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Na última sexta-feira, dia 14, estreou na Netflix o filme de Lily Collins sobre anorexia, chamado To The Bone (ou O Mínimo para Viver, em português). Quis assistir assim que estivesse disponível porque sabia eu um assunto tão sério como esse daria pano para manga. Assim como o suicídio retratado em 13 Reasons Why, o tema tem espaço para ser altamente polêmico.

Na noite de sábado, quando terminei de assistir ao filme, fiquei com a sensação de que estava muito acima do meu peso. É absurdo como a simples exposição a imagens de pessoas mais magras – mesmo que doentes – me levarem a pensar que o meu corpo estava errado. Mas é assim que a doença começa, em uma escala muito maior. Ela surge com um pensamento sobre o peso que segue outro e outro e outro, até que tudo o que você consegue pensar é em como você vai atingir o tal peso ideal.

“O desenvolvimento da anorexia ocorre, principalmente, na adolescência. É uma fase onde a pessoa – normalmente, a menina – tem uma preocupação em não engordar, em atingir um peso ideal magro e manter o controle da vida por meio do peso”, me contou a psiquiatra especialista em transtornos alimentares Maria Francisca Mauro.

No filme de Lily Collins sobre anorexia, existem algumas justificativas para a sua doença: as crises da mãe, o abandono, as dificuldades em se encontrar e a falta de compreensão. É incerto. Na vida real, não deixa de ser muito diferente. Maria Francisca explica que a doença surge por uma série de fatores, que vão do abuso sexual até estresses precoces, e é na adolescência que ela começa a se manifestar – ou seja, a fase mais complicada na vida de qualquer pessoa, seja menino ou menina.

Existem muitas coisas que poderiam ser comentadas sobre filme – muitas delas sobre o roteiro me parecer meio falho e a história passar um ar de glamour sobre uma doença e um momento de insight, quando a própria personagem entendeu que não estava bem.

O que eu acho importante ressaltar, porém, é a sensação que eu tive depois de assistir à atuação de Lily e a relação da sua personagem com o corpo e a comida. Eu me senti gorda. Me senti errada e que, talvez, eu devesse pegar mais pesado na dieta que já estou fazendo. A anorexia, aliás, é caracterizada por essa rigidez: os pacientes focam toda a sua energia em se manterem magros e pouca coisa importa além disso. Toda a sua capacidade de sucesso se resume à essa única habilidade de ter o corpo e o peso que eles consideram ideal.

“Mesmo magra, essa pessoa tem uma percepção distorcida de que ainda precisa perder mais peso e de que as pessoas ao redor (familiares, amigos…) estão contra sua vontade e querem a prejudicar. Esses jovens podem determinar um discurso racional e mentir que estão comendo. Também mantém comportamentos que buscam disfarçar a anorexia, fazendo com que as pessoas ao redor não se preocupem.  Há, inclusive, informações na internet e grupos que trocam experiências de como esconder os sintomas principais”, diz a psiquiatra.

O filme de Lily Collins sobre anorexia fala de raiva

No fim, o que o filme de Lily Collins sobre anorexia mostra com muita veemência é o quanto estamos presos em um padrão de beleza e como esses padrões servem apenas para mascarar uma coisa muito mais profunda: a raiva que sentimos de nós mesmos.

To The Bone tenta explicar que a única coisa que vai salvar uma pessoa anoréxica é ela mesma, a partir do momento que ela topar não sentir mais raiva de si. E isso é verdade. Por mais que a personagem Eli tente se fazer de vítima, tente provar que ela não tem nenhum controle sobre a doença, absolutamente tudo depende dela. Não é à toa que quando ela passa por uma situação complicada, ela tem uma recaída pesada – e o médico diz que essa recaída é necessária para o processo dela.

Eu não saberia dizer se esse é o caso para todo paciente anoréxico (acho difícil). Mas uma coisa é certa: como o Dr. Becks disse, a única pessoa que poderia salvar Eli era a própria Eli. E todos os tratamentos só teriam o efeito esperado quando ela quisesse de verdade melhorar e olhar para a própria vida de uma forma diferente, sem raiva e auto-ataque. Pode parecer algo extremo e sem sentido, mas é verdade – a melhora só acontece a partir de uma decisão e do reconhecimento do paciente de algo está errado, já que é muito comum as pessoas anoréxicas acreditarem que estão bem e com a doença ‘sob controle’ (no filme, a própria personagem de Lily usa essa frase para definir o seu estado).

O que eu percebi, com essa experiência, também foi a importância de nos cercamos de influências positivas que barrem esses padrões de causarem qualquer efeito sobre a nossa autoestima. Parece um trabalho hercúleo e praticamente impossível, mas saber o que é um comportamento tóxico e abusivo e o que não é e, principalmente, ter interesse para entender a outra pessoa são essenciais para que esse ambiente saudável seja construído. Óbvio que é impossível prever tudo o que vai acontecer na vida alguém, mas estar envolta de pessoas que querem o seu bem (e vice-versa) é uma maneira de amenizar qualquer trauma.

No fundo, tudo o que Eli desejava era ser amada, era deixar de sentir raiva de si mesma. Ela se sentia rejeitada pelo pai, pela mãe, ela sentia culpa por ter feito algo que parecia errado – tudo por conta da sua arte – e não conseguia encontrar um motivo para continuar em frente, para viver. Disse o Dr. Becks que não existia um motivo, mas isso é mentira: o motivo é amar. Quando ela topou amar e ser amada, a decisão foi fácil, porque ela tinha uma motivação.

O tratamento, claro, é essencial para ajudar nessa jornada, e não deve nunca ser adiado. Histórias de pessoas que se curaram sozinhas até podem existir, mas como a própria Eli, toda decisão de melhora deve ser acompanhada de um tratamento rígido e sério, que vai acompanhar cada novo passo em direção à recuperação. Os efeitos de uma anorexia no corpo podem ser permanentes.

Ainda assim, essa mesma melhora vem apenas com a decisão de que, sim, a vida vale a pena ser vivida e que é possível se abrir para o amor, mesmo que tudo pareça escuridão e tristeza e pedaços de carvão.

Imagem: Reprodução / To The Bone


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