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Agosto terminou, para a felicidade [idiota] de muitos. Enfim, chegou ao fim o mês em que, por pura crendice popular ou por mera insensatez, muita gente acordava maldizendo a vida, o planeta Terra e a raça humana – como se Hitler e Mahatma Gandhi fossem farinha do mesmo saco. Desejando que o sol logo se escondesse, num prenúncio de que o martírio de 31 dias duraria um dia a menos. Dormindo o máximo que pudesse, que era pra diminuir a chance daquele mês maldito apunhalar pelas costas.

Em 1º de agosto, a televisão pifou. Todo mundo sabe que foi por causa de uma infiltração na parede onde ela ficava apoiada. Todo mundo viu a infiltração, que começou em junho. Mas todo mundo bota a culpa no mês de agosto. Em 10 de agosto, o pai sofrera um ataque cardíaco. Todo mundo sabe que ele desmarcou o cateterismo que deveria ter feito em maio. Todo mundo viu ele se entupindo de bacon, batata-frita e pão com manteiga no dia anterior. Mas todo mundo bota a culpa em agosto. Em 20 de agosto, o casamento foi pro saco. Todo mundo sabe que eles já dormiam em camas separadas havia uns oito meses. Todo mundo viu que, na última festa, ele se engraçou com uma loirinha e ela pirou num negão. Mas todo mundo bota a culpa em agosto. Em 30 de agosto, ele perdeu o emprego. Todo mundo sabe que a empresa estava cortando gastos. Todo mundo viu o quanto ele fazia corpo mole depois do almoço. Mas, como não poderia deixar de ser, todo mundo bota a culpa em agosto.

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Afinal, que atire a primeira pedra quem não precisa de um bode expiatório. A gente não estuda por pura e simples preguiça, mas tem que encontrar algum culpado pelo nosso desempenho vergonhoso na faculdade – se a nota ruim vier em agosto, é agosto; se não vier, é o professor que não vai com a nossa cara. A gente come porcaria no café da manhã, no almoço e na janta, mas tem que encontrar algum culpado pelo nosso colesterol acima dos níveis aceitáveis – se o resultado do exame sair em agosto, é agosto; se não sair, é a maldita da genética. A gente corre feito doido pelas vias da cidade todo final de semana, mas tem que encontrar algum culpado pela multa – se a multa vier em agosto, é agosto; se vier em setembro, é o Haddad.

Porque assumir os nossos próprios erros dói. Admitir que somos falíveis é uma virtude que enxergamos como falha. É assinar atestado de incompetência ao gerir a própria vida, a própria carreira, os próprios estudos, o próprio relacionamento. É ter que reconhecer que o vizinho, talvez, seja melhor. E isso, pra gente, é insuportável. A gente sabe que ganhou, junto com o livre-arbítrio, a obrigação de arcar com as próprias consequências. Mas, muitas vezes, arcar com as próprias consequências significa perder, e a gente nunca quer perder nada – nem o jogo de futebol, nem a disputa velada com o melhor amigo pra saber quem é mais incrível, nem a carteira de motorista, nem a alcunha de bom moço.

E aí, em vez de se assumir, a gente prefere botar a culpa em 31 dias do ano que não tiveram a culpa de sequer terem nascido. Afinal, agosto é recheado de desgraça – e cá está a história, que não nos deixa mentir. Foi em agosto de 1910 que o Japão invadiu a Coreia. Foi em agosto de 1945 que os Estados Unidos jogaram as bombas atômicas em Hiroshima e Nagazaki. Foi em agosto de 1954 que Getúlio Vargas saiu da vida para entrar na história. Foi em agosto de 1961 que os alemães começaram a construção do Muro de Berlim. Foi em agosto de 1997 que Lady Di morreu num trágico acidente automobilístico.

E como se desgraças não acontecessem diariamente na periferia da nossa cidade, nos hospitais do nosso bairro e nas escolas do nosso estado, a gente segue culpando agosto por tudo de ruim que acontece no nosso ano. Mesmo que a culpa seja, jurada e sacramentada, nossa.

É, meu bem. Por mais que eu fale que não há nada de errado com o mês de agosto, você nunca vai acreditar. Mas a verdade é que a sua superstição é completamente sem sentido: o problema não está em agosto. Está em você. E digo mais: pra você, que tem síndrome de Homer Simpson e vive procurando alguém em colocar a própria culpa, agosto não é uma desgraça. É uma baita duma salvação.

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Imagem: pinterest.com/superelaoficial

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