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Não importa! Aparentemente, seja na ficção ou realidade, a condição de mulher nos sujeita a situações incômodas. Ela coloca em risco nossa saúde física, mental e moral. Assim, se faz importante diante do atual sistema corporativista aprendermos a reconhecer o assédio sexual dentro do ambiente de trabalho. Afinal, essa é uma das formas de assédio mais invisibilizadas. Muitas mulheres sentem medo, culpa e acabam preferindo o silêncio e pedem demissão, sem denunciar o caso de assédio.

O assédio sexual dentro de uma instituição pode acontecer de diferentes formas ou intensidades

Ele nos coloca em condições constrangedoras, causando inseguranças e desconfortos. Também ocasiona baixa autoestima e abalos em nosso bem-estar na vida profissional. E isso também é levado para a vida pessoal. As consequências para quem é assediada envolvem distúrbios como ansiedade, depressão, perda ou ganho de peso, dores de cabeça, estresse e problemas no sono.

É, como sempre, uma questão de gênero. Afinal, ainda existe a ideia de que a mulher deve ser subordinada no lar, no trabalho e no espaço público.

assédio sexual

Imagem: Aishwarya Sadasivan

Essa semana a atriz Bruna Marquezine revelou à revista Cosmopolitan que já sofreu assédio dentro da Rede Globo. A atriz não citou nomes, mas ponderou que as pessoas têm dificuldade em separar a ficção da realidade, se referindo ao assédio sexual que sofreu porque as pessoas a confundem com as personagens que interpreta.

Em parêntesis, cabe dizer que não somente uma, mas todas as emissoras projetam a imagem da mulher objetificada, gostosíssima e submissa. Nata dona de casa, mãe e esposa coniventes, quanto mais, dentro da heteronormartividade esperada.

Das novelas à Globeleza. Da edição do BBB ao do Master Chefe. A imagem de mulher que se é feita surge de uma mídia machista e misógina que tendencia atitudes violentas que aumentam as estatísticas de mulheres violentadas. Claro que temos exceções de personagens femininas fortes e empoderadas, mas o número e o acesso a essas é minimamente existente dentro da indústria midiática brasileira.

#MexeuComUmaMexeuComTodas

A recente revelação de Marquezine remete a outro que ocorreu no começo desse ano, envolvendo a figurinista Su Tonani e o ator José Mayer, também funcionários da emissora. No ocorrido várias atrizes em solidariedade à colega, incluindo a Bruna, participaram e incentivaram a campanha #MexeuComUmaMexeuComTodas, contra o assédio. Essa foi mais uma dentre várias campanhas realizadas nos últimos anos demonstrando o repúdio pelo machismo e a força da onda feminista.

No caso Mayer, o ocorrido é covarde e explicitamente um caso de assédio sexual no ambiente de trabalho. De acordo com a denúncia da figurinista, o assédio durou 8 meses e começou com elogios que logo passaram a incluir palavras impróprias e comentários com teor sexual. O ator a tocou nas partes íntimas sem o consentimento dela e logo o caso veio à tona com a exposição na internet, levando ao público o questionamento da conduta de homens e mulheres dentro de um organização diante de uma situação de assédio moral ou sexual.

E as consequências?

Num primeiro momento, o ator negou as acusações, insinuando que a figurinista teria confundido suas ações com as do personagem que interpretava na época. Como se todo funcionário teria tal atitude suicida de criar uma calúnia e se expor, arriscando a carreira por vir, não? Criando a impressão de que somos as feminazis, loucas, neuróticas e impulsivas.

Contudo, logo depois, José Mayer se retratou e enviou à imprensa uma carta se desculpando e justificando seu comportamento por causa do conflito de crenças de gerações diferentes e mais um monte de blá blá blá poético querendo reverter e diminuir a gravidade do problema para o lado dele – mesma reação do tal do Biel e tão pertinente aos homens: a de voltar arrependido alegando que não sabia que o que estava fazendo era ofensivo, quando para eles não passava de brincadeira, elogio ou romantismo. (Ai meu ovário!)

O caso se encerrou com a suspensão do ator em quaisquer produções dos estúdios por tempo indeterminado, sendo uma decisão coerente e legal, mas ainda vista por alguns como uma atitude demagógica da emissora para evitar prejuízo financeiro ou perder credibilidade.

De qualquer forma..

assédio sexual

Desse caso levantamos vários fatores que resumem o que se caracteriza um assédio, como devemos reagir a ele, e o que devemos exigir da instituição onde trabalhamos para garantir nossos direitos.

Fazendo uma análise de caso paralelo ao conceito: o assédio se caracterizou pela exposição da funcionária à situações humilhantes diretas ou públicas, (uma vez que aconteceu tanto enquanto em particular como diante de outros colegas) repetitivas e prolongadas (lembrando que o caso Mayer durou 8 meses até atingir o extremo e se tornar público para se encerrar). E tudo isso dentro de relações hierárquicas (sendo entre um ator consagrado e protegido pela imagem midiática e uma mera mortal, figurinista em começo de carreira) em que predominaram condutas negativas e antiéticas. Tudo isso desestabilizou a relação da vítima com o ambiente de trabalho e a organização, comprometendo seu desempenho e colocando seu emprego em risco. Isso sem falar no prejuízo causado à sua sanidade emocional, física e moral.

Em outros casos ainda, a vítima é isolada do grupo sem explicações. Assim, ela passa a ser hostilizada, ridicularizada, inferiorizada e desacreditada. E não podemos esquecer, ainda, da culpabilização da vítima. Ela faz com que se questione se os comportamentos dela provocaram a devida reação do seu colega de trabalho. Em todo e qualquer caso há a insistência, a não reciprocidade e, o pior, a omissão de testemunhas e o silêncio da vítima.

De acordo com os dados da Organização Internacional do Trabalho, 52% das mulheres já sofreram assédio no trabalho

E segundo o Ministério do Trabalho, as principais vítimas dessas agressões são mulheres negras. Os dados inferem a relação entre o controle do corpo feminino, o que tão breve concretiza a violência e divisão sexual do trabalho dentro das corporações, correlacionado ao conceito de poder e soberania masculina na sociedade.

A naturalização da disponibilidade do corpo feminino, expressão da cultura do estupro, faz com que os homens não respeitem a ausência de reciprocidade em uma tentativa de aproximação sexual. Dentro do ambiente de trabalho, o assédio pode ser falado, insinuado, escrito ou gestual. Ele se forma com um constrangimento ou alguma forma de chantagem profissional por parte de alguém hierarquicamente superior, mais comumente homens.

É importante exaltar que existem previsões legais de proteção à mulher que sofre assédio sexual no ambiente de trabalho.

O comportamento é considerado falta grave e pode resultar em demissão por justa causa e até mesmo prisão do assediador. Da mesma forma que, caso a mulher em situação de violência for dispensada por ter recusado qualquer investida pode ser indenizada e reintegrada no cargo, se for de sua vontade, sendo garantido ainda indenizações e apoio psicológico.

Por isso, meninas, é de extrema importância que, ao sofrer um assédio sexual, vocês contem o ocorrido a colegas de trabalho, conforme seja mais conveniente. Além disso, agrupe o máximo de elementos de provas, como, por exemplo, bilhetes, mensagens, registros de ligações, “presentinhos” e testemunhas.

E por último, e tão importante quanto, procure uma Delegacia da Mulher para registrar a ocorrência. Afinal, é primordial ter a coragem de denunciar para quebrar a constante de impunidade e assim, corrigir as políticas corporativistas e a conduta em sociedade.

Não se cale!

assédio sexual

Caso você seja testemunha de uma cena de humilhação, assédio moral ou sexual, não se cale e denuncie esse comportamento. Lembre-se de que o medo e a submissão reforçam o poder do agressor e dá continuidade aos casos.

O basta aos assédios depende de informação, organização e mobilização dos trabalhadores. Então, exija da empresa onde trabalha uma politica de conduta que assegure os direitos morais e físicos dos colaboradores. Que haja palestras construtivas sobre o tema e espaço para debate. E, principalmente, que haja consequências para os agressores, e vigilância constante para construir um ambiente de trabalho digno e cooperativo.

Lembre-se: assédio sexual no trabalho é desumano, antiético e ilegal.


E o que vocês responderiam a essa pergunta aqui abaixo, feita por uma de nossas usuárias do Clube Superela?


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