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Viver dói.

Quando eu era criança, não imaginava que doeria tanto. Tinha toda a certeza do mundo de que o maior dos problemas na vida era o Merthiolate – aquele que ainda ardia – sobre a ferida aberta no joelho. Acreditava piamente que não havia impasse que não pudesse ser resolvido com um “mãe, ele tá me irritando!”. Achava que o maior fardo que eu teria que – e poderia – aguentar seria estudar para a prova final de matemática, quando a professora, num misto de Marquês de Sade com Adolf Hitler, dizia que ia cair a matéria de todo o ano letivo. E vislumbrava com certa ansiedade um futuro em que eu faria apenas o que gostasse – afinal, se a gente escolhe a nossa área de formação, não tem erro: todo mundo vai ser feliz trabalhando com o que lhe dá prazer. Certo?

Doce inocência, meu bem.

Porque no meio de todo esse sonho de felicidade eterna e mares de rosas, existe um negócio chamado dinheiro. Que pode ser representado por um pedaço de ouro, um recorte de papel, uma tarjeta de plástico, uma rodela de níquel. Mas que tem poder. De mandar e desmandar na gente, na nossa relação com os outros, na natureza, no mundo. De ocasionar guerras – mundiais e internas. De corromper. E de comprar qualquer coisa – menos a felicidade genuína.

Ninguém nunca me perguntou se eu gostaria de ganhar dinheiro nessa vida. Simplesmente me obrigaram – o sujeito indeterminado aqui não é falta de coragem para apontar o dedo na cara do responsável, mas é que é realmente impossível determinar de onde vem esse imperativo de prosperidade monetária. E eu, como boa cordeirinha, fiz. Estudei muito – na verdade, muito mais porque gosto de estudar do que por ambição de ter uma ~vida de sucesso~. Entrei na faculdade. Consegui um ótimo estágio, que pagava muito acima da média de mercado – e isso foi maravilhoso na conjuntura da época, em que a minha família estava passando por uma crise financeira desesperadora. Nesse meio tempo, abdiquei de todos os meus hobbies e talentos genuínos para usar meu tempo apenas com o que trouxesse retorno financeiro. Tive ótimos empregos – nas consideradas empresas dos sonhos para uma boa parte da minha geração. E larguei todos eles, sempre deixando saudades na minha equipe – ô, modéstia – e as portas abertas para um possível retorno.

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Fui vorazmente julgada. Onde já se viu largar um emprego que paga o seu salário, o seu plano de saúde, o seu plano de previdência privada, a sua academia, parte da sua pós-graduação e que ainda te dá status? Você é louca, só pode. Come merda, tem cocô no cérebro. Posso até ter, nunca fiz exame laboratorial para diagnosticar a composição da minha massa encefálica. Mas uma coisa que eu tenho ainda mais é inquietude. Eu simplesmente não consigo aceitar o conceito de sucesso que é socialmente propagado.

Jônatas é um homem de sucesso. Começa a trabalhar às oito da manhã, mas sai de casa às seis e meia que é pra não se atrasar por causa do trânsito. Independentemente de quantos graus faz lá fora, Jônatas veste calça, camisa social, terno e gravata. Sua sala tem uma vista privilegiada da marginal, embora viva tomada por aquele cheirinho característico de esgoto do rio Pinheiros. Almoça em restaurantes chiquérrimos, mas sempre com parceiros de negócios, pra discutir joint ventures e outros tipos de acordo comerciais, e nunca com amigos. Sai do escritório às nove e meia da noite, em média. Entra no carro, liga o ar condicionado e sintoniza uma rádio de notícias que é pra nunca estar por fora do que acontece no cenário econômico mundial. Chega em casa por volta das dez da noite. A filha, que ele nem viu crescer e que está prestes a completar quatro anos de idade, já está dormindo. Dá um beijo nela, tomando o maior cuidado para não acordá-la. Tira os sapatos e o terno, afrouxa a gravata e senta-se à mesa para jantar com a companheira. Enquanto ela lhe conta sobre o primeiro dia de aula da filha, ele checa os e-mails no celular. Ela para de falar – afinal, ele não está ouvindo. Entre uma garfada e outra, ele continua com os dedinhos frenéticos, respondendo a todas as mensagens que vieram com uma não tão agradável label de “urgente” – ou “asap”, no corporativês moderno. Os dois vão à sala, assistem a um pouquinho de televisão. Ela vai para a cama, e ele continua na frente da TV até se desligar de todos os problemas e ter sono. Dorme no sofá e acorda para mais um dia carregado – ou “busy”, como ele prefere falar.

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Certamente, no final da vida, Jônatas terá muito mais dinheiro do que eu. Um jatinho particular, um closet com setenta ternos Giorgio Armani, uma casa em Punta del Este – quem sabe? Quarenta anos de trabalho, quinhentas cartelas de ansiolítico, sete internações por gastrite nervosa, uma psoríase e dois cateterismos para, enfim, curtir o merecido descanso e tentar correr atrás de todo o prejuízo – seja ele físico, emocional ou social.

E é aí que eu pergunto: Jônatas realmente é uma pessoa bem-sucedida ou apenas uma pessoa que cresceu na carreira? Desde quando ser humano se resumiu a ser profissional? Quando ter status virou mais importante do que ter saúde? Em que momento o CV passou a falar mais a nosso respeito do que uma comemoração ou uma lamúria cotidiana? Sinceramente, não sei. E enquanto não encontro as respostas, estou na tentativa de fazer diferente. Viver sem estabilidade, porém com horários mais flexíveis. Amargar a solidão de ser freelancer e em contrapartida poder trabalhar de lugares diferentes. Começar um curso e realmente me empenhar em aprender e praticar aquilo que estou estudando, em vez de gastar dinheiro para me autossabotar. Não ter a certeza da renda pra dali a dois meses, mas não ter o dissabor de precisar me aposentar para enfim fazer o que me faz minimamente feliz.

Em momento algum a minha pretensão foi vender miçanga na praia e viver das coisas que a natureza me dá – e se fosse, qual o problema? –, mas apenas buscar um equilíbrio mais saudável e justo entre trabalho e vida. E esse é um processo doloroso, contínuo e, acima de tudo, de autoconhecimento. De cutucar todas as feridas. De pensar exaustivamente, até se sentir mal. E de entender quem somos e o que estamos fazendo nesse mundo se sequer pedimos para estar aqui.

Quebrar a lógica intuitiva de progredir na carreira e ganhar cada vez mais dinheiro não é um processo fácil. Muito menos cômodo. E nem de longe uma decisão da qual eu tenho certeza – por isso é que é essencial deixar as portas abertas por onde a gente passa, amigos. Mas, pelo menos, é o que mais cabe em mim no momento. Se não der certo, eu mudo. Afinal, nosso destino pode até já estar escrito. Mas nada que uma boa borracha e um lápis bem apontado não possam resolver.

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Imagem: pinterest.com/superelaoficial

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