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O que você procura?

Faltei a aula hoje para poder ir até uma médica que demorou 2 minutos – ou melhor, 120 segundos para parecer que a consulta foi mais demorada (a consulta era só uma mostra de exames, deixar claro antes que tias brotem de preocupação, estou bem). Eu já estava triste por me sentir, ultimamente, de olhos fechados para as coisas que andam acontecendo ao meu redor.

Voltei pensativo do consultório, passando pelo caminho que chegava até minha casa, cerca de 3 quarteirões. Estaca com sono, preguiça e um pouco de raiva por ter esperado mais tempo do que a consulta propriamente dita. Virei a esquina e avistei um jovem com um papel nas mãos – um caderninho, na verdade.

Ele estava parado próximo ao ponto de ônibus e eu precisava passar pela sua frente para chegar até minha casa. Ele veio falar comigo para me pedir um favor: você tem um minuto para responder uma pesquisa? Eu sempre tento ser solícito a essas coisas. Imagino que um dia possa ser minha vez de precisar da boa vontade dos outros.

Quando disse que responderia, ele já ficou surpreso, parecia que as pessoas não tinham esse mesmo pensamento que eu. Correu, se ajeitou, organizou entre suas mãos o celular, a caneta, o caderninho, um outro papel e um envelope. Eram tantas coisas que estava até com medo de deixá-las cair. Ele me explicou que era da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da cidade e começaram as perguntas:

– Se incomoda em dizer sua idade?
– Claro que não, tenho 21 anos, eu respondi. Se a pesquisa fosse em outubro, teria 22 – ri enquanto explicava que daqui um mês era meu aniversário.

Ele me perguntava, eu respondia. Me peguei olhando para a letra dele, não entendia nada que estava escrito ali. Ele segurava de um jeito muito diferente a caneta e nem sabia mais se estava fazendo algum sentindo minhas respostas. Mas o que mais mexeu comigo foi ver que todas as perguntas que estava me fazendo acabaram ajudando mais a mim que ele.

Eram questionamentos sobre meu bairro. Por que morava aqui? Por que gostava daqui? O que tinha em meus olhos sobre esse espaço? E tantas outras… Essas indagações começaram a fazer sentindo quando eu notei que nunca tinha visto a existência de pequenos detalhes de onde eu morava.

Se eu achava que meu dia estava ruim, naquele momento passei a perceber a quantidade de coisas boas que rodeavam a minha vida – e isso sem nem pensar na dimensão de bairro. Eu pude parar para refletir que as vezes os nossos olhares podem ser direcionados as coisas boas que temos para nós. Meu bairro para mim hoje foi uma grande lição que tirei de uma pesquisa que resolvi responder: o que meus olhos estão procurando ver?

Ele me perguntou o que eu mais gostava daqui, e numa corrida mental, tive a visão de várias ruas que já percorri e as histórias que vivi em cada uma dela. Me senti estranho por talvez não ter voltado em algumas, ou por não conhecer por completo aquilo que estava ao meu redor. Mas agora, escrevendo isso, eu noto que até nós mesmos somos uma espécie de bairro, temos ruas que não conhecemos dentro de nós e temos lembranças que não voltamos nelas para reviver ou recomeçar uma nova história (leia mais aqui). Já pensou nisso?

Após eu ter tido essa reflexão, o moço que não me disse seu nome, me agradeceu, me deu parabéns adiantado de um mês e eu segui meu caminho. Nem lembrava que havia comentado do meu aniversário, mas ele por gratidão ou mesmo educação fez questão de me desejar felicidades.

os seus olhos enxergam de verdade?

Antes de abrir o portão, pensei e resolvi voltar até o consultório da médica – dessa vez passando pelo caminho mais longo, e aproveitando os minutos que me sobraram daquela consulta de pouco tempo. Não coloquei a mão no meu celular, aquele momento precisava ser só eu e os meus pensamentos.

Na porta do consultório novamente eu vi que, rápido ou não, temos sentimentos que são como ruas sem saída. É a vontade de querer por alguém. Somos longas avenidas, turbulentas, com carros, trânsito e tantos outros obstáculos. Em alguns momentos, essas avenidas podem apresentar buracos, o sinal pode estar vermelho e você não ter mais saco para continuar nessa via, mas o importante é lembrar que na sua frente ainda sempre haverá um caminho novo, ainda não descoberto (leia mais aqui).

Virei as costas ao prédio tradicionalmente branco e mais uma vez andava em direção a minha casa. Cortando ruas, histórias e pessoas que eu não conhecia. Próximo ao ponto de ônibus novamente, o moço já não estava lá. E posso dizer que eu também não estava mais lá como antes, afinal, meus pés já tinham caminhado por mais ruas e meus olhos já tinham enxergado mais coisas do que antes – tanto no meu bairro, como dentro de mim. Que mais pesquisas aconteçam, e que mais respostas eu seja capaz de descobrir.

Imagem: Pinterest

 

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