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Esse não é um texto comum, em formato de lista, repleto dos chamados “bullet points” ou títulos incrivelmente chamativos. Esse é um texto sobre mim e sobre várias outras pessoas. Hoje, eu, Fernanda, escrevo para contar essa dor que é minha e de outras centenas de milhares de pessoas… Passaram-se 13 anos, o que se conhecia por meu pai não está mais entre nós – dou graças por isso! – mas essa dor, essa pontada no fundo da alma, ainda está aqui.

Quando eu era mais nova, lá pelos meus 12/13 anos, costumava me questionar muito sobre o quando tudo isso iria passar e eu conseguiria dar o tão recomendado “perdão”. Diziam-me como forma de consolo que quem perdoa se liberta, é feliz e esquece. Eu acreditei por muito tempo que sim.

Aconteceu quando eu tinha 8 anos de idade. Foram dois longos anos sendo tocada quase todos os dias contra a minha vontade pelo meu próprio pai. Por muitos anos eu me culpei, como se, de alguma forma, eu pudesse ter escolhido. Criança lá tem noção de consenso? Todos os dias eu me lembro, refaço mentalmente a rotina de dor e agonia que eu vivia. Minha mãe escondia minhas calcinhas pra que ele não as pegasse para fazer sabe-se lá o quê… Minha mãe, coitada, provavelmente sofria mais do que eu, tanto que nem percebia que por trás das calcinhas estava algo muito pior.

Minha adolescência se sucedeu inteira como um fardo. Vivi todos os dias remoendo em mim mesma essas dores e tentando buscar a resposta para isso. Por quê? Por que eu? Demorou algum tempo até que eu conseguisse finalizar esse texto, porque faz alguns meses que estou procurando em mim mesma essas lembranças de dor e tentando entender como caminhei, mesmo que a passos lentos, até aqui.

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O que eu quero te dizer com tudo isso é que toda essa coisa de “perdoe e esqueça” que nos falam, é mentira. Provavelmente, assim como eu, você nunca vai perdoar ou esquecer. Mas existem meios de seguir em frente sem permitir que isso determine quem você é. Superação é se tornar uma pessoa independente do que te aconteceu e não o produto de toda a dor. Com o tempo essa dor não melhora. A maioria das pessoas vai te recomendar tratamentos mirabolantes, terapias de regressão e etc. Terapias ajudam, mas depende de você lidar com isso ou morrer por isso. E se a gente permite, a gente morre. Eu morri um pouco enquanto permiti que a minha dor determinasse quem eu era e até onde eu poderia ir.

Aos 13 anos tentei suicídio. O corpo físico quase se foi, o emocional já não existia. Eu era uma criança, mas tinha me esquecido disso. No decorrer dos anos sofri outras violências, tão injustificáveis quanto. Hoje, vejo que nenhuma delas foi por minha culpa. Uma pena ter levado tanto tempo para perceber isso…

Quando engravidei do meu primeiro filho, minha visão de mundo mudou completamente. Quem é mãe sabe como é… Decidi que precisava sobreviver pelo meu filho e aprendi que também precisava sobreviver por mim. Porque eu mereço. Eu mereço sobreviver.

E, como diria Bukowski:
“ninguém pode salvá-lo,
a não ser você mesmo.
e você merece ser salvo.
é guerra que não se ganha facilmente
mas, se é que haja vitória merecida,
então esta é.
pense sobre isso.
pense sobre salvar sua alma.”

Terapias e medicamentos as vezes ajudam, mas eles não são a salvação. Você é. Pense sobre sobreviver e lute por você mesma. Eu lutei, sobrevivi, salvei a minha alma.

Hoje, eu conto a minha dor para ajudar outras pessoas a lidarem com as suas. Sou militante negra e feminista, além de professora de crianças em situação vulnerável. A melhor forma de lidar com a dor é contando ela. Salve a sua alma e se precisar de alguém saiba que, daqui, do lado de cá, estou torcendo para que você não desista e enviando forças.

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RESPONDA: Alguém ja viveu isso?Me ajude
RESPONDA: Não confio na minha mãe, as vezes só consigo sentir nojo dela.É tão errado assim?

Imagem: pinterest.com/superelaoficial

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