O que você procura?

Ontem, rolando os dedinhos no mouse, pela minha timeline, me deparo com mais uma notícia horrível. Uma mulher foi brutalmente assassinada, pelo próprio marido, na frente do seu filho de 17 anos.

“Qual é a novidade nisso?” você deve estar se perguntando. Infelizmente, sinto, com um grande pesar no coração, ao te responder que “nenhuma”. Afinal, notícias como estas estão se tornando cada vez mais corriqueiras. Meu maior medo não é somente que a manchete se torne algo banal, mas que NÓS, SERES HUMANOS (somos SERES HUMANOS, cara!), também nos banalizemos.

Fui postar um comentário indignado, lastimando mais uma perda de um ser humano inocente que morreu só por SER MULHER. E aí dei de cara com inúmeros comentários inquisidores disfarçados de compaixão. Teve um, em particular, que me chamou a atenção também pelo número de respostas em apoio que recebeu. O comentário era mais ou menos assim:

“Coitada! Mais um feminicídio, que lástima! Me pergunto, até quando?! Não entendo por que alguém se submete a passar por isso! Até quando as mulheres vão ser mortas por se submeterem à situações como estas? Sei que é difícil mas, poxa! Saísse de casa, fosse pra polícia, chamasse ajuda! Viver assim é o que não dá! Temos que nos empoderar e ir à luta!”

Empoderamento e Sororidade de modismo: precisamos ir além!

sororidade

E um monte de mulheres apoiavam fortemente o “grito de revolta” e sacudiam as bandeirolas do “empoderamento de boutique”, sabe? Aquele que nem o movimento neo hippie, trazido pelos Millennials querendo reviver Woodstock, usando botas de couro de R$680,00 e vestidinhos “hippies” de R$480,00 conto, que só usurpam o nome, mas não incorporam a essência. Enfim…o EMPODERAMENTO DE MODISMO! Porque a palavra entrou na moda!

Eu geralmente não respondo comentários que considero babacas. Não gosto de perder meu tempo com babaquices alheias (só as minhas próprias já me tomam bastante tempo). Mas a esse comentário que já citei não resisti. Foi do fundo da alma.

Eu comecei perguntando: “Gata, aonde está a sua sororidade?”. E, antes que ela se desse ao trabalho de procurar no Google, copiei e colei o seu significado para mostrar que ela sabia exatamente do que se tratava.

Continuei:

Sororidade é algo implícito, atávico e imprescindivelmente empírico. Sororidade é a capacidade que nós mulheres temos de nos colocarmos no lugar da outra. Sem julgamentos, sem sentenças pré-formuladas, sem hostilidade. Sororidade é apoio mútuo feminino, da alma, não só da boca pra fora. A partir do momento que você coloca um “mas” no teu discurso, você impõe uma condição. E SORORIDADE LEGÍTIMA é IN-CON-DI-CI-O-NAL. No português claro, “NÃO DEPENDE DE CONDIÇÃO ALGUMA PARA EXISTIR”, e só se aprende na prática!”

Você não entende como uma mulher se submete à tais condições desumanas de vida. Percebe-se, obviamente, que você nunca sequer conheceu uma mulher que tenha sido vítima de violência doméstica. Deixa eu te explicar mais um pouquinho: a violência doméstica é o PIOR tipo de violência que pode existir na Terra, porque ela vem de onde não se espera. Ela vem das pessoas que supostamente eram para ser seu alicerce para te amar e proteger. A violência doméstica transforma o lar, que era pra ser um porto-seguro, em uma sucursal do INFERNO.

É fácil falar em ‘EMPODERAMENTO‘, nascida em classe média, com uma base familiar estruturada, saída de bons colégios particulares. É muito fácil bater no peito dizendo “SE EMPODERE!” quando se tem um diploma em mãos, um salário fixo e a casa dos pais para morar. É fácil levantar a bandeirinha do EMPODERAMENTO, digitando do seu Iphone 7 comprado na sua última viagem aos EUA. Mas, vá VIVER, pra você ver.

Vá se casar aos 16 anos porque mal se tinha o que comer em casa. Vá ter um filho aos 17, outros dois aos 18 e 19.Vá apanhar todos os dias do homem que você AMA.Vá passar uma vida inteira dentro de casa, lavando, cozinhando e servindo ao seu agressor, porque não se tem para onde ir, e não se quer deixar os filhos. Não se sabe fazer mais nada porque nunca teve chance sequer de estudar.

Sabe qual é o único desfecho dessa história? A MORTE.

Independente de qualquer reação da VÍTIMA, ela morrerá. Se sair de casa pra pedir ajuda, morre. Se ficar, morre. Se for à polícia, morre. Se fugir, morre. Se implorar, morre. Se se recusar, morre. E se matar, morre. Morre porque a sociedade a matará. Porque a CULPA a matará. Porque a fome, a pobreza e os olhares silenciosos de quem por dentro estará gritando “ASSASSINA”, a matarão. O descaso do governo, que parece só se interessar em proteger verdadeiros bandidos, a matará!

Não tem NINGUÉM pra defender a protagonista dessa notícia terrível. Comentários como o dessa menina, matam. Temos que parar com essa mania louca e absurda de culpabilizar as vítimas e vitimizar os culpados. Temos que parar de achar que as mulheres são mortas porque querem! Que mulher GOSTA DE APANHAR! Que mulher “NÃO TEM VERGONHA NA CARA E AMOR PRÓPRIO“. Que “MULHER SE SUBMETE A TUDO POR CAUSA DE UM MACHO“. Desta forma, nos tornamos cúmplices desses crimes.

Temos que parar de achar que ‘Empoderamento’ é só sair pra baladinha na zona sul usando um salto alto, um batom MAC vermelho e uma mini-saia que custou quase 1 salário mínimo. Temos que parar de cobrar EMPODERAMENTO de quem não tem a chance nem de saber o que é isso, e começar a AGIR. Temos que DEFENDER as mulheres que não podem fazer isso sozinhas.

Temos que parar com essa ‘sororidade’ genérica, que elogia nas redes sociais o clipe da Anitta de mini short e sutiã, mas que chama a mana de VADIA porque está usando um decote grande. Podemos trocar essa falsa sororidade por verdadeira empatia, por exemplo. Esse empoderamento elitista (e um tanto egoísta ao meu ver), por ajuda voluntária, por exemplo. Essa OBRIGATORIEDADE ditatorial de auto-aceitação a qualquer custo, por ajuda EFETIVA a quem não se aceita de jeito nenhum, por exemplo.

Tá faltando não somente olharmos para os lados, mas olharmos para dentro.

Enxergar algo além dos títulos, das manchetes, das aparências. Tá faltando COMPLACÊNCIA e PARCIMÔNIA. Palavras velhas, eu sei. Mas que essa nova geração não faz nem ideia do que significa.

Ser totalmente empoderada e segura de si, quando se veste 36, é branca e tem cabelo liso é moleza. Quero ver se empoderar e andar com a cabeça erguida quando se é impedida de acompanhar a amiga loira numa loja de grife. Ou quando se é encaminhada para a revista, depois que todas as suas amigas brancas passaram direto pela portaria. Minhas melhores amigas da vida são negras, e sofremos juntas todos esses episódios. Afinal, eu era a amiga loira que passava direto. E quer saber? Me dói tanto lá no fundo do âmago que não consigo conter as lágrimas ao escrever.

Vá se empoderar, gatinha, tendo que sofrer assédio do patrão calada para poder sobreviver. Vá se empoderar ganhando menos do que teus colegas homens, pelo simples fato de ser mulher.

Quero ver a tua sororidade com a ex do teu namorado que ele insiste em a chamar de louca. Ou com aquela mina que bebeu além da conta e está servindo de passatempo para uma rodinha de Playboys nojentos.

Sabe até quando as mulheres vão ser mortas por se submeterem à situações como estas?

Até quando existirem pensamentos como o seu. Que deve ser parecido com o de uma vizinha dela, que falava por aí que ela era uma OTÁRIA por fazer comida todo dia e lavar e passar as roupas de um safado que só vivia na farra e chegava em casa bêbado para bater nela. Que ela não tinha VERGONHA NA CARA e que era uma acomodada que, no fundo, gostava de apanhar.

Mortes como estas existirão enquanto não existir a verdadeira sororidade e AMOR.

Porque quando uma mulher é covardemente assassinada por um homem, não foi só ela que se calou, foi a sociedade inteira.

Eu, nesse exato momento, não tenho mais como expressar a minha tristeza, minha indignação, revolta e ÓDIO por todos os crimes bárbaros que vejo, pois não é só crime contra a mulher. São crimes contra crianças, idosos, trabalhadores, enfim, contra a Raça Humana. Nós estamos perdendo a humanidade… para a humanidade.

Precisamos nos humanizar. Urgentemente.

#humanizese

Imagem: As Branquelas (2004)


E que tal bater um papo sobre sororidade com essa nossa leitora aqui embaixo?


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