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A comoção nas redes sociais na terça-feira, dia 7, foi tamanha por causa da visita de Judith Butler ao Brasil. A filósofa está aqui para participar de um ciclo de palestras sobre democracia no Sesc Pompéia, em São Paulo, e foi recebida com protestos: bonecos queimando, clamores no estilo ‘fora, bruxa’ e cartazes com os dizeres ‘mais princesas e príncipes, por favor’.

Se você ficou confusa com a história toda, acredite, você não foi a única. A gente também ficou sem entender muito bem o que estava acontecendo. Porém, a gente soube, desde o começo, qual era o maior dos problemas: a falta de entendimento. Muita gente não tem ideia do que Judith Butler defende ou o que significa estudar a identidade de gênero no mundo atual, e acreditam que essas filosofias são uma ameaça ao seu estilo de vida. É a família tradicional brasileira com medo de deixar de existir.

Vamos primeiro entender o que é identidade de gênero?

Esse medo é totalmente irracional. Isso porque as pessoas confundem identidade de gênero e orientação sexual – não que a violência e intolerância seja justificada para um e não para outro. Mas é assim: identidade de gênero diz respeito a como a pessoa se identifica.Ela nasce com um corpo e uma consciência. A sua mente se identifica como mulher e ela tem um corpo de mulher, portanto é mulher. Todas as leituras que a sociedade faz dessa pessoa é como mulher – e o mesmo vale para os homens.

Talvez seja mais fácil pensar que a identidade de gênero tem muito a ver com o corpo: é a relação direta entre a percepção que a pessoa tem de si mesma e o corpo com o qual nasceu. É por isso que as pessoas transexuais (como a Ivana, da novela), tem um problema de identidade de gênero. Em um âmbito mental, a pessoa se identifica como homem, pensa como um homem e sabe que é um homem, mas o seu corpo nasceu ‘errado’: é um homem preso no corpo de uma mulher.

E onde entra a orientação sexual? Esse é um outro ponto, independente da identidade de gênero. Essa orientação indica por qual gênero a pessoa sente uma atração física: se gosta de homens, se gosta de mulheres, se gosta dos dois (bissexual) ou se não sente atração por ninguém (o assexual). Por exemplo, a atriz Laverne Cox, de Orange Is The New Balck, é uma mulher trans que é heterosexual – ela tem atração física por alguém do sexo oposto ao seu.

Laverne nasceu com uma questão de identidade de gênero – ela é uma mulher que nasceu no corpo de um homem, e fez a transição de um sexo para o outro quando identificou a sua questão. Esse é um ponto. Uma outra coisa, independente disso, é que Laverne sente atração física por um gênero que é o oposto do seu (ela é uma mulher que gosta de homens), o que a classifica como uma mulher hétero.

Já Ivan (que antes era Ivana, na novela A Força do Querer) é um homem transexual e gay, porque ele sente atração por pessoas do mesmo sexo. Ou seja, alguém que é transexual pode ser hétero ou homossexual, essa orientação tem pouco a ver com a sua identidade de gênero e tudo a ver com as suas preferencias sexuais, por quem essa pessoa sente atração física e qual dos sexos lhe gera desejo.

Judith Butler e o gênero performativo

Voltamos para a questão de Judith Butler e porque as pessoas estão sentindo tanta raiva do que ela acredita. Judith não é a única a seguir por essa linha de raciocínio, mas muitos estudiosos da nossa sociedade defendem que o gênero é algo ensinado no nascimento – ou seja, ao fazer um ultrassom, os pais recebem a notícia de que o bebê tem um pênis. Para eles, isso significa que ele é um menino, que deverá crescer como um menino e que será incentivado a sentir atração por meninas. Tem relação com uma outra palavrinha que a gente escuta muito por aí: heteronormatividade.

Essa discussão de gênero está totalmente relacionada com a forma como a nossa sociedade foi estruturada. Há muitas décadas, ela funciona de forma a dar mais privilégios para os homens do que as mulheres (a nossa sociedade é machista, lembra?) e para casais compostos por um homem e uma mulher, isto é, casais héteros. Tudo o que é diferente disso, casais gays, pessoas bissexuais, os travestis e os trans, são considerados uma ameaça à essa ideia do que é normal (homem e mulheres sentirem atração um pelo outro e terem filhos juntos é o ‘normal’, na concepção da nossa sociedade).

É por isso que as pessoas estão protestando contra Judith Butler. Como uma das maiores estudiosas sobre o assunto no mundo atualmente, ela é a personificação de uma ameaça que é vista como muito mais profunda para as pessoas que defendem essa heteronormatividade, mesmo que forma indireta.

É fácil a gente perceber como essa ideia de gênero é algo aprendido. Nós, mulheres, ouvimos quando pequenas que precisamos cruzar as pernas ao sentar. Que meninas são delicadas e femininas, que são magras e bonitas, que são educadas. A gente aprende que tem um ‘jeito certo’ de ganhar a atenção dos meninos (e uma forma ‘errada’ de fazer isso também). Que a gente tem que se vestir de um jeito X para ser considerada ‘de respeito’ e que a nossa vida sexual influencia diretamente no nosso caráter – ou, pelo menos, que as pessoas vão basear o nosso caráter na nossa vida sexual, portanto precisamos ‘tomar cuidado’ com o que fazemos e com quem.

O nascimento definido com um sexo específico (e, por ‘sexo’, queremos dizer a genitália do ser humano) define uma série de comportamentos que vão ser a base para a forma como a sociedade nos vê e como nós nos vemos.

A teoria de Butler é muito mais profunda do que isso (e tem toda uma discussão a respeito de acabar também com a definição de sexo e a sua ligação com o corpo) e pode ser considerada polêmica. Porém, o fato é que o estudo de algo tão intrínseco na nossa sociedade e que define a forma como ela funciona hoje é vista como uma ameaça – e ameaças geram medo. A intolerância nasce, justamente, da falta de compreensão sobre algo que é novo. A gente tem o costume de primeiro rejeitar uma ideia para depois pensar em começar a entrar em contato com ela.

O que queremos dizer com tudo é: não podemos julgar as pessoas que estão protestando contra Judith Butler, simplesmente porque elas se sentem ameaçadas por uma ideia que é diferente do que elas conhecem. Elas são agentes de manutenção do que é considerado normal, porque elas acreditam que isso é normal. Mudar de ideia significaria readaptar todo um padrão de comportamento e isso, talvez, seja assustador demais para parecer possível ou até mesmo desejável.

É por isso que a educação é tão importante: é a partir dela que as pessoas vão entender melhor o que significa ter uma vida em sociedade e como ideias retrógradas (como a de que o homem é superior à mulher) são limitadoras e criam um ambiente de sofrimento. No fundo, tudo o que as pessoas buscam é a liberdade de viverem como quiserem, longe de rótulos que tentem colocá-las em caixinhas o tempo inteiro.

Com certeza, isso não é algo que vai mudar do dia para a noite, mas podemos esperar, no mínimo, que a discussão nos leve a um lugar em que as pessoas não se sintam presas a uma ideia e que as coloque numa posição de obrigação, de que precisam agir de um certo jeito para se sentirem aceitas.

Foto de capa: Reprodução


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