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Lá em casa a gente cresceu sabendo que passar uma vassourinha no chão ou um paninho nos móveis, esfregar umas calcinhas, trocar a roupa de cama e lavar louça não são tarefas indignas. Tampouco fazem o dedo cair. Eu faço pelo menos duas dessas tarefas diariamente, até porque a patronagem nunca foi uma opção pra mim. Neta de um homem que trabalhou como pedreiro da adolescência aos 80 anos e de uma mulher que só não foi trabalhar em casa de família porque era a mais nova entre as filhas e foi predestinada pelo pai a cuidar e servir a própria família, na minha origem, estou relativamente mais próxima dos empregados do que dos patrões – embora, a começar pela cor da minha pele e a terminar pelo meu grau de instrução, eu seja indiscutivelmente muito privilegiada.

E talvez até por causa de todo esse privilégio, pude aproveitar uma noite de segunda-feira para ir ao cinema assistir ao aclamado “Que horas ela volta?”, escrito e dirigido pela brasileira Anna Mulayert. Privilégio esse que começa pelo simples fato de eu morar em São Paulo – em São Bernardo do Campo, minha cidade natal e que tem quase um milhão de habitantes, por exemplo, o filme está em exibição em apenas duas salas no impraticável horário das 14h –, passa pelo fato de eu ser cliente Itaú e por isso conseguir meia-entrada e termina no fato de eu dispor de R$16 no bolso pra pagar o ingresso com desconto. Pois bem. Ticket em mãos, entrei na sala em cima da hora, pra variar um pouco. Sentei ali já sabendo um pouco do que viria: a história de Val (Regina Casé), uma empregada doméstica “quase da família” que deixara a filha Jéssica no Pernambuco para vir trabalhar em São Paulo e conseguir sustentá-la, mesmo que à distância. Depois de dez anos sem sequer se verem, a menina vai para São Paulo para prestar vestibular, fica hospedada na casa dos patrões de Val – que, de certa forma, também é a casa de Val – e questiona as regras que eles impõem à doméstica.

Mas quem vê sinopse não vê coração. O grande trunfo de “Que horas ela volta?” está nas pequenas coisas – que, na realidade, não são nada pequenas. Está em escancarar os absurdos – que até nos pareceriam exagerados se não soubéssemos o quanto as classes alta e média-alta têm orgulho de cultivar os ranços do escravagismo. Está, acima de tudo, em esbofetear a cara da plateia ao mostrar-lhe, sob o escudo da sétima arte, o quão preconceituosa ela é.

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A gente ri porque a Regina Casé está esplendorosa no papel de Val. É culpa dela!, a gente se defende. Mas, na verdade, tirando a virtuosidade dos diálogos, nada ali é muito engraçado. E a gente ri amarelo. Porque aquilo reflete o comportamento de muitos de nós em situações cotidianas. É um riso carregado de constrangimento. Constrangimento ao notarmos que as raízes do Brasil colonial ainda estão incrustadas na nossa terra, no nosso comportamento e nas nossas relações sociais. Que a gente, como sociedade, ainda se acha no direito de fustigar pretos, pobres e nordestinos com uma ironia amorosa que nem o Marquês de Sade conseguiria captar muito bem. Que consideramos nossos filhos superiores aos filhos das milhares (ou seriam milhões?) de Vals que existem país afora, abandonados a muitos quilômetros de distância sob o pretexto verdadeiro, porém cruel, do “mamãe está buscando um futuro melhor pra você”. Que condicionamos Vals e seus filhos a jamais ultrapassarem a barreira da cozinha – afinal, barriga que esquenta no fogão refresca no tanque, e esse é o ideal de felicidade que a nossa estupidez julga suficiente para uma doméstica e sua prole.

Vejam bem, o ideal de felicidade que a nossa estupidez julga suficiente. Sempre nós. Sempre o nosso mundinho. Sempre o nosso umbigo. Pensar em nós: foi exatamente esse o nosso exercício durante séculos. E assim, determinamos o que parecia adequado a nós e precificamos todas essas coisas – seja no real ou no simbólico – de maneira que eles, os empregados e suas proles, não conseguissem acessá-las. Um apartheid velado, que sugere que eles devem frequentar os lugares onde a gente não faz questão de estar. Que eles devem fazer as coisas que a gente não faz questão – ou tem nojo – de fazer. Que eles devem vestir as roupas que a gente acha brega ou barata demais pra vestir. Pra dar um exemplo presente no filme, que eles devem comer o sorvete cheio de gordura hidrogenada que para nós soa como veneno.

Mas existem Jéssicas. Graças a mudanças recentes na composição da sociedade brasileira, que hoje está mais incluída e menos faminta, existem Jéssicas. Pelo bem da esperança, que carrega o mesmo verde da nossa bandeira, existem Jéssicas. E as Jéssicas batem o pé. As Jéssicas têm ambições maiores do que ficar hospedadas num quartinho mal arejado dos fundos de uma mansão. As Jéssicas entram nas nossas piscinas, comem os nossos sorvetes, palpitam sobre os quadros nas nossas paredes e querem estudar nas outrora nossas universidades. Está certo que essas Jéssicas podem ser mais rebeldes do que as filhas que as Vals esperaram ter. Que podem ser mais atrevidas do que as Vals as educaram a ser. Que podem ser mais difíceis de lidar do que as Vals gostariam que fossem. Mas, definitivamente, as Jéssicas são essenciais. Para as Vals porque representa uma latente possibilidade de mudança. E para nós… Bem, para nós, elas são os capatazes que nos dão, na vida real, todos os tapas na cara que a obra de ficção “Que horas ela volta?” nos endereça no conforto das nossas salas de cinema com ar condicionado, assentos reclináveis, cadeiras marcadas e pipocas a vinte reais.

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Imagem: pinterest.com/superelaoficial

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