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A minha história com o Patrik é antiga, longa e eterna. Então, por onde começo esse ‘triângulo amoroso‘? Não sei se sou capaz de expressar em palavras tudo o que este menino e sua mãe significam para mim como psicóloga e ser humano, mas vou tentar.

triângulo amoroso

Sonia, a excepcional PÃE (mãe e pai) chegou ao meu consultório encaminhada pelo médico fisiatra do filho. Acontece que ele nasceu com ataxia cerebelar, uma condição clínica causada por danos à vias cerebelares que resultam na perda da coordenação motora e planejamento dos movimentos.

Por alguns motivos éticos não posso revelar as condições do nascimento do Patrik, mas posso garantir que somente este episódio já bastava para sua mãe ser uma merecedora ao Prêmio Nobel da Paz. Ela foi corajosa, determinada e sacrificou todos os seus desejos e liberdade para suprir todas as necessidades do filho, que não eram poucas.

Um triângulo amoroso que deu certo

Além de toda perplexidade que o caso exigia, ainda haviam outros desafios que fomos superando. Eles não moravam na cidade em que eu atendia, mas não faltavam sequer uma semana.

Sonia trocou de empregos e escolas até adaptar sua rotina com a do filho. A cadeira de rodas adequada só tinha em São Paulo, foi providenciada. Eu parei de atender no SUS, mas proporcionei todas as condições para ele ser atendido em meu consultório particular. Afinal, eu não ficaria tranquila encaminhando ele para outro profissional. Não podemos arriscar seres preciosos na mão do nosso Sistema Único de Saúde. Ele não tinha tempo para erros ou ineficiência. Era um momento crucial em que a doença iria evoluir cada vez mais rápido e ele precisava estar preparado dentro das condições possíveis. Eu planejei fazer o possível baseada nas técnicas e teorias que havia aprendido na formação de psicologia clínica, mas ainda desconhecia a extraordinária força e resiliência deste menino tão pequeno aos olhos.

triângulo amoroso

No início da terapia, as demandas do Patrik eram comuns àquelas de outras crianças, como problemas de relacionamento e dificuldades em aceitar suas características. Porém, eu sabia que após reestruturar sua autoestima, teria a missão de ajudar um menino de 6 anos a compreender seu diagnóstico e futuro. Dentro de sua inocência, ele estava preocupado porque alguns colegas da escola pareciam não gostar dele. Preferia a companhia das meninas e se sentia diferente dos outros meninos de sua idade, sem ter a consciência de que as reais e significativas diferenças ainda iriam aparecer.

Sabe aquela alegria inexplicável de ver seu filho se desenvolver a cada dia mais um pouco?

Um novo passo, um novo salto, uma nova palavra e tantas outras novidades que vão passando e, quando você vê, ele já está independente?

No caso do Patrik foi ao contrário.

Conheci um menino de 6 anos que corria, falava, cantava e brincava com a maior destreza e disposição. Entretanto, com o passar do tempo, as conquistas iam se perdendo…

Patrik era tão sensível que em certo ano pediu que eu fosse na sua festa de aniversário (já com o discurso de que sabia que psicólogos não vão nas festas de seus pacientes), que eu poderia ficar pouco tempo, mas que para ele tinham que estar todas as pessoas importantes da sua vida naquele dia e me ver seria o seu maior presente de 8 anos. Os ensinamentos sobre psicoterapia me recomendavam a não ir para evitar muito envolvimento, então tive que escolher entre as recomendações dos livros ou dos meus sentimentos.

Obviamente, eu estava lá e quando meus olhos encontraram os olhinhos brilhantes do Patrik, que ao me ver correu além de suas forças para me abraçar, eu não tive dúvidas de que fiz a opção certa. Eu ter ido ao seu aniversário não influenciou em nada a relação que já tínhamos e muito menos nas técnicas da terapia. Houveram apenas duas consequências:

eu ter ganhado uma lembrança das mais lindas que já vivi, e ter feito o aniversário dele mais feliz.

triângulo amoroso

Os anos foram passando, Patrik crescendo e a cada sessão eu observava uma nova debilidade. Ele, que corria, já estava caminhando com dificuldade. Sua fala começava a ficar mais atrapalhada, suas mãos já não podiam mais brincar das mesmas brincadeiras que exigiam motricidade. Ele já não conseguia comer como antes, relatava novas dores de cabeça, dentre diversas paralisias que foram tomando o seu corpo. Aos 9 anos ele já era cadeirante. Felizmente, consegui me mudar para um consultório com toda estrutura e acessibilidade para atende-lo.

O mais surpreendente é que as deficiências só aumentaram no corpo físico. A força e amor pela própria vida fizeram esse menino um fenômeno a ser estudado devido à tamanha aceitação de sua condição.

Não conseguia mais pintar? Então ele escolhia as cores e eu pintava para ele. Eu colocava os bonecos nos espaços e posições delegados por ele para criarmos histórias. Eu trocava as roupas das bonecas conforme ele escolhia. Assim, cada brincadeira e hábito do seu dia-a-dia foram sendo adaptados por ele próprio que dizia ser feliz. Ele havia aceitado seu prognóstico com resignação e um sorriso. Esse sorriso foi o mais inocente e pacífico que já presenciei.

Então, Patrik começou a entrar na adolescência e sua condição física já estava bem limitada. Porém, os seus recursos psicológicos estavam cada vez mais resilientes. Ele estava adaptado às dificuldades, se sentia feliz consigo mesmo e amava viver.

Meu trabalho estava chegando ao fim.

O fabuloso Patrik não precisava mais de mim e deveria diminuir suas atividades para poupar sua debilidade.

O tempo passou e, por volta de uns 2 anos depois que Patrik havia ganhado a alta do tratamento, sua mãe me ligou para contar as notícias e um fato que me comoveu por inteiro. Patrik estava com 14 anos, já não tinha mais a fala legível e estava apresentando várias falhas e confusões de memória.

triângulo amoroso

Ela deu ao filho um computador em que poderia jogar e desenhar através da pupila ocular e, ao desenhar uma boneca, a mãe observou e testou a memória dele para saber quem era a personagem. Sim, foi nesta hora em que não contive minha emoção, depois de tanto tempo sem vê-lo e esperando que ele já tivesse me esquecido, fui homenageada em seu primeiro desenho.

Não sei se o Patrik lembra de como o ajudei, mas o importante era que eu não estava apenas na sua memória.

Na memória podem se perder momentos, detalhes, conversas e brincadeiras, mas a minha imagem estava em seu coração. Eu continuava sendo uma pessoa presente e importante na sua vida. Lembrei de uma vez, quando ele tinha 10 anos, em que me falou: “Paula, você só me vê uma vez por semana, mas você é presente em todos os meus dias, porque penso em você e no que me diria todos os dias da minha semana”.

Logo, conclui que meu querido menino continuava me mantendo presente na sua vida como antes. Desta mesma forma, estão presentes comigo todos os ensinamentos que ele me passou e que contribuíram para eu ser o que sou hoje, como terapeuta infantil e como pessoa.

Não sei desenhar, mas uma foto que ele me deu quando tinha 7 anos também continua no meu mural e, toda vez que olho para seu rosto, sinto uma imensa gratidão por ter sido escolhida para cumprir uma missão tão edificante.

Sonia sempre agradece por eu ter preparado o psicológico dele tão bem para enfrentar esta batalha, mas jamais poderia levar os créditos diante de uma criança tão extraordinária e de uma mãe igualmente excepcional.

Acredito que fomos um triângulo amoroso que deu certo.

Ou melhor, que ainda está dando certo, pois um continua presente na vida do outro pela memória do coração.

*os nomes são reais por solicitação e autorização de Sonia.

Imagem: visualhunt


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