O que você procura?

Se você acompanha a internet, deve ter percebido que Washington Olivetto entrou para os trending topics do Twitter. Em uma entrevista para a BBC, ele fez uma série de comentários polêmicos (por exemplo, que o ‘empoderamento feminino’ é um clichê), mas o que deixou os internautas bem escandalizados (com razão) foram as comparações que ele fez entre uma mulher e um carro Porsche – dizendo que o Porsche é melhor.

A gente bem sabe que problematizar absolutamente cada vírgula é chato e cansativo e ninguém tem tempo para analisar cada ínfimo detalhe, com tanta coisa para fazer e resolver. Algumas questões, porém, precisam ser olhadas por um microscópio porque nos ajudam a desvendar toda uma mentalidade machista e conformista que precisamos mudar – é, justamente, o objetivo da luta feminista.

Contextualizando, ao comentar sobre política e como personalidades da comunicação estavam fazendo a transição para esse meio, ele falou sobre uma palestra que deu para o sociólogo italiano Domenico de Masi sobre a desconstrução da comunicação. Na palestra, ele criou uma história para mostrar como tudo pode estar na comunicação, desde que feito de forma inteligente.

A história, no caso, era uma campanha do carro Porsche voltado para o público masculino, e comparando um Porsche à uma mulher: você pode ter vários carros, os seus modelos mais antigos não vão ficar chateados com você como uma mulher ficaria se soubesse que você tem outras. Ao vender um carro, o homem ganha dinheiro, mas perde muita grana ao se separar de uma mulher.

É absurdo só escrever essas comparações. O objetivo de Washington Olivetto com essa trama toda era mostrar que a publicidade, voltada para um público específico, nos meios certos para atingir esse público, faz sentido. Ele até diz que a ideia pode ser reversa: “A história é essa e claro que as pessoas riem. Só que uma história dessa você teria que complementar no público feminino. Você faz o quê? Você contou isso nos cinemas, que seria o público do Porsche, e nas revistas femininas você faz o anúncio do Porsche conversível, com uma linda mulher de cabelos esvoaçantes e o título ‘um homem realmente interessante te dá de presente um secador de cabelos como esse'”.

A justificada para uma história dessas é que o público do carro é muito segmentado e você precisa combinar a publicidade ao público. Porém, não deixa de ser machista e misógino. E, quando a entrevistadora (uma mulher) explicou que muitas mulheres se ofenderiam com a propaganda independentemente disso, ele respondeu: “Mas aí você tem que cancelar a vida. Se partir desses princípios, você cria um mundo totalmente antisséptico. […]A única maneira de você criar gente bacana, do bem, é as pessoas terem acesso a diversos tipos de informação e depois elegerem a que preferem. É a mesma (lógica) de quando surgiu o controle remoto. Falavam para mim: ‘como vocês vão fazer agora que as pessoas podem mudar de canal?’. Eu respondia ‘gente, antes de ter um controle remoto na mão, as pessoas têm na cabeça. Se não querem (ver), desligam a cabeça, não prestam atenção’”.

Existe uma lição no discurso de Washington Olivetto

Vamos pausar um pouquinho a polêmica e deixar uma coisa clara: é verdade o que o publicitário diz que muitas empresas e marcas começaram a usar o empoderamento feminino apenas como técnica de venda e que ele está ‘na moda’. É aí que entra o nosso filtro, de saber diferenciar o que é um posicionamento verdadeiro de uma estratégia de marketing.

Mais do que bradar aos quatro ventos que é feminista e empoderadora (à la Taylor Swift), uma marca precisa mostrar que funciona dessa maneira e está fazendo a sua parte para mudar uma mentalidade que é de toda a sociedade. Existem muitos cases de grandes marcas que começaram a tirar essa discussão do teórico e colocar na prática a representatividade e o feminismo na sua filosofia enquanto empresa.

Dito isso, existe uma segunda questão se encaixa muito bem no pensamento de Olivetto: ele fica em cima do muro. Ao invés de apoiar uma mudança efetiva e trabalhar para criar publicidades que não objetifiquem a mulher (ou o homem) qualquer que seja o produto ou o público alvo, ele ainda encontra uma forma de se identificar com as pessoas que pensam assim e, ao mesmo tempo, perpetua essa forma de pensar.

De um lado, ele defende o empoderamento para aqueles que querem ser empoderados. Do outro, segue com um pensamento retrógrado para se afiliar a quem ainda pensa dessa maneira. Do ponto de vista publicitário, é genial. Qualquer que seja a sua crença pessoal, você vai acertar o seu público alvo e deixar o cliente feliz.

Do ponto de vista humano, é uma visão altamente oportunista de um movimento que é tão importante para a história do mundo. A publicidade é um dos principais veículos da visão machista do mundo, que defende padrões de beleza e perpetuou, por décadas e décadas, essa diferença de tratamento entre homens e mulheres.

É, no mínimo, uma questão de tato e bom senso começar a oferecer ideias diferentes e que estejam de acordo com essa nova visão, para os clientes pensarem duas vezes antes de colocarem um anúncio machista no ar e serem massacrados nas redes sociais. Tentar jogar pelos dois times nunca vai dar certo e, uma hora ou outra, a bomba explode.

Washington Olivetto pode ter tido sacadas genais em relação à publicidade, há muito tempo ouvindo a demanda das ruas e adaptando a publicidade de acordo, como foi o caso da campanha Valisere Primeiro Sutiã.

Precisamos dar o braço a torcer e dizer também que o publicitário está certo quando diz que ‘empoderamento feminino se pratica, não se prega’. É verdade. Esse empoderamento precisa ser praticado e ensinado à todos, não só às mulheres. Mas esse ensinamento não pode estacionar em algumas campanhas e permitir que comparações absurdas entre Porsches e mulheres continuem do outro lado.

Querendo ou não, é 8 ou 80. Ou é empoderador, ou não é. E não use a desculpa de nicho, de target ou de que qualquer campanha machista pode ser revertida para o público feminino. Não cola mais.
Imagem: Reprodução


@ load more
E-mails especiais
Faça parte da comunidade de mulheres mais empoderadas do mundo!
Escolha os temas que mais gosta
Quero!
Obrigada, agora falta pouco...
Por favor, fique de olho em sua caixa de entrada (às vezes, pode acontecer do email estar no SPAM ou na aba Promoção caso use GMail). Quando receber nosso email é só clicar no link de confirmação ;)
Enviaremos nos próximos minutos um email para você confirmar o recebimento de nossos conteúdos.
Os melhores conteúdos do Superela.
Um único email por semana.
Queremos te enviar OS MELHORES
conteúdos do Superela.
Você vai adorar! ❤
Vamos ser amigas? :)
Queremos te enviar OS MELHORES
conteúdos do Superela.
Você vai adorar! ❤