de salários e, não menos importante, as denúncias de abuso sexual que permeiam o cinema norte-americano.

É óbvio também que, diante de um mercado e uma sociedade machistas, as mulheres sentem medo de fazer denúncias a esse respeito. Como nunca foram levadas a sério e como foram criadas para acreditar que qualquer violência que sofrem é de responsabilidade delas, é de se esperar que elas não se sentiam seguras o suficiente para ir à polícia em um caso como esse, sem medo de sofrerem algum tipo de retaliação – ou, no mínimo, terem as carreiras altamente prejudicadas (e Isis Valverde sabe bem o que é isso, depois do escândalo envolvendo Cauã Reymond e Grazi Massafera).

Nos bastidores, a fama de Harvey já era tão conhecida que, quando aceitou o Oscar de Melhor Atriz em 2009, pelo filme O Leitor, Kate Winslet decidiu propositalmente deixar o nome do produtor de fora do seu discurso de agradecimento: “Foi absolutamente deliberado. Eu lembro que me falaram: ‘Lembre-se de agradecer ao Harvey se você ganhar’. E eu respondi: ‘Eu não vou fazer isso’. E não tem nada a ver com me sentir grata ou não. Se a pessoa não se comporta, por que eu deveria agradecê-la?”

Ainda assim, antes tarde do que nunca. Harvey Weinstein foi expulso do conselho da Academia de Cinema dos Estados Unidos, o grupo de grandes nomes do mercado cinematográfico que anualmente escolhe os indicados ao Oscar, com a justificativa de que ‘a era de ignorância deliberada e vergonhosa cumplicidade em conduta sexual depredadora’ terminou.

Esse é um passo importante para o área, principalmente quando lembramos que essa mesma academia não expulsou Mel Gibson, que em 2006 proferiu comentários antissemitas (isto é, contra os judeus) e também se envolveu em um escândalo de violência doméstica anos depois. O mesmo vale para o comediante Bill Cosby, acusado de abuso sexual por 60 mulheres diferentes nos últimos anos, e que seguiu no conselho do Oscar. A justificativa da organização, até então, era que precisávamos separar a vida profissional da pessoal, e que uma coisa não tinha nada a ver com a outra.

Hoje, já vemos que não é bem esse o caminho, e que o abuso sexual foi algo que marcou, e muito, a carreira de muitas mulheres no showbiz. O que podemos esperar agora é que esse caso abra um precedente para que as mulheres não se sintam mais intimidadas a fazerem uma denúncia no momento em que são vítimas de um crime desse tipo, e que não só Hollywood, mas o mundo inteiro, ouça com atenção quando elas falarem.

Foto: Reprodução / To The Sea

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