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Não tenho perfil em redes sociais. Já estive em todas: Orkut, Twitter, Facebook e arrisquei até um Instagram com quotes dos meus textos – aloka. O Orkut era novidade, com toda aquela coisa de depoimentos e comunidades. Primeira rede ever, me ajudou a estudar, a conseguir ingressos de shows já esgotados, a dar risadas, muitas risadas, a trazer doses de cultura – acredite se quiser – e, principalmente, a me aproximar dos crushs – sim, teremos palavras como crush nesse texto.

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Tempos depois, no Facebook, a coisa era – ou não – diferente. No começo a gente só fazia aqueles testes – ‘qual seria a sua casa em Hogwarts?’ e coisas do tipo – e mostrava os resultados aos amigos. Depois a galera veio migrando do Orkut e ficou todo mundo meio perdido sem saber pra que servia isso aqui – e até hoje ninguém nem sabe.

Então eu usava meu Facebook como método poderoso de investir, mais uma vez, – adivinha no que? – nos crushs.

A gente botava umas fotos massa e tinha um cuidado meticuloso ao curtir a foto do outro. Afinal, tinha que ser a foto exata para a indireta ser muito bem direcionada – nem era, paciência zero, sempre enalteci as diretasjá e tudo bem também.

Tinha a parte da zueira, de encher o saco dos amigos. De conhecer as imbecilidades dos amigos e se afastar porque, bitchplease, o cara curtia a página “Orgulho de ser Hétero” e coisas do tipo. E ainda, nesse meio pseudo cult que sempre andei, rolava sempre umas frases bonitas, citações e umas polêmicas que eu criava do nada, tipo esse texto, que me gerava uns números de “amigos” a menos. Pelo menos umas quatro vezes por ano eu deletava meu perfil.

Desde 2014 não apareço mais em rede virtual alguma.

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No Twitter, melhor rede de todas btw, eu era fissurada. As informações, os memes, os diálogos, as pessoas. No Twitter todo mundo é de boa e se entende – e quem não faz/fez parte nunca vai poder dimensionar o quanto as demais redes são nada perto dele. Forcei? Forcei. Excluí porque acabei ficando meio viciada e não costumo alimentar vícios – só em Môzi.

Aí um dia chegou o “Insta”. Você tem Insta? Me perguntavam. E eu pensando nos poucos meses em que tive um fotolog. Eu tive um fotolog e durante o tempo que tive colocava fotos fazendo homenagens a pessoas queridas porque eu só queria mesmo era escrever e amar. Fui ver o que era o Insta. Instagram. Uma rede social para postar fotos de comida, pensei. Nesse período, comecei a ver em todos os bares e restaurantes as pessoas fotografando garrafas e copos de cerveja e PROIBINDO a galera de comer antes de tirar uma foto do prato servido.

Aí a fotografia era tirada e ninguém lembrava do prato, nem da cerveja, ficava todo mundo com o celular na mão, publicando a imagem e vendo os likes que chegavam. Em algum momento comiam, ainda com o celular na mão. Um pouco mais tarde, tiravam uma selfie em grupo, com muitos sorrisos instantâneos, e depois? Cada um na sua seriedade, com seu telefone, legendando que: #sextoucomosamigos (porque sexta tem licença poética e vai virar verbo, sim!), #friendship (porque hashtag em inglês agrega mais seguidores), #amomuito, #noitefelizcomeles.

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Não conversavam, comentavam um na foto do outro, não tinha emoção, toque, olho no olho, conversas sem fim sobre tudo e coisa nenhuma enquanto a cerveja ia embaralhando o universo e todo mundo se entendia. E a pandemia ia sendo disseminada. Pessoas indo para shows maravilhosos, mas ao invés de dançar, fechar os olhos e absorver a energia única de momentos assim, paralisavam filmando pedaços e mais pedaços e enviando e publicando e mostrando que estavam ali. Que vejamsóondeeutôquefoda, sem nem sequer estar.

Estar não é presença física, é devorar o que se vive.

A tendência é que se tenha cada vez menos do que lembrar, porque cada vez se está menos. Cada vez se relaciona menos com o instante. O que passou, fotografia nenhuma resgata. O que faz uma lembrança são as emoções do momento. Um estudo recente afirmou que o Instagram é a rede social que mais adoece os jovens. E isso chega a ser óbvio. Manter um perfil nessa rede passou a ser uma forma de vida alternativa à realidade: quando o celular é desligado e o olhar passa a ser ao redor, dói. Acho muito válido esbanjar felicidade, uma roupa nova, uma viagem, uma conquista, um aniversário.

O que a gente tem que peneirar da vida são as alegrias, sim. Eu particularmente adoro tirar selfies, encontrar meu melhor ângulo, sorrir – porque é o que faço de melhor no mundo. Gosto de fotografias. Gosto de fotografar. Gosto de ver. Gosto de abrir um perfil cheio de cores. Mas o que me causa receio é a falta de noção em algumas tendências. Outro dia abri o Instagram de uma conhecida e não via nenhuma foto dela. Até que: oxe, é ela! Efeitos.

Foi quando descobri ser essa também a rede social dos efeitos. Vejo a pessoa do meu lado com uma frequência imensa, mas ali não consegui reconhecê-la. E o inverso também já aconteceu, ver primeiro ali, para depois ficar meio passada com a diferença. E isso é um tanto alarmante, para mim, sim. Existe uma porção de perfis de celebridades, fotos sempre manipuladas, meias anticelulite, reboco na cara, cabelo feito. MAS. Essas pessoas trabalham com o corpo, estão sempre expostas, todo mundo cai em cima com qualquer deslize – que triste, sim, mas é escolha. Justifica? Não mesmo.

Tudo sempre é escolha.

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Só que, de outro lado, temos meninas lindas, que vivem a mesma vida que eu, mas que passaram a viver para o Instagram. As fotos só passam para a rede se tiver muita maquiagem. Nas fotos de biquíni tem que ter muito efeito, cobrir qualquer vestígio de corpo real de uma mulher normal. Fotos sorrindo não tem mais tanta graça assim, tem que rolar a duckface (fazendo biquinho) etc.

Criaram um padrão tão absolutamente doentio que o diferente hoje é colocar fotos expondo uma dobrinha na barriga. O diferente hoje é ser o que se é. O alarde hoje é um artista famoso fazer um post sem maquiagem. O aumento da quantidade de adolescentes/jovens se subtendo a intervenções cirúrgicas por motivos superficiais é entristecedor. As meninas acordam preparando o rosto, porque ninguém pode enxergá-las sem maquiagem. Usam maiôs para esconder qualquer coisa. Não tiram o short na praia por conta de imperfeições.

Os perfis atuais do Instagram reforçam estereótipos doentios de uma perfeição irreal. Efeitos para “limpar” cicatrizes, estrias, uma ruga na testa. Efeitos para esconder o que ensinaram a cultuar como defeitos. Todos se enganam. Enquanto você não conseguir se encarar nua na frente do espelho e se achar muita coisa boa e gostosa, o Instagram não vai servir para nada além de te deprimir a cada vez que vestir essa capa de efeitos em cima do seu corpo.

Acordei hoje depois de uma noite bem dormida em meio a tantas noites insones dos últimos dias.

Me olhei no espelho e comentei: olha que massa essas olheiras lindas! E é isso o que faço todo dia: me olho no espelho e me elogio porque, realmente, aprendi a conservar uma autoestima boa pra caralho. Sempre fui magra, desde a infância. Na transição da adolescência para a vida adulta, em meio a muitas questões emocionais e uma dengue, emagreci mais, fiquei um tempo abaixo do peso, ouvi coisas boas e ruins, mesmo sem nunca ter pedido a opinião de ninguém. Isso quase me derrubou. Fiz dieta para engordar, entrei na academia (sem nunca postar uma foto no espelho de lá, porque né), esfolei meu joelho esquerdo, fiquei muito escultural, mas… Para que? Para quem? Eu estava fazendo aquilo para caber. Caber num padrão que foi criado e enfiado na cabeça de cada um de nós como o certo. O único. Me libertei. Passei três anos entendendo – de novo – meu corpo. Nunca fui tão feliz com a estética do que sou.

Há dois anos, ganhei dez quilos durante um tratamento para gastrite. Um quilo por mês. Continuo magra, mas hoje tenho culotes, uma barriguinha positiva, um pouco mais de celulites, algumas estrias extras e continuo usando o mesmo biquíni – mentira, tive que comprar outro.

Nosso corpo é nossa estrada. Não é objeto, não pertence, não tem que agradar ninguém.

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Meu corpo é um instrumento que serve para abrigar quem sou e me levar onde quero. Minha imagem atual é minha mais resolvida versão.

Por isso consigo amar minhas olheiras, meus cansaços: sou a melhor fotografia da minha própria vida. Meu corpo conta minha história. Por isso continuo a tomar minha cerveja nas sextas-feiras. Por isso sempre que dá, sábado é dia de pizza. Por isso domingo pode ter sobremesa mais gulosa. Por isso minhas fotografias não têm maquiagem, não têm efeito, porque eu sou tão real assim, como toda mulher que se ama. E amor próprio é uma questão de qualidade de vida. É o que dita toda a incrível beleza do que somos. Amor próprio é o jeito que o coração dá de caber nos nossos olhos quando nos olhamos, e quando a gente conquista isso nada mais abala.

Então, boramar e dar um off no Instagram e todos os padrões e em tudo mais que é tão desnecessário.

Quem precisa de confete na vida é alguém que não consegue ser, em plenitude. Elogio maior é se expor inteira, sem retoques. O que se respira não cabe numa imagem. O que a gente sente é vestimento interno. Fotografia boa de ver é aquela que a gente revela, põe num álbum, senta em casa e começa a ver todo mundo junto, passando de mão em mão e recordando coisas sobre aquela época que um dia foi bem bonita de fazer parte. E sabe de uma coisa? As melhores fotografias da minha vida são aquelas que não tirei, porque viver o momento estava me consumindo de um jeito absurdamente maravilhoso.

Imagem: Reprodução/Black Mirror (2016)


E o que vocês responderiam a essa pergunta aqui abaixo, feita por uma de nossas usuárias do Clube Superela?


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