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Baseado na obra de Thomas Cullian, O Estranho que nós amamos (The Beguiled), de Sofia Coppola, se propõe a revisar o longa homônimo lançado nos anos 70, dirigido por Don Siegel. O filme conta a história de um soldado (Colin Farrell) ferido que é encontrado por uma garota que mora em uma escola para mulheres, liderada com mãos firmes pela Miss Martha (Nicole Kidman), em um período de guerra. A presença desse homem, charmoso e misterioso, mexe com os desejos mais íntimos das mulheres da casa.

O Estranho que nós amamos

Imagem: O Estranho que nós amamos (2017)

Desde o início, o clima de mistério começa a ser potencializado ao beneficiar o espectador, com a dúvida de se a polêmica cena de beijo entre uma criança de doze anos e um soldado, encontrado por ela ferido, será revivida. By the way, uma cena bem desnecessária e sem sentido no filme de Siegel.

O Estranho que nós amamos: Um flerte com o movimento feminista

Levando em consideração a versão de 1971, com Clint Eastwood no papel do soldado garanhão e manipulador, podemos afirmar que a motivação de Sofia Coppola para trazer essa história à tona é a reconstrução do discurso e papeis de gênero. Afinal, precisamos reviver as histórias do cinema sob uma perspectiva mais condizente com a realidade atual.

E é a partir das mudanças inseridas (ou cortadas, principalmente) que Sofia eleva os personagens. Ela consegue leva-los de animais sedentos por sexo e sem controle dos seus impulsos para pessoas complexas, cheias de frustrações, amarras e, no caso de Alicia (Elle Fanning), avidez. Ou seja, personagens bem desenvolvidos, mesmo sendo um filme enxuto (93 minutos).

Aspectos técnicos: Roteiro, direção de arte e figurino

Vale a pena ressaltar o que foi dito anteriormente: todo personagem tem um conflito. O que não é o caso do anterior, que só foca em colocar as mulheres umas contra as outras e disputarem a maior parte do macho alfa. Na versão atual, a complexidade faz parte do todo. Existe competição, mas feita numa abordagem totalmente diferente e passiva de explicação. Até mesmo o soldado mercenário ganha indícios de complexidade. Ele, o bom moço que logo se vê um manipulador. Ou a líder da casa, que controla seus impulsos ao lembrar que há vida fora do mundo que ela criou. Ambos são bons exemplos disso. Aliás, é o reconhecimento dessa realidade, que há vida longe do internato, que desperta essa complexidade em todos. Desejo e curiosidade de uma, sentimento de frustração de outra. Medo. Curiosidade. Interesse.

O Estranho que nós amamos

Imagem: O Estranho que nós amamos (2017)

Porém, muita coisa foi excluída da versão anterior, fazendo até com que muita gente questione a necessidade dessas exclusões. O irmão da Miss Martha, personagem de Nicole Kidman, não existe nessa versão, assim como a única personagem negra, escrava. Infelizmente.

Talvez essa seja a grande ressalva, apesar da justificativa de que o foco da direção era elevar a discussão de gênero, não racial. Porém, me soa estranho um filme retratado em um período clássico da escravidão não ter nenhum sinal de escravos. Afinal, aonde eles estão? Menos um ponto no quesito verossimilhança.

O Estranho que nós amamos

Imagem: O Estranho que nós amamos (2017)

No mais, Sofia Coppola acerta ao revisar toda essa história e trazer sua assinatura estética a ela. Bons ângulos, direção de arte impecável, fotografia com aspecto lavado, paleta de cores que reafirma e identifica a personalidade das internas. Inclusive, o uso de cores até o limite do aceitável para os costumes da época é um ponto alto para o figurino, de Stacey Battat (parceira antiga da diretora).

Atuações que entregam o que o personagem propõe, sem exageros ou dramas caricatos. Há um destaque, claro. Destaque esse para Kristen Dustin, que segura bem o drama envolvendo sua personagem no conflito central.

Resultado: flerte com o movimento feminista

O sexto longa de Sofia pode não ser o de maior destaque, mas cumpre a premissa de ser melhor que o de Siegel. E, consequentemente, cumpre seu objetivo de recontar a mesma história sob uma nova perspectiva. Uma perspectiva que se distancia do egocentrismo gritante do gênero masculino enfatizado anteriormente.

Apesar disso, não é um filme com propósito declarado de ser feminista. Mas, ao atender as necessidades urgentes da preconceituosa versão dos anos 70, propõe um longa que traz à tona com classe uma discussão feminista nas entrelinhas.

Pegue a pipoca e veja o trailer!

Imagens: Divulgação/O Estranho que nós amamos (2017)


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