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O que você procura?

Não sei bem como contar isso. Confesso, ainda me pergunto se exagerei, se não era apenas mais um motorista querendo quebrar o silencio tentando um papo com a passageira. Para mim, agora, no conforto da minha casa, existem inúmeras possibilidades menos dramáticas, mas quando eu estava sozinha no carro com ele, após uma simples pergunta, a única coisa que eu, por ser mulher, conseguia sentir era: medo.

Medo. Muito medo. Foi isso que eu senti durante os 7 minutos de corrida no Uber às quase 3 horas da manhã.

Quer entender o que aconteceu? Sinceramente, eu mesma não sei explicar direito.

Era o fim de mais uma festa da faculdade, a primeira que eu tinha ido, um amigo me acompanhou até a saída e esperou o Uber comigo. Meu pai tinha dito que me buscava, mas não queria acorda-lo tão tarde. Meu amigo ainda se ofereceu pra me acompanhar, mas eu estava bem, não queria dar trabalho e disse que não precisava. Confirmado o carro, entrei pronta para ir para casa e dormir muito. O motorista falou o meu nome e o local que me levaria, eu confirmei, então ele soltou a frase:

– Eu moro bem perto de você…

A voz estava normal, não indicava nenhuma ameaça ou perigo, mas eu senti algo ruim na hora e aquilo foi o suficiente para acabar com a minha paz. Eu estava sóbria, mas acabava de sair de uma festa da faculdade em um horário considerado perigoso, principalmente para uma mulher. Lembrei da minha mãe me alertando para nunca dar informações para estranhos.

– Ah, mas eu não estou indo para a minha casa, estou indo para a casa da minha amiga. – menti, disfarçando a insegurança.

– Hum, você está vindo da casa dela? Não entendi direito.

– Não, estava na festa, estou indo para a casa dela.

– E você mora onde? – ele questionou.

– Eu moro no Céu Azul, não é longe, mas não quis incomodar meu pai a essa hora para me buscar, por isso resolvi ir para a casa dela.

– Esperta. Muito esperta! – disse ele rindo – E você faz isso sempre?

Nesse momento, a minha desconfiança aumentou. Algo na voz dele me deixou ainda mais alerta.

– Sim, faço sim. Quando não queremos incomodar nossos pais, sempre dormimos na casa uma da outra. São bairros pertos, quando acordamos de manhã, vamos para casa e não tem porquê o pai brigar.

– Ela sabe que você está indo para a casa dela? – ele questionou.

– Sabe, sabe sim. Vou até ligar para ela avisando que já estou no Uber.

Lembrei imediatamente de um post em que minha irmã me marcou…

o link mostrava que a atualização do IPhone tinha uma possibilidade de acionar a emergência, era só dar 5 cliques no botão inicial que o celular ligaria para a emergência e ainda mandava uma mensagem aos contatos selecionados para casos de emergência, avisando da sua localização.

Eu sei, você provavelmente não viu nada demais na conversa. Agora, na segurança e no conforto de casa, eu também não vejo. Mas, naquela hora, já tinha passado pela minha cabeça todas as reportagens de mulheres abusadas que minha mãe insistia em me fazer ver na TV, me alertando. Teve caso, inclusive, com o Uber. Tantas histórias horríveis que aconteciam na madrugada. Ninguém via, ouvia ou sequer sabia de algo. Os pais desesperados pela filha que foi à festa e não voltou. Estudantes, como eu, que foram se divertir e acabaram vítimas. Meu coração batia a mil. Lembrei das ameaças que as vítimas relatavam ter sofrido:

“Eu sei onde você mora! Se contar, vou atrás de você e da sua família.”

Era assim. Eu me lembrava. Cresci sendo aterrorizada por esses casos. Por ser mulher.

MEDO. MEDO. MEDO.

Não queria ser mais uma. Eu podia até estar errada, mas não podia me arriscar. Era minha vida e minha segurança que sentia estarem em risco. Acionei o botão as 5x.

ser mulher ser mulher

Na minha cabeça, ele podia ser um motorista bem intencionado e eu estaria cometendo a maior injustiça da minha vida. Mas se eu estivesse certa? E se ele tentasse algo? Se eu fosse mais um corpo que aparece por ai, com sinais de abuso? E se ele me deixasse viva, como lidaria com aquilo? MEDO. Pela primeira vez na vida, senti muito medo de ser mulher, de estar sozinha. Me arrependi de não querer dar trabalho para o meu pai, de não querer dar trabalho para o amigo e de entrar no carro de Uber sozinha.

Não me lembro do nome da policial que me atendeu porque estava muito nervosa, mas só de saber que era uma mulher, senti certo alivio. Ela entenderia.

– Amiga, já peguei o Uber e estou indo para a sua casa. – eu disse, tentando soar o mais natural possível.

Primeiro, silencio, mas um instante depois:

– Para onde você está indo? – a voz da moça perguntou.

– Rua xxxxx, nº xx. Está certo, né?!

Um instante depois, ela confirmou meu bairro.

– Sim, isso mesmo. – eu respondi.

– Pode responder sim ou não, você está indo para sua casa? – perguntou a atendente.

– Sim.

– Tem alguém na sua casa?

– Tem.

– Quem é?

– Meu pai.

– Ele te ameaçou?

Como explicar para ela?

Eu tive que dizer, olhava para o banco da frente e me afastava o máximo possível, colando na porta. E se ele tiver uma faca e me ameaçar agora? Ele vai saber, vai perceber. Mas ela está na linha, meu amigo viu os dados do motorista no meu celular e conversou com ele antes de eu ir pro carro, ele não vai correr o risco.

– Não. Eu quero ir para casa, acabei de pegar um Uber, só quero ter certeza que vou chegar em casa bem.

– É um assalto? – perguntou a moça.

– Não. – eu respondia, observando o motorista mudo e imóvel.

– Ele te ameaçou?

– Não.

– Ele te assediou?

– Não, é só uma sensação ruim. Ele fez perguntas.

– Está bem. Você quer que eu chame uma viatura até sua casa?

– Não, não precisa. Só quero chegar bem.

– Ok. Vou ficar na linha até você chegar. Tudo bem?

– Sim, obrigada! Já estou chegando.

– Está bem.

Mais alguns instantes, eu contei as ruas que faltavam em voz alta para a moça e, enfim, cheguei.

Pedi desculpas para o moço que eu nunca saberia se era inocente ou não. Pedi desculpas por me sentir tão mal, por ter medo dele, por ter que procurar socorro, por não me sentir segura em ser mulher, sozinha, dentro de um carro de Uber. Pedi desculpas sem saber se deveria, se ele só queria puxar um papo com a cliente ou se realmente tinha más intenções.

Saí do carro, ele ainda me chamou para pagar porque eu mesma já tinha esquecido que tinha escolhido pagar em dinheiro com o medo que ainda me tomava. Voltei com o celular na mão e a moça ouvindo tudo. Entreguei o dinheiro pedindo desculpas, estava indo quando ele me lembrou do troco, voltei, esperei o troco. Abri o portão e quase corri para dentro. Entrei em casa tentando me acalmar, abri a porta do quarto do meu pai e avisei que tinha chegado. Fui para a minha cama e agradeci por estar ali, viva e segura.

Por que estou relatando isso?

Sempre defendi o feminismo, sempre achei as discussões validas. Já ouvi amigo falando de vitimismo de mulher, me indignei, expliquei sobre o medo que sentíamos ao sair na rua, ele ignorou os fatos. Mas sentir na pele? Naquela noite, eu senti pela primeira vez o medo eminente de poder ser uma vítima de estupro. Um medo que me fez ficar 6 minutos no telefone conversando com a moça da emergência para ter certeza de que eu chegaria bem em casa.

Era uma sexta-feira de noite, saí de casa depois de convencer meus pais a deixarem eu ir em uma festa da faculdade, meu pai fez questão de me levar. Ele tinha medo. Eu achava bobagem, queria passar a noite em uma festa com meus amigos, nada demais. Quando jovens, quem não quer? É meu direito. Assim como é direito do meu amigo. Mas esse medo ao voltar para casa, esse medo ele nunca sentiu. Eu senti. Acho que nunca saberei se foi bobagem ou não, mas meu medo me justifica.

Moço, se esse texto chegar até você, se você lembrar da passageira que você levou da festa da UFMG e que ela ligou para a policia no seu carro, saiba que eu sinto muito se te constrangi, que eu não queria criar nenhuma situação, mas eu senti MEDO, moço. Eu senti um medo que você nunca vai sentir. Tudo por ser mulher.

E é por essas e outras que digo: toda mulher precisa do feminismo.

Todo mundo precisa saber que a culpa não é da vítima, não é do horário, nem da festa ou das bebidas, não é da roupa, mas, sim, de uma sociedade que insiste em culpar a mulher ao invés de educar o homem para que casos de abusos deixem de existir. Para que nem eu – e nem você que está lendo – precise se sentir assim de novo.

Imagem: balaozinho.tumblr.com


E o que vocês responderiam a essa pergunta aqui abaixo, feita por uma de nossas usuárias do Clube Superela?


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