O que você procura?

Perder alguém querido, perder alguém que amamos. Qualquer amor, de qualquer tamanho. Eu uso essa expressão “perder” e sei que alguns fazem até piada sobre isso (‘perdeu’? que descuidado!). Ah, como seria bom se desse para achar…

Mas acredito que a palavra “perda” aqui tem a conotação perfeita para o sentimento. “Perder” é sinônimo de desaparecer, faltar, sumir; e também se refere a “perdido”: desorientado, desnorteado.

É perda. Quando alguém próximo de nós morre, se perde de nós, desaparece, falta, some.

Tempos atrás, estava lendo uma entrevista com a chef Paola Carosella e vi que seus pais faleceram muito cedo. A mãe, quando ela tinha 26 anos e o pai, aproximadamente um ano depois disso.

Então, me peguei pensando: “Ah, meu Deus… Imagina, perder os pais tão cedo?”. É, às vezes esqueço que foi exatamente isso que aconteceu comigo.

Minha mãe faleceu quando eu tinha 23 anos.

“Perdi minha mãe… Mas preciso ser forte para não deixar meu pai ainda mais triste”…

Era o que eu pensava e, por isso, por causa dessa “missão”, me escondia debaixo da cama pra chorar para que ele não visse. Era um choro silencioso e sufocante, além de ardido… Acho que as lágrimas sabem quando são proibidas e ficam ácidas.

Sobre perder alguém e se encontrar pelo caminho 1

Meu pai se foi quando eu tinha acabado de completar 26 – precisamente, três dias depois do meu aniversário. E eu não me escondia mais debaixo da cama pra chorar, eu me escondi dentro de mim, porque não conseguia chorar. Eu simplesmente travei.

Sabe aquela bola na garganta? Aquela que você fica tentando engolir e não desce – mas também não sobe?

Não dá para explicar. Pelo menos, eu sou incapaz de traduzir este sentimento em palavras… É como se fosse uma dor generalizada, porque tudo em você dói, e como se não bastasse, estão incluídas nesta dor partes que você nem sabia que tinha – a tal da dor fantasma.

Dor fantasma é a dor de um membro amputado, um membro que não está mais lá; seja um membro do corpo, um membro da família, um membro do coração, é a dor que ecoa, que pulsa e que nos grita o que falta.

Falta um ponteiro no relógio, falta um pé do sapato, falta o apetite, falta o sono. Falta, como diz a Estrela Perigosa de Clarice: “um dente na frente”.

Então, por um tempo, você não sabe como agir. Vai no piloto automático, alguns dias no empurrão e, em outros, simplesmente, não vai. Porque os sons parecem mais altos, as cores mais vivas e irritantes, os cheiros mais pungentes e enjoados, os caminhos mais longos e esburacados.

Sobre perder alguém e se encontrar pelo caminho 2

Não lute com o luto

Nas duas situações (e em várias outras na vida) eu entoei o mantra: preciso ser forte. Eu dizia isso a mim mesma porque já havia escutado essa frase muitas e muitas vezes. Como tantas outras, coitada, ela já faz parte da lista de frases feitas que usamos quando não temos o que falar.

Mas, ao mesmo tempo em que essas palavras ecoavam nos muitos espaços vazios da minha cabeça, eu não entendia esse conceito e eu o ouvia, quase sempre, como se soasse num tom pejorativo.

Afinal, o que é força? Como é ser forte?

Como você pode dizer pra alguém “seja forte”? Seria o mesmo que dizer “Sinta a dor, mas não demonstre”? Ou ainda “A vida continua, não caia, aguente firme”?

Seria se comportar “bem” diante de uma situação que te espatifou e depois consumiu cada pedaço que estava no chão?

Qual é a definição de força para alguém que não consegue pensar, que está exausto, destruído, completamente sem esperança e sem perspectiva?

Alguém traduz aí, por favor, enquanto eu vou embaixo da minha cama buscar a força que esqueci lá?” (dancei, porque faz tempo que a cama é baú).

Depois de muito tempo, eu entendi que não queria ser forte. Eu só queria continuar.

Sobre perder alguém e se encontrar pelo caminho 3

Continuar, sem ignorar a dor, continuar sem precisar segurar o choro, continuar sem fingir que estava tudo bem. E isso significava permitir e respeitar: permitir os sentimentos e respeitar a dor.

Porque os sentimentos que ignorei e a dor que eu cobri com o lençol de fantasma, voltaram e cobraram seu preço.

Me fiz forte por fora quando meu interior era uma massa trêmula de sentimentos, relegados a um lugar para o qual eu não olhava. E eles ficaram cozinhando ali, durante anos…

Então, quando tinha episódios de choro convulso, não sabia dizer porque estava chorando. A dor que eu senti tantos anos depois era o luto tardio, o luto que eu havia deixado de lado por estar muito ocupada sendo forte.

Depois de muito tempo, eu cai – e vivi esse luto. Foi como perder os dois pela segunda vez, mas foi extremamente necessário. Revivi as cenas, reencenei as dores daquele período obscuro e desconhecido, mas foi muito, muito importante passar por todos os estágios, vivenciá-los e entende-los.

O que eu diria para mim se pudesse voltar no tempo?

Sobre perder alguém e se encontrar pelo caminho 4

Chora, criança, o que tiver que chorar. Sofre o que tiver que sofrer. Não pule etapas, não tape buracos de qualquer jeito, não faça remendos. Deixa doer, deixa arder, simplesmente deixa.

Um ferimento não se fecha do dia para a noite, nem de fora para dentro. Quando parecer que vai doer pra sempre, saiba que não vai; porque a dor, assim como a saudade, tem seus dias de tempestade, seus dias de chuva fina e seus dias de brisa.

A força tão cobrada não vem durante o luto, ela vem depois, principalmente se você tiver com quem contar. Então, permita-se procurar ajuda – seja de um amigo, um parente, um profissional da saúde, um conselheiro espiritual, qualquer pessoa que deixe a sua alma confortável.

E o mais importante: Continue.

“Toda a arte de viver está no delicado equilíbrio entre desistir e insistir”. – Henry Ellis

Ilustração de capa: Henn Kim 


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