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A dor de perder alguém que se ama tanto

Maria Carolina

Colunista Superela

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Como alguém que pode ser descrita como objetiva e pragmática, eu nunca vi muita vantagem em colocar as coisas em panos quentes, então irei direto ao ponto do texto: morte. Uh, soa bem pesada essa palavra, mas usar sinônimos não mudaria os fatos. As pessoas têm essa mania de tentar amenizar as coisas desagradáveis. Não diga que a pessoa morreu, diga que ela faleceu. Não fale a palavra câncer em voz alta. Mistifica-se e olha-se para o outro lado, porém lamento dizer que hoje vamos colocar o dedo na ferida. Não há como escapar. Não há como estar preparado.

Na noite de ontem, ao sair de uma sessão de cinema, meu habitat natural, me deparei com algumas mensagens no telefone. Uma grande amiga contava que sua tia havia morrido. Morrido? Falecido. Prefiro assim porque apesar de menos direto soa mais sensível, e eu senti muita compaixão e sensibilidade lendo o que ela me disse. “Você poderia mandar uma mensagem para a minha prima? Afinal, você sabe como é perder uma mãe.”

Ela está certa. Eu também sei como é perder um pai. Poucos segundos depois eu comecei a chorar. Não, eu não conhecia a tia dela muito bem, mas eu conheço a prima dela e conheço o momento que a prima dela vive melhor ainda. Por uma estranha e triste coincidência, a mãe a quem ela se referiu – minha madrinha tecnicamente e apenas tecnicamente porque rótulos não se aplicam por aqui – havia feito aniversário de morte há alguns dias e meu pai faria o mesmo aniversário pouco mais de uma semana depois. Mês de merda, né? É a vida.

De repente eu senti como se uma onda tivesse me derrubado na praia, algo inesperado veio e me abalou. Eu respondi para a minha amiga, enviei algumas palavras para a sua prima e saí de lá já programando a fossa que me esperava ao chegar em casa: ouvir músicas tristes, enumerar lembranças, respirar fundo, parar, repetir tudo de novo. Fazia minha playlist mental, que incluía duas músicas da trilha de “Hamilton”: “It’s Quiet Uptown” e “Who Lives, Who Dies, Who Tells Your Story”. Essa última sempre me faz chorar na mesma frase, quando as pessoas lembram quem o falecido Hamilton foi e sua esposa conta como foi a responsável por narrar a história do nosso brother A. Ham. Não sei exatamente o motivo.

Enquanto pensava nisso, vi algumas pessoas na calçada, entre elas um casal de noivos, se preparando para fotos pós-cerimônia na Paulista. Então meu pensamento foi para aquela cena inicial de “Simplesmente Amor”, com as chegadas no aeroporto de viajantes encontrando seus amados, familiares, amigos e como mesmo nos momentos mais difíceis recorremos ao amor. É bem bonito ouvir o Hugh Grant falar que o amor está, na verdade, em toda parte. Ela adorava esse filme, em especial essa cena. Então estou aqui para tentar ajudar quem perdeu alguém. Considerem uma carta aberta. Claro que o luto manifesta-se de forma diferente em cada pessoa, mas espero poder clarear as coisas um pouco para os outros através da minha experiência.

Primeiro quero dizer, de cara, que nunca vai parar de doer, então acostume-se. Aceite que o tempo não cura, embora te ajude a entender como lidar melhor com os acontecimentos. Não adianta reprimir, fugir da realidade, porque ela mais dia ou menos dia te alcançará. Ela bate de repente na sua porta e sussura: “Oi, tudo bem? Sou a realidade e tenho uma notícia pra te dar: você vai chorar.” então chore ou expresse sua dor como queira. Prometa pra mim que quando sentir dor tentará lembrar da origem da sua dor, que é o amor. Se hoje você sofre é porque aquela pessoa foi importante para você. Você amou alguém muito e essa capacidade de amar tanto uma pessoa permanecerá. Seu amor por ela estará sempre aí. Talvez não chegue a amar outra pessoa da mesma forma, mas dá para tentar chegar o mais perto possível disso.

As pessoas te dirão N coisas. “Fica bem” ou “Pelo menos ele descansou” ou “Ai, não gosto de ir em velório, muito triste”. Para todas elas, eu digo o meu mais profundo “vai se foder!”. Eu aplaudo a personagem da Susan Sarandon em “Moonlight Mile” quando ela queima os livros de auto-ajuda que os amigos levaram para ela após a morte precoce de sua filha.

perder alguém 2

“Você é tão corajoso e quieto que eu esqueço que você está sofrendo.”

Não, não ficarei bem. Fácil para você me dizer isso, que nunca perdeu alguém próximo. Não, não há como entender de fato esse sentimento sem passar por ele. Ok, a pessoa descansou, mas será que ela queria descansar? Eu odeio essa frase! O que isso significa, pelo amor de Deus?! É para eu pensar “Ah, verdade! Não tinha pensado nisso! Descansará mesmo, tenho provas disso. Obrigada! Agora minha dor sumiu!”? Só odeio mais que isso pessoas que não vão em velórios ou enterros por serem tristes. Sim, é triste. Essa é a ideia. Se não fosse triste, não seria um velório, seria uma rave. Que tal pensar na família e pessoas próximas do falecido pra variar? Segundas-feiras também são tristes, mas ela chegam, eventualmente. Essas pessoas não aprenderam nada com a Lorelai Gilmore?

Outro lembrete importante, meio na forma de “tough love”, é que mesmo sofrendo você deve lembrar que o mundo não pára de girar por causa da sua tristeza e isso é algo bom. Terá aula na sua escola no dia seguinte da morte do seu pai, o padeiro assará baguetes, linhas de ônibus passarão, a vida continuará. Pode parecer estranho que o mundo e o seu mundo sejam coisas distintas, mas te ajuda a colocar tudo sob perspectiva e seguir com suas atividades. Essas circunstâncias vão te afastar de algumas pessoas e te aproximar de outras, assim como no caso de qualquer tragédia ou grande vitória.

Perder alguém que se importe muito com você pode ser confuso. Um dia tem alguém lá que em quem você confia, que você adora, que cuida de você e vice-versa e no outro você se sente sozinho. Aquela pessoa que mais te amava nesse mundo se foi, ninguém mais cuidará de você da mesma forma, então talvez seja a hora de você assumir esse posto. Seja você mesmo quem mais torce por você e cuida de você. Assuma responsabilidade.

Ao chegar em casa, a fossa não durou muito tempo, ao contrário do que imaginei. Óbvio que estou sempre disposta a ouvir um bom musical da Broadway, mas não foi necessário. Aos poucos eu cheguei numa frase que me trouxe conforto. Eu me dei conta de que não estava vivendo tudo de novo, estava apenas lembrando do que aconteceu. Funcionou meio como um mantra e tenho certeza que você também será capaz de encontrar o seu. Como Coldplay uma vez disse, ninguém disse que era fácil, mas no seu próprio ritmo você chega lá. Pode haver dor em alguns lugares, mas o amor, na verdade, está em todo lugar.

Imagem: Pinterest

Maria Carolina

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