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Mais de um mês depois, o caso José Mayer segue rendendo manchetes, não necessariamente com o cunho empoderador que a gente gostaria. A figurinista Su Tosani publicou um texto nesta sexta-feira fazendo uma pergunta que nós mesmas gostaríamos que fosse respondida: quando é que uma vítima de assédio deixa de ser vítima?

No desabafo (que você pode ler clicando aqui), ela fala justamente sobre o porquê de tantas vítimas de assédio e estupro preferirem o silêncio à denúncia: o constante escrutínio que torna a vida dessas mulheres um verdadeiro circo, ao qual todos estão convidados e do qual elas não conseguem sair.

Imagine ter a sua vida exposta o tempo inteiro todo tempo, comentários serem feitos sobre a forma como tudo aconteceu e o porquê de você ter se tornado vítima de assédio. Imagine manchetes e especulações. Imagine um homem com mais poder sendo omisso sobre o assunto enquanto você é posta à prova e cada movimento seu é analisado nos mínimos detalhes por uma multidão online que tem muito a dizer em meros 140 caracteres.

Su Testoni foi a exceção à uma regra: cansada de ser desrespeitada e de aguentar calada algo que lhe fazia mal sempre, ela decidiu falar o que estava preso no peito e recebeu o apoio de milhares de mulheres no país inteiro. Para ela, a justiça foi feita quando a Globo e o próprio Zé Mayer liberaram uma carta e um pedido de desculpas oficial. Ok, ele assumiu, ele foi afastado o erro foi reconhecido. Fim de papo. A denúncia não foi para frente porque não foi feita – ela não quis.

Mesmo assim, com o caso oficialmente encerrado na sua cabeça, ela segue sendo tratada como vítima de assédio – e mais do que isso, sendo mantida nessa posição ao ser questionada de novo e novo sobre os seus motivos. O que seria considerado o fim do assunto para quem vive desmoralizando a voz feminina?

O problema da vítima de assédio é que ela não deixa de ser vítima

A nossa sociedade é tão machista que só acredita de verdade que um caso de assédio aconteceu quando um homem assume que ele aconteceu. Pode reparar como dificilmente acreditamos nas palavras de uma mulher sem achar, em algum nível, que ela é culpada pelo caso em algum nível.

Quando uma vítima de assédio volta a ser uma pessoa normal? Consegue voltar a viver a sua vida como quer e como bem entende? Quando é que ela deixa de ser vista por esse filtro ou como alguém que ousou falar a verdade sobre uma situação que a machucou de mais maneiras do que podemos imaginar?

O estigma de ter sido o centro de uma história como essa, de ter tido a coragem de falar, já tem consequências o suficiente em uma sociedade que ainda culpa a mulher por algo que não é de sua responsabilidade. A escolha pelo silêncio aparece, então, como uma forma de essas mulheres evitarem ter que lidar com mais do que já passaram – porque os comentaristas das redes sociais dificilmente veem a pessoa sobre a qual comentam como uma pessoa.

Mais uma forma de podar a voz de uma mulher é dizer quando ela deve falar e quando ela deve se calar sobre um assunto. É prolongar e desmerecer uma dor que já deixou cicatrizes que ninguém pode ver (e algumas são visíveis de verdade). Denunciar um assédio não significa que a vida da mulher virou domínio público ou que ela é obrigada a esgotar as suas forças e saúde  mental revivendo os momentos que quer esquecer para convencer o público do que é verdade e o que é rumor.

No fundo, precisamos aprender a falar e a ouvir. A saber usar a nossa voz quando ela é necessária e a aceitar que em algum momento vamos querer nos calar, não com o objetivo de omitir o que nos faz mal ou um crime que merece ser exposto, mas para colocar a nossa vida de volta nos eixos.

Afinal, quando é que uma mulher deixa de ser uma vítima de assédio?

Imagem: Pexels

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