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A estreia da série da Hulu The Handmaid’s Tale foi recebida com burburinho e muitas discussões sobre a trama, que se passa em uma sociedade distópica, a república de Gilead. Baseada no romance da autora canadense Margaret Atwood, a série traz elementos modernos à estória que foi publicada nos anos de 1980.

Principais semelhanças e diferenças entre o livro e a série

Como toda adaptação para a TV de uma obra literária, não é possível ser 100% fiel ao texto. Ajustes são providenciados para tornar a trama mais compreensível a quem a assiste, para se adaptar à linguagem da TV, e para chamar a atenção da audiência.

A principal mudança em The Handmaid’s Tale, na minha análise, foi a ordem de alguns acontecimentos, que foram antecipados nos episódios da série para ajudar o espectador a entender a sociedade de Gilead. A cerimônia na qual as mulheres são levadas para acompanhar a condenação de subversivos, e onde as handmaids – ou aias, na tradução para o português – participam do linchamento de um homem acusado de estupro, por exemplo, é uma das passagens que, no romance, acontece mais perto do final e, na série, foi apresentada no primeiro episódio.

Foram incluídos outros trechos à trama, enfatizando a vida dos outros personagens antes de Gilead (no livro, basicamente, apenas a vida pregressa de Offred é apresentada em flashes alternados com a realidade).

Também houve uma mudança substancial no perfil de alguns personagens, como Ofglen (em uma interpretação comovente de Alexis Bledel) e até na caracterização física de outros, como o Commander (interpretado por Joseph Fiennes). Antes da estreia, fãs no exterior chegaram a fazer alguns comentários no Facebook questionando a escolha de um ator considerado bonito para um papel que, no livro, é descrito como não tão belo assim. Enfim, coisas da TV.

No mais, a ambientação e a linguagem utilizada se mostra bastante próxima do descrito no texto de Margaret Atwood (que na produção para TV atuou como consultora). Ao ler (ou reler, o que foi meu caso) fica fácil visualizar as cenas. A modernização necessária para se adequar aos tempos atuais tornou o cenário ainda mais assustador do que já parecia ser.

O que há em um nome?

Na república de Gilead, as mulheres têm seus direitos totalmente destituídos e são divididas em castas:

  • Wives: as esposas, estão no topo da “pirâmide social”. Em geral estéreis, têm seus filhos gerados pelas aias. Dedicam-se a visitar as outras esposas e trabalhos manuais, como o tricô. Usam a cor azul;
  • Handmaids: representadas pela cor vermelha, são as mulheres férteis – logo, responsáveis pela gestação das crianças. São espécies de escravas, vivendo nas casas dos seus Commanders e participando das cerimônias de fecundação. Têm direito a uma saída diária, sempre em duplas, para ir às compras;
  • Aunts: usam roupas de cor marrom. São as mulheres mais velhas, responsáveis pelo “treinamento” das handmaids, além de aplicar as punições;
  • Marthas: usam roupas na cor verde e são responsáveis pelos serviços domésticos, como a cozinha;
  • Econowives: usam roupas listradas e são pobres. Desempenham os papeis de wife, martha e, quando férteis, de handmaid também. Não têm participação efetiva no enredo da série, e no livro são apenas mencionadas

Os homens são divididos em duas categorias: Commanders (em posição de poder e prestígio) e Guardians (os empregados).

Vamos focar nas handmaids, que são o foco da história. Já observaram os nomes delas? Offred (a protagonista de The Handmaid’s Tale, interpretada por Elisabeth Moss). Ofglen. Ofwarren. Ofsteven. As mulheres separadas para esse papel têm seus nomes anulados e recebem esses nomes novos.

The Handmaid’s Tale: uma reflexão necessária sobre o papel da mulher na sociedade

The Handmaid's Tale

Vamos desmembrar os nomes recebidos?

Of|fred

Of|glen

Of|warren

Of|steven

O que vem depois do “Of” são os nomes masculinos, os nomes de seus commanders. Isso é mais um reforço para o caráter de escravização que faz parte do papel das handmaids. Deixou de servir aos interesses de quem está no poder? Começou a “dar defeito”? É facilmente descartada e substituída por outra, que vira a nova “Of[insira aqui o nome de um homem].

E na nossa sociedade, em pleno 2017? O quanto estamos condicionadas a ser “de um homem“, a buscar um parceiro para validar nossa existência e valor? Você já parou para pensar nisso? Lembrando que uma coisa é relação de parceria, outra coisa é a relação em que a mulher é anulada em nome do parceiro. Essa diferença precisa ficar clara.

É proibido pensar

Um direito que é negado a todos, sem exceção, é o acesso à informação, principalmente de livros e revistas – esses materiais são inexistentes por lá. As poucas notícias que chegam são vindas do rádio e da TV, possivelmente antigas ou manipuladas.

Na nossa sociedade, felizmente ainda temos acesso a informações de diversas fontes, mas a situação a que as mulheres de Gilead são submetidas nos leva a pensar no cuidado que devemos ter com o que lemos e ouvimos. Refletir e questionar é importante, é um direito que devemos preservar, pelo qual devemos lutar.

Offred e Ofglen: duas formas de lutar

As duas personagens de destaque são exemplos de subversão, de luta contra a opressão vigente. Com posturas ligeiramente diferenciadas: enquanto Offred subverte a ordem de forma aparentemente mais analítica e observadora – sendo a narradora de The Handmaid’s Tale; Ofglen demonstra ser mais confrontadora e, ao menos à primeira vista, bem mais ousada.

Ela sofre sanções terríveis pela sua postura – e é considerada uma gender traitor (traidora de gênero), por ser lésbica. Tendo sua essência sufocada de forma violenta, a reação de Ofglen é a mais dramática possível. De arrancar lágrimas.

The Handmaid's Tale

Imagem: The Handmaid’s Tale (2017)

Apenas a partir da metade da trama é que Offred começa a mudar sua trajetória, se colocando em risco ao se envolver de forma mais pessoal com os personagens masculinos que estão diretamente relacionados a ela e também encontra uma oportunidade de revelar sua condição de oprimida para pessoas que acham que ela escolheu aquele caminho.

Esse deve ser provavelmente o maior acerto de The Handmaid s Tale: através do olhar dessas mulheres subjugadas, podemos refletir sobre os papeis que desempenhamos e o que esperam que façamos enquanto mulheres. É sobre luta contra a opressão, é sobre liberdade de escolha.

Imagens: The Handmaid’s Tale (2017)


E o que vocês responderiam a essa pergunta aqui abaixo sobre The Handmaid’s Tale, feita por uma de nossas usuárias do Clube Superela?

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