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Final de dois mil e quinze passei por uns problemas na vida pessoal e profissional. Estava tudo amarrado e dando um nó tão apertado, que comecei a desenvolver pequenas crises de ansiedade. Começou uma dor de barriga e/ou enxaqueca todo domingo. A semana era um monstro de cinco cabeças e acordar nas segundas-feiras tornava-se cada vez mais difícil. Depois, durante o dia, comecei com crises de falta de ar. Era um desespero ou outro, mas logo passava. Final de setembro, as crises de ansiedade vieram loucas, intensas e me rasgando no meio. Foi aterrorizante.

Lembro bem da primeira. Começou com uma dificuldade de respirar, como nos outros dias. Eu levantei da mesa, caminhei até o bebedouro, tentei beber água. Senti a pupila dilatar. A respiração ficou mais pesada. Eu buscava um ar que parecia não entrar nos pulmões. Comecei a ficar desesperada. As unhas fincaram na palma da mão, marcando fundo. A lágrima enchia meus olhos. A respiração era entrecortada, desesperada e fazia um gritinho agudo irritante. Saí caminhando-quase-correndo até o ambulatório da empresa, onde cheguei com os olhos arregalados, as mãos duras, o abdômen rígido e todo o corpo doendo.

Eu estava toda travada.

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A enfermeira (meu anjinho na terra) me ajudou a baixar o ritmo, balançou minhas pernas para relaxar os músculos, conversou comigo um tempo, me deu um calmante natural e um abraço apertado. Marcou um horário com o médico do trabalho, ele fez seu diagnóstico, me deu uns remedinhos e recomendou terapia. Naquela semana, visitei o ambulatório mais vezes. Cada princípio de crise eu já corria, porque a Carlinha – a enfermeira – conseguia me tranquilizar e me fazer rir. Ela evitava que as crises piorassem.

Quando o médico me recomendou terapia, foi meu anjinho quem indicou outro anjo. Comecei as sessões em outubro. Cheguei tímida, reservada e assustada. Eu era uma estranha no ninho e ainda estava longe de saber que o ninho era eu. Ou seja, eu era uma estranha dentro de mim mesma.

Com o tempo e com a terapia, as crises foram se tornando menos intensas. Eu fui aprendendo a controlar e tentava até onde dava. Quando não conseguia, corria para o ambulatório. A Carlinha já sabia no meu sorriso travado a situação e a intensidade. Não era preciso muitas palavras (minhas), mas ela sempre sabia o que dizer.

O primeiro dia que controlei minhas crises sozinha, eu sorria e dançava. Lembro da sensação de sucesso por tomar controle do meu próprio corpo. Cantei a vitória e ouvi um ‘que cabeça fraca’ por ainda ter princípios de crises. Eu tentei controlar a crise que viria depois, mas não obtive sucesso. Naquele dia chorei copiosamente por uma hora e meia. Meu coração doía. Meu estômago se contorcia. E nada fazia sentido. Fiquei sentada na maca do ambulatório ouvindo o doutor e a enfermeira conversarem comigo, mas eu nada dizia. Só sabia chorar.

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Continuei com remédios e terapia. Novembro encontrei uma galera que escreve, e me ajudou outro bocado. Cada dia era uma descoberta nova. Eu estava me desfazendo das amarras da sociedade e tentando descobrir quem, de fato, eu era.

Por quê resolvi relatar tudo isso?

Eu descobri que é quase impossível nos autoconhecermos sem ajuda. Meu corpo gritou por socorro porque eu não o ouvia. As crises eram um desespero de ‘hei, me escuta’. Meu corpo e mente me frearam para que eu os pudesse escutar, mas descobri que só ouvir não adianta – é preciso entender. E a gente não entende sozinho. A gente precisa de ajuda, a gente precisa de apoio.

Quando comecei a terapia, eu entrava cabisbaixa, preocupada, indecisa – e ansiosa. Fui me soltando aos poucos e me entendendo aos poucos. Lembro o dia que a Tati comentou ‘você fala o que as pessoas querem ouvir’. Foi um choque, porque eu achava que falava o que eu gostaria de ouvir também.

Com o tempo fui entendendo boa parte das coisas. O motivo das crises: que poderia ser eliminado ou mediado (você quer acabar com ela, ou aprender a conviver com o te causa?) e, felizmente, consegui eliminar. Não precisou de muitas sessões para saber a causa, mas precisei de várias sessões para aprender a lidar com as consequências das decisões de como lidar com aquilo.

Com a decisão tomada (saí do cargo que ocupava), começou o processo de entender o impacto de decidir, porque sempre fui dessas que deixava a vida no controle de tudo. Com a terapia, além de aprender a controlar minhas crises, aprendi a controlar meu destino – e ser responsável por ele. Foi libertador, sabe?

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Não vou mentir: foi um processo lento. A terapia me trouxe a capacidade de autoconhecimento e, sendo bem honesta, não é nada fácil se encarar sem armaduras nem estereótipos, e esquecer regras, padrões e sociedade, ignorar os julgamentos e se jogar na melhor versão de si. A terapia fez com que me reconhecesse, entendesse meus sonhos e meus limites. E, reconhecendo, aprendi a me respeitar, a dizer não para as coisas que não acredito e a me jogar naquilo que me traz mais vida e sentido.

A ansiedade veio para mim como um monstrinho de sete cabeças, mas hoje entendo que todas as crises foram um pedido de socorro do meu corpo e, principalmente, mente. Eu agradeço às pessoas que esbarram comigo nesse caminho, porque não dá para aprender a conviver e minimizar as crises sozinha. Precisamos das pessoas certas para nos dar alicerce. Precisamos nos despir da vergonha e se abrir, intimamente, com um profissional qualificado, que vai te ensinar a não se cobrar tanto, nem se julgar demais.

A ansiedade, pra mim, foi um monstrinho que me ajudou a enxergar que eu estava trilhando o caminho errado. E todas as pessoas que me deram apoio, me ajudaram a olhar para o lado de dentro. E foi aqui dentro dessa bagunça que sou eu, que descobri quem sou, quem quero ser e quais trilhas devo tomar para alcançar meu objetivo.

Imagem: Reprodução / Ocean Jet, The word never dropped


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