O que você procura?

“Ele não vai aparecer” repetia minha mente insistentemente. Eu tentava me tranquilizar pensando que poderia ser apenas um atraso. Um atraso de uma hora, acontece. Combinamos às oito, mas preciso considerar o trânsito, então talvez ele chegue depois das nove.

Nove e meia. Nada.

“Bárbara, se liga, ele não vai aparecer”, insistia aquela vozinha chata. “Vai sim! Vai sim! Nós combinamos, ele virá!”, eu rebatia, mesmo fraca, quase me dando por vencida. Qual é?! Ele não viria, eu sabia, mas precisava acreditar que ainda haviam esperanças.

Às oito eu cheguei no bar e fiz questão de escolher a mesa mais fresca, afinal de contas, estava muito calor. Pedi uma latinha de coca, porque não gosto de cerveja, e quase adiantei o pedido dele, já que eu sabia qual era a cerveja que ele pediria – a famosa stalkeada, sabe? As horas foram se passando e eu procurei não me agoniar. Ok, mais uma latinha de coca, que se danem as estrias, celulites e os caralhos, eu preciso de coca.

Mais quinze minutos se passaram e nada. Mandei mensagens que sequer chegavam – mas ele havia avisado que ficaria sem internet no caminho. Tentei ligar, sem sucesso, o celular estava fora de área.
Respira… Respira… Trinta minutos de atraso, pensa no trânsito.
Mais uma lata de coca. Mas agora eu precisava comer… E se ele chegasse? Bom, aí eu pediria outra porção de batata frita e dividiria com prazer.
Oito e quarenta e cinco. Nada.
Agora a voz chata já começava a martelar que eu estava prestes a levar um bolo. Um bolo oficial e pra todo mundo ver.

Obrigada pelo bolo que você me deu? 1

– Está esperando alguém? – perguntou o garçom.
– É… – o que eu diria? Tipo “sim, mas não” ou “não tenho certeza” ou “estou, mas não precisa se preocupar, talvez ele tenha sofrido um acidente na estrada e esteja na UTI”? Mas eu estava esperando alguém e eu odeio mentir. – ... Estou sim, mas ele está preso no trânsito. – Sorri amarelo.
– Quer adiantar o pedido, senhora?
– Não, obrigada… Quer dizer… E-eu… – respira, menina! – O que vocês tem de chocolate?

O garçom me olhou intrigado e me entregou um cardápio de sobremesas. Desejou que eu ficasse a vontade e pediu licença para retirar a travessa vazia que há alguns minutos estava transbordando batata. A porção era pra dois – talvez por isso a pergunta – mas eu como por dois. E nervosa então… Vixe, haja comida! Com certeza o garçom achou estranho eu estar esperando alguém e já estar na sobremesa.

Acontece que esse alguém não estava me esperando, né? E esperar por quem não espera pela gente é ruim, então quem sabe um chocolatezinho amenize?
Pedi um bolo de chocolate. Não era bem um bolo, era um nome mais estranho, mas já que eu estava em clima de bolo, né? Comi devagar. Bem devagar.
Nove horas. Nada.
Nenhuma ligação. Nenhuma mensagem. Nenhum sinal de vida.
Cretino!

“Ele não vai aparecer. Eu disse.”
– Cala a boca! – respondi em voz alta. Ótimo! Tudo o que eu precisava era surtar em público. Tá ok. Respira.
Nove e dez. Pedi a conta, paguei e saí.

Ainda dava tempo de pegar o ônibus, mas eu não o faria. Estava tão chateada que caminhar me ajudaria a chegar em casa sã e, com sorte, inteira.
Me permiti chorar. E chorei bastante. Eu acabara de ter minha confiança quebrada e sequer recebi um pedido de desculpas. Mais uma vez a rainha dos trouxas cumprira seu papel com êxito. Isso cansa, sabia? Confiar, se decepcionar, juntar os cacos, se reerguer e repetir.

Obrigada pelo bolo que você me deu? 2

Mas como não confiar? Que vida vazia essa onde você não confia nas pessoas! Que ruim não poder acreditar nas pessoas e viver duvidando da palavra delas. Eu não quero essa vida. Não quero me relacionar assim.

Talvez a culpa fosse minha. Procurei na minha mente algum motivo… Não encontrei nenhum. Eu fiz minha parte. Fui sincera. Eu apareci. Mas ele foi um covarde e não soube jogar limpo. Ele sequer apareceu para me olhar nos olhos e inventar a desculpa mais horrível do mundo. Ele sequer cancelou o encontro. Ele preferiu que eu fosse e me magoasse para que, então, EU tomasse a atitude por nós e desistisse de tudo. Tudo o quê, afinal? Nós não tínhamos nada.

Mas tudo bem. Por mais que seja ruim se decepcionar com as pessoas e quebrar a cara. Por mais que o sentimento de invalidez e de estupidez me invada e me faça querer desistir de tudo e todos, quem perdeu mais foi ele. Ele perdeu a minha confiança – não que ele se importe, mas confiança é algo raro. Ele perdeu a minha amizade. Ele perdeu a credibilidade. Ele perdeu a beleza interior perante meus olhos. E de quebra ainda perdeu uma porção de batata.

Eu terminei a noite em lágrimas, decepcionada, me sentindo um lixo. Já ele, eu não sei. Semana que vem eu estarei bem, feliz e logo conhecerei pessoas novas e terei novos encontros – e novos bolos. Já ele… Bom, eu imagino como deve ser difícil viver sendo um covarde, sem palavra e sem credibilidade.

Vida que segue, né?
Às vezes o bolo é amargo, mas se você for esperto, consegue uma cobertura de chocolate – às vezes amarga, mas tem sempre uma dose de açúcar pra adoçar a vida.

Imagem: Pexels


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