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Sabe, moço, ele nunca tentou secar uma lágrima minha sequer. Sempre tentei fazê-lo escapar para respirar um pouco e descobrir que vai passar, quando algo dava errado. E bate um desespero inquieto perceber que, mesmo depois de todo esse tempo, ele nunca, nunquinha, tentou fazer o mesmo por mim. Ele nunca me disse que “vai passar”. Sempre pensei que fosse pelo fato dele querer me dar espaço para sofrer em paz. Mas, no fundo, eu sabia que ele simplesmente não era capaz de fazer o contrário.

Sabe, moço, eu não sei quando foi que acordei de fato. Nem sei se estou, nesse momento, de olhos abertos, não apenas por estar, mas enxergando profundamente o profundo frio em que ele me deixou. Foi como ajudá-lo a cavar um buraco para que eu mesma pudesse ser enterrada. Tudo isso sem entender o que eu estava fazendo. É que a gente ouve falar nos jornais sobre relacionamento abusivo, mas, sabe, nunca espera que possa acontecer conosco (leia mais aqui). E quando acontece, a gente finge não perceber, no entanto, no fundo, a verdade é que a gente não quer mesmo acreditar.

Mas foi em um dia de verão, eu estava lá, como sempre, em meu pequeno espaço, com que havia sobrado de mim, e ele estava no seu grande e oportunista momento de me fazer ser sua, de forma que nem eu mais entendia como acontecia, quando via, já era dele. Lá estava ele, querendo me dizer que eu não merecia mais que aquilo que ele era, ora, já era o suficiente. Gritou meu nome como quem chama um vizinho que mora na outra esquina. Dessa vez não corri. Dessa vez não me mexi. E, embora eu sequer tenha respirado também, continuei me dizendo, afirmando, que eu podia superar. Podia enfrentar.

Relacionamento abusivo: dia em que descobri que podia ser feliz sem ele 1

Então ouvi seus passos. Cada vez mais perto. Cada vez mais rígidos. Eu caí no choro ali mesmo. Eu sabia que, no fundo, meu corpo inteiro tremia e pedia arrego. Pedia um tempo pra vida. Um tempo para nascer de novo, quem sabe. E nunca mais me permitir amar. Sim amar. Digo amar, porque, sabe, moço, eu o amei. Amei aquele riso desde o primeiro oi. Desde o primeiro abraço e clima frio, desses que a gente se aconchega num pescoço quente e nunca mais quer soltar. Mas, após um tempo, o clima frio passou do lado de fora e permaneceu dentro de mim. Sei lá. É que me pareceu tão certo certo dia. Hoje vejo como o certo pode não dar certo. E que o erro é apenas mais uma cabeçada da vida.

Ele se ajoelhou ao meu lado, com olhos firmes e rudes, segurou em minhas bochechas, levantou minha cabeça e disse:

– Aqui e agora!
Relacionamento abusivo: dia em que descobri que podia ser feliz sem ele 2

Havia lágrimas ali, moço. Havia uma tempestade se esvaindo de mim naquele momento. Eu estava desmanchando. Eu estava afundando em algo que nunca existiu, mas que me afogou de uma forma que eu não sabia mais como nadar. A verdade era que eu não sabia se ainda tinha esperança de chegar em terra firme novamente. Eu estava ali, consagrada ao “aqui e agora” dele para o resto da vida? Foi isso que passei ser? Um simples capacho para suas imundices? Naquela noite eu me deformei por dentro. Não havia mais um pingo sequer da pessoa que ele havia conhecido antes. Naquela noite eu virei outra pessoa e até hoje ainda não a conheci profundamente de novo, se é que é possível conhecer alguém no profundo. Ela, essa nova pessoa em que me transformei, me fez dar de cara com a dura realidade de que se eu quisesse sair daquela cena viva, deveria lutar.

Eu estava passando por um relacionamento abusivo e resolvi lutar contra isso!

Então eu lutei, moço.

Lutei como se eu dependesse disso para viver. E eu dependia. Dependia a cada novo dia. E por falar em novo dia, moço, hoje estou apenas te dizendo que não o desejo o pior, apesar de o odiar com todas as minhas forças, desejo apenas que ele veja como a injustiça machuca. Como faz sangrar um coração inocente que se achava pronto para amar. Quero apenas que ele compreenda que ninguém pode conduzir a vida de outro alguém. Quero que ele perceba que o tempo passou sem que ele fizesse algo para que não passasse em vão, mas que, ao contrário, fez com que cada segundo fosse sentido da forma mais dolorosa possível.

Quero que ele aprenda a valorizar não só uma mulher, mas o ser humano (leia mais aqui). Que ele entenda que relações são pontes que construímos e que não dá para manter com apenas os desejos de um dos construtores, todos devem, acima de tudo, se sentir bem com a obra. Não há relacionamento quando apenas um está no comando, porque, aliás, relacionamento não se comanda, simplesmente se vive, se experimenta. E quando a experiência se torna abusiva, de forma que você não consegue se sentir livre, bem, feliz e realizada, não é uma relação saudável. Então a gente tem que cair fora, tem que enfrentar e, se possível, rasgar a página da nossa vida.

Mas, sabe o que mais quero, moço? Que mais pessoas saibam o quão doloroso é estar passando por um relacionamento abusivo como o que passei. Eu sei que quando estamos lá naquela cena, parece impossível de que um dia tudo vai acabar, porém que percebam que o protagonista da nossa vida não é o tempo, que ele não leva nossas tristezas embora se ainda nos escondemos atrás do medo de mudar, mas que somos nós os únicos capazes de enfrentar e encontrar um novo caminho mais uma vez, apesar do medo absurdo de errar de novo. Afinal, a gente aprende errando também, só não aprendemos quando nos limitamos a aprender.

Sabe, moço, nós nos tornamos capazes no momento em que acreditamos ser.

Imagem: Pinterest

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