Quais desses temas você mais curte? Vamos fazer uma seleção especial pra você!










O que você procura?

Olha, nunca tive muita paciência pra promover a minha imagem. Imagino que muito em decorrência de eu ter sido uma adolescente – pra fazer uso de um eufemismo – pouco aprazível aos olhos: aparelho, óculos, cabelo mal cortado, monocelha e toda aquela parafernalha que compõe o estereótipo da menina feia. Sair bem em uma foto, dos meus onze aos dezessete, era missão mais impossível do que a de Tom Cruise no cinema. Por isso, eu acabei perdendo o hábito de sair em fotos e de tirar fotos de mim mesma – na época, era assim que a gente se referia às famigeradas selfies. A não ser para mostrar para a minha irmã o terçol gigantesco que cresceu no meu olho esquerdo e me deformou a cara por alguns dias ou para compartilhar com ela as peças de roupa que eu provei em algumas lojas na tentativa de encontrar um presente de aniversário pra nossa mãe, eu nunca havia tirado uma selfie. Nem selfie de turista – se você vai a Paris visitar a torre Eiffel, eu quero ver foto da torre Eiffel e não da sua cara com a torre Eiffel absolutamente em segundo plano. Sendo mais sucinta, eu nunca havia tirado uma selfie por motivos meramente estéticos.

E todo mundo dizendo que eu deveria aproveitar melhor a minha imagem. Você é bonita. Você é descolada. Você tem estilão. Como a voz do povo é a voz de Deus e eu sou uma boa democrata, me rendi aos apelos populares – e às armadilhas do ego, confesso – para, pela primeira vez na vida, fazer uma selfie por motivos meramente estéticos. Como egocentrismo pouco é bobagem, tirei a foto na frente do espelho. Ou seja, uma selfie no espelho mostrando o look do dia. Saí bem, bonita, sóbria, esbelta. O look do dia era descolado: uma camiseta de caveira da Frida Khalo e uma saia listrada. Ia pegar bem. Resolvi postar. Seleciono o enquadramento. No filter. Escrevo uma legenda engraçadinha, escolho umas hashtags. #frida #fridakhalo #caveira #skull – ainda não cheguei ao nível de escolher coisas como #beautifulgirl. Postar em alguma outra rede social? Não, obrigada. Não quero floodar a timeline dos meus amigos no Facebook ou no Twitter com fotinho no espelho. De chateação já basta o meu posicionamento político de PeTralha-comunista-esquerdopata-bolivariana-gayzista-abortista-feminazi. Pronto. Compartilhar.

Eu e Frida Khalo: inception de divas (e muita modéstia envolvida, claro) #fridakhalo #frida #caveira #skull

Uma foto publicada por Bruna Molon Grotti (@brunagrotti) em


Não deu um minuto e as notificações começaram a bombar. Muitos corações. Tantos corações que daria pra zerar a fila de transplantes no Brasil. Comentários. “Linda”, “diva”, “↑TOP”. E se o Instagram tivesse recurso de compartilhamento, ia ter compartilhamento também. Em questão de pouquíssimas horas a minha primeira selfie na frente do espelho atingiu mais de cem curtidas no Instagram. Mais. De. Cem. Curtidas. No meu Facebook isso é algo absolutamente normal, mas no Instagram foi inédito e surpreendente. Porque não é uma fotofrase com um trecho de um texto meu. Nem uma citação de Bauman sobre a volatilidade das relações no mundo contemporâneo. Nem uma foto minha tomando bons drinks no show do Molejão. Tampouco um retrato de algum lugar bonito que eu conheci. Nem a captura de um momento com companhias especiais. É só uma selfie, gente. Um egoshot. Uma foto que não diz absolutamente nada sobre mim, sobre quem eu amo, sobre os lugares por onde ando, sobre o que eu penso, sobre o que eu faço, sobre o que eu gosto de fazer – que, certamente, não é tirar fotos no espelho. Talvez um atestado de que eu tenha amor-próprio. Mas que, convenhamos, vai me servir pra quê?

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No máximo, pra alimentar um ciclo vicioso de busca por aprovação alheia. Dizem que eu sou bonita e que eu devo promover melhor a minha própria imagem. Eu tiro um autorretrato no espelho e posto na rede. Os likes comprovam que minha selfie está aprovada e que eu realmente sou bonita, o que me encoraja a tirar outra selfie – dessa vez no elevador – e postá-la à espera de mais likes. Vindos os likes, estou chancelada pra tirar outra foto – por que não na academia? – e ganhar ainda mais curtidas. E seguidores. E incentivo para mais uma, duas, três, quatro, vinte fotos. E afeto público em forma de comentários – mas nunca de abraços. E amor-próprio.

O que não seria nada ruim se esse amor próprio não fosse construído de fora pra dentro, embasado mais no que os outros acham da gente do que no que a gente realmente é. Depender do julgamento alheio para se amar é, de certa forma, viver em função de recompensas. É agir como um cachorrinho que abana o rabo à espera de carinho. É agradar ao outro para ganhar um afago de si próprio. É não decepcionar o outro para então ter direito de se sentir bem consigo mesmo.

Portanto, se a sua selfie é um mecanismo de busca por aprovação e se cada like ou coraçãozinho que você recebe é um alento para o seu ego, tome cuidado. O problema não é fazer a selfie. Nem postar a selfie. Nem sorrir a cada like na selfie. Nem descer no andar errado porque você se distraiu tirando uma selfie no espelho do elevador. O problema real é deixar a autoestima e o amor-próprio à mercê de algo tão frágil quanto um like. Numa selfie. Que, a esse momento, certamente já sumiu da timeline de todo mundo.

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