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Se 13 Reasons Why nos mostrou qualquer coisa, é que as pessoas ainda têm um sério problema em discutir o suicídio. É um assunto complicado, a gente bem sabe, mas a importância de falar sobre ele deveria ser o suficiente para acabar com qualquer tabu. No mundo real, porém, não é assim que as coisas funcionam.

Atualmente, uma pessoa comete suicídio a cada 40 segundos, o que torna o ato a segunda maior causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos. No Brasil, os números parecem ainda mais alarmantes. Segundo dados da BBC, o Mapa da Violência 2017 revelou que o índice de suicídio nessa faixa etária aumentou 10% desde 2002. Só em 2014, foram mais de 2.800 casos confirmados.

Você, com certeza, não vê em jornais ou na televisão notícias sobre esses milhares de casos, porque falar sobre o assunto parece errado. No século em que as doenças mentais são a maior dificuldade do ser humano do mundo moderno é quase um absurdo um assunto desses continuar silenciado.

Ao contrário do que a série da Netflix fez questão de mostrar, o suicídio é um ato muito complexo e que vai além de alguns fatores externos. Por isso, usamos a trama como base para pensar nas respostas que todo mundo gostaria de ter, mas que não são ditas sobre o assunto, olha só:

1.Qual a relação entre depressão e suicídio?

“Eu costumo dizer que a depressão é um caminhar para morte em vida”, disse a psicóloga Fabiane Curvo, que comanda o site de terapia online E-Terapia. Basicamente, ela explica que pessoas depressivas têm pensamentos suicidas porque sentem um profundo descontentamento com a vida. “A pessoa fica desmotivada e sente que não consegue mais lidar com esses sentimentos. A pessoa vai perdendo tudo até, enfim, chegar ao ponto de cometer suicídio”, explica.

2.Por que uma pessoa começa a ter pensamentos suicidas?

É mais ou menos como explicamos na pergunta anterior. Uma pessoa que está descontente com a vida e que não consegue mais continuar nesse estado vê na morte uma saída. Como não tem mais nenhuma perspectiva de melhora, ela se sente incapaz e desmotivada – são os efeitos da depressão que se aprofunda e lhe tira a vontade de viver. “É como se jogassem uma âncora no colo dela e ela sente que é tão pesado que, aos poucos, não dá mais conta de segurar e aí afunda”, diz Fabiane.

3.Por que os jovens são os que mais cometem suicídio?

A juventude é uma fase muito desafiadora para a maioria das pessoas. É uma fase de descobrimento, em que cada indivíduo está tentando entender quem é e qual a sua função na sociedade. Nesse momento, qualquer acontecimento ruim pode parecer o fim do mundo e os julgamentos dos outros, o bullying, o preconceito e a falta de aceitação (inclua aí a homofobia e a transfobia) contribuem para uma sensação de não pertencimento, que coloca o jovem ou jovem adulto em uma posição de isolamento e confusão mental.

4.Pessoas mentalmente saudáveis podem cometer suicídio?

A resposta é simples: não. O que pode acontecer é que algumas pessoas aparentam estar bem quando, na verdade, estão lutando contra uma depressão. Pode ser até mesmo que elas não saibam que estão depressivas, porque não passaram por uma avaliação psicológica. A psicóloga explica melhor: “A depressão é uma doença silenciosa. E quem, de fato, decide cometer suicídio não dá sinais de que vai fazer isso. Eles disfarçam ao máximo porque não querem que ninguém impeça de acontecer. As pessoas ao redor não notam, muitas vezes nem sabem que esse indivíduo era depressivo”.

5.Por que algumas pessoas que estão bem de repente cometem suicídio?

O fato é: essas pessoas não estão bem. Como a depressão possui sintomas imperceptíveis, pode acontecer de ela acordar um dia e não entender porque continua viva, de não se sentir o suficiente, de não ver motivação para sair da cama. É comum pessoas que lidam com esse tipo de sentimento fazerem o máximo para mostrarem que estão bem – é daí que vem essa falsa sensação de ‘nossa, mas ela estava bem ontem! O que será que aconteceu de um dia para o outro?’. O suicídio é uma ideia que cresce na mente aos poucos, ela não surge ‘do nada’.

6.As pessoas suicidas dão algum sinal de que pensam assim?

É aí que a coisa complica: os suicidas normalmente não querem que as outras pessoas percebam o que está acontecendo de verdade para não atrapalharem os seus planos. Ao mesmo tempo, uma pessoa que tem um olhar mais treinado sabe reconhecer esse comportamento (e você pode entender um pouco melhor sobre isso lendo este texto sobre como identificar o comportamento suicida). Quem pensa em, de fato, acabar com a própria vida dificilmente vai anunciar os seus planos por aí.

Ao contrário, pessoas que falam abertamente sobre a vontade de morrer não necessariamente vão se suicidar, mas estão dando um alerta sobre o estado mental em que elas estão: não se pode lidar levianamente com um comentário desses. É um sinal de que a pessoa está chegando em um ponto sem volta e um momento crucial para reverter a situação: se receber a ajuda devida, ela pode, sim, mudar de ideia e sair de um estado altamente depressivo em que ela coloca em risco a própria vida.

7.Por que suicídio pode ser considerado uma relação de vingança e culpa?

O estudioso norte-americano Bob Hoffman tem uma teoria chamada Síndrome do Amor Negativo, que diz que todas as pessoas nascem com a necessidade de serem amadas incondicionalmente pelos pais, mas que entram em um estado de negatividade e se sentem indignos de serem amados quando percebem que a realidade é diferente do que imaginavam. Isso tem muito a ver com a relação de cada um com a sua família (é uma sensação que começa ainda na infância). O suicídio entra, então, como uma das muitas maneiras de se vingar dessas sensações ruins experienciadas ao longo da vida – quem lembrou história de Hannah levanta a mão. Isso é deixado muito claro na série 13 Reasons Why. Como consequência desse suicídio, as pessoas que ficam se sentem altamente culpadas e impotentes, com a ideia de que foram incapazes de perceber o que estava acontecendo e de evitar a tragédia.

8.As pessoas têm mesmo uma ‘rotina de despedida’ antes de cometer o ato?

Se você assistiu a série, sabe que em certo momento da trama Hannah se despede da vida: ela grava as fitas, escreve uma carta para Tony explicando os seus últimos desejos, arruma o seu quarto, devolve o uniforme para o cinema… Na vida real, não necessariamente as pessoas têm esse mesmo hábito, ou, no mínimo, ele não é tão escancarado assim. Quando uma pessoa comete suicídio, às vezes fica mais claro porque ela disse certa coisa ou deu um presente a alguém, por exemplo, mas não é uma despedida descarada do tipo ‘oi, vim aqui me despedir de você porque vou morrer amanhã’. São coisas sutis que, muito provavelmente, só vão ter essa cara depois que a pessoa morrer.

9.Uma pessoa que se corta também é suicida?

Em certo ponto da trama, a personagem Skye diz que se corta porque ‘isso é o que você faz ao invés de se matar’. Em alguns casos, pode ser que seja isso mesmo: a automutilação aparece como uma maneira de lidar com uma dor emocional grande. Porém, uma pessoa que se corta ou se machuca propositalmente não tem, obrigatoriamente, um desejo suicida. “Mutilação é uma forma de chamar atenção, é uma forma de transgredir, de lidar com a dor interna… Não necessariamente as duas coisas estão vinculadas”, explica a também psicóloga Priscila Azevedo.

suicídio

A personagem Skye de 13 Reasons Why

10.Por que falar sobre suicídio é tão importante?

Pelo simples fato de que é muito mais comum do que a gente imagina. Desde os anos 1980, as taxas de suicídio no Brasil aumentaram 60%, porém, pouco se fala sobre prevenir o ato, salvo quando casos muito chocantes aparecem, tanto na vida real quanto na ficção. É, sim, uma questão de saúde pública que precisa ser discuta abertamente para ser combatida – quanto menos falamos sobre o assunto, mais criamos uma ideia de que esse é um tema proibido, e desincentivamos as pessoas a procurarem a ajuda que precisam.

11.E por que o suicídio é um tabu?

Fabiane dá uma explicação certeira para isso: “Porque, normalmente, o suicídio ainda está vinculado a uma ideia de fracasso pessoal. De alguém que não conseguiu lidar com a vida.  E assumir o papel de ‘fracassado’ é algo que ninguém quer. Mas sabemos que não é assim! Para chegar ao ponto do suicídio, é sinal de que a pessoa tentou de várias maneiras achar um sentido na vida, mas emocionalmente não conseguiu suportar”. Ninguém quer assumir que falhou a esse ponto e ser taxado de louco, de fraco ou outros julgamentos comuns a quem sofre de doenças mentais.

12.Como posso ajudar uma pessoa que pensa em suicídio?

O que precisa ficar muito bem entendido aqui é que as pessoas são livres para fazer o que bem entendem. Se alguém está muito focado em acabar com a própria vida, há pouco que podemos fazer a respeito. Porém, se você perceber alguém seguindo por esse caminho, o melhor que você pode fazer é ouvir o que essa pessoa tem a dizer sem julgamentos, criar uma relação em que ela pode desabafar sem medo e incentivá-la a procurar ajuda profissional. Fabiane também indica tentar trazer um pouco de vida para a pessoa: convide-a para sair, se interesse por ela e tente motivá-la o máximo possível. Mas lembre-se, sempre, que o suicídio é uma escolha – e que essa escolha pouco tem a ver com você e tudo a ver com o que ela está sentindo no momento.

13.Como posso incentivar alguém a procurar ajuda profissional?

O tato é essencial. Não adianta simplesmente jogar na cara de alguém que está mal que ela ‘precisa de terapia’ ou ‘procurar um grupo de apoio’. Isso pode assustá-la e ela pode se retrair ainda mais. A ideia é fazer com que ela se abra e confie em alguém o que está sentindo e passando. O primeiro passo, então, é cultivar o interesse: olhe para ela, ouça o que ela tem a dizer sem julgamentos e vá, aos poucos, nutrindo a ideia de buscar uma ajuda especializada. E lembre-se sempre que, independentemente do que você fizer, é uma escolha dela ir atrás dessa ajuda ou não.

 

Se você é alguém que precisa de ajuda, saiba que existem alternativas. Você pode buscar um familiar ou amigo de confiança para conversar, entrar em contato com o CVV (Centro de Valorização da Vida) discando 141 ou ainda buscar um de nossos Super Profissionais. Se nenhuma dessas opções parecer interessante, você pode sempre conversar com outras mulheres no nosso Clube Superela ou ainda no nosso grupo secreto no Facebook.
Imagem: Reprodução / 13 Reasons Why


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