O que você procura?

Camila, como sempre, checava suas redes sociais pela manhã. Era quase um ritual: ainda na cama pegava o smartphone e passava o dedo na tela pra conferir o feed. Via também as mensagens e as conversas inacabadas da noite anterior (já que geralmente dormia no meio delas). Sua linha do tempo era recheada de postagens relacionadas ao universo fitness. Alimentação saudável, treinos, suplementos, moda, etc. Entre um post e outro, Camila parou os olhos em uma frase que prendeu sua atenção: “Exercite seu corpo porque você o ama e não porque você o odeia”.

Ela veio acompanhada de uma imagem diferente das de costume. Era uma mulher linda, porém fora dos padrões de vida ” saudável ” que via todo dia repetidamente. O mais bonito da foto era que a mulher sorria e não parecia nem um pouco forçada a isso. Ela passava verdade de alguma forma que transcendia a fotografia. Isso tocou Camila. Fazia tempo que ela não sorria daquele jeito. Fazia tempo que ela não dormia de consciência tranquila e sem pensar no seu percentual de gordura. Fazia tempo que não saía com os amigos pra comer uma pizza sem se culpar por isso. Fazia tempo que não dividia um balde de pipoca com o namorado no cinema.

Quem me ensinou a odiar meu corpo?

Pizza é uma religião. É um estilo de vida!

É ótimo se sentir saudável, fazer hemograma completo com frequência e constatar que as taxas estão todas OK. De fato era ótimo poder caber no micro vestido do manequim que ela sempre viu na vitrine do shopping sem precisar de uma cinta modeladora. Mas Camila começou a pensar na motivação de tudo aquilo. Era esse quesito que estava a incomodando como bater o dedo mindinho na quina do sofá.

Ainda na cama, adiando o despertador, visitou seu próprio perfil em sua principal rede social. Recentemente ela tinha postado uma foto clássica daquela “antes X depois”. Camila nunca foi o que se pode chamar de “gorda” (mas mesmo assim tinha quem a chamasse como se fosse o pior xingamento de todos). Ela tinha quadris largos, ombros também e seios volumosos. As pernas eram medianas, mas não definidas, sabe? Ela era bonita, ponto. E olhando aquela foto, começou a pensar e se perguntou: “Quando eu comecei a me odiar?”.

Os comentários na foto eram sempre de “parabéns”, ” uau, você melhorou muito”. Mas teve um em especial que mexeu com ela. Era de uma pessoa que havia entrado em seu ciclo recentemente e não a conheceu em sua versão de “antes”. O comentário dizia: ” Nossa! Nem parece você” . Provavelmente a intenção da pessoa não foi ruim, mas deixou Camila visivelmente triste. Ela queria parecer ela. Queria gostar de ser ela em todas as suas versões.

Quem me ensinou a odiar meu corpo? 2

Meu peso não define que eu sou.

Apagou aquela foto que comparava seu corpo atual com o corpo que tinha há dois anos. Era a foto com mais compartilhamentos, curtidas e comentários, mas naquele momento nem se importou com isso. Sentou-se na beirada da cama, deixou o smartphone de lado e ligou seu notebook. Respirou bem fundo, abriu a mesma rede social e começou a escrever um textão desabafo.

“Sabe você que parou pra ler meu textão quando expus fotos comparativas do meu antes X depois? Pois é, gostaria que você parasse e lesse esse aqui também. Você que se inspirou em mim, eu agradeço. Mas queria que agora você se inspirasse pelos motivos certos. Nada contra a quem faz esse tipo de post, eu apaguei o meu em respeito a Camila de dois anos atrás. Eu me gosto hoje? Gosto. Mas não posso ignorar que o corpo que tenho agora é fruto do que eu era antes.

Queria dizer pra Camila de antigamente que ela também é linda. Confesso que saúde não foi mesmo a minha principal motivação pra perder peso. Eu queria mudar de corpo, queria parecer com as blogueiras fitness, queria eliminar tudo que parecia defeito em mim, queria não ser mais chamada de “gorda”, queria agradar mesmo os outros. Parece fútil falar isso, e seria bem mais bonito se eu mantivesse o discurso de que foi tudo pensando no meu bem estar. Mas eu não quero enganar vocês – e, principalmente, eu não quero me enganar mais.

Eu comecei a fazer academia por me odiar. Por odiar minha barriga, minhas coxas que balançavam, meus braços gordinhos. Tudo. Não, esse não é um texto contra a academia, seria até hipocrisia da minha parte. Se exercitar não é errado. Errada estava a minha motivação. Vou parar de frequentar a academia? Não. Mas agora, todos os dias terei em mente uma frase de autor desconhecido, e que eu gentilmente peguei pra mim: “Exercite seu corpo porque você o ama, e não porque você o odeia”.

Se você resolveu mudar de vida, mudar seus hábitos, ótimo. Mas não despreze quem você era antes. Acho que era esse o insight que faltava pra eu ser feliz comigo. Porque se eu não me amava antes, posso mudar totalmente minha aparência e continuarei insatisfeita. Se você não gosta de academia, caminhe na rua, no parque, desça duas paradas antes do seu trabalho e vá andando, leve seus bichinhos pra passear, acompanhe seus filhos quando eles forem andar de bicicleta e skate.

Se você não curte legging colada, coloque sua camiseta larga mesmo. Se você não gosta whein protein (e alguém gosta disso?), coma uma fruta. Se não pode mudar todas as suas refeições, mude pelo menos uma. Mas experimente fazer tudo isso por amor a você, por prazer e pra viver bem. Obrigada por lerem até aqui. Com auto amor, Camila”.

Ela clicou no enter sem pensar duas vezes. Sabia que ia ter que ler muitas críticas, mas se sentiu preparada pra todas elas. Largou o notebook, levantou da cama, lavou o rosto, se olhou no espelho demoradamente e sorriu. Sentiu que agora ela estava no caminho certo.

Imagem: Pinterest


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