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Eu liguei o Tinder pela primeira vez fora da cidade onde moro. Iria tirar um dia de folga para passear, depois de uma semana intensa de trabalho, mas estava sem companhia. A voz de dois amigos meus me vieram na cabeça: liga o Tinder!

Há tempos os dois tentavam me convencer que usar a internet para conhecer pessoas com intenções de sexo e romance seria uma boa ideia. Eu era daquelas que achava que apelar para esse tipo de ferramenta é atestado de fracasso e incompetência emocional. Como assim não sou capaz de conhecer uma pessoa na vida real?

Mas daí me lembrei que eu já fazia isso faz tempo, só que em outra área da minha vida: meu trabalho. Percebi que muitas das conexões mais significativas que tenho feito nos últimos anos, tanto de parceria de trabalho quanto de amizades, vieram pela internet. Tudo que faço depende em uma enorme percentagem de redes sociais.

Percebi minha incoerência, venci meu preconceito e liguei o app. Logo de cara tudo que meu preconceito me falava parecia se confirmar: me sentia numa entrevista de emprego, julgada pela minha aparência, vulnerável a predadores que só estão interessados em tirar minha calcinha, a mercê do julgamento de um bando de desconhecidos.

Ao mesmo tempo, percebi que meu ego vaidoso começou a se empolgar a cada match que eu recebia, a cada cara que vinha conversar comigo, e cada elogio que recebia sobre minha aparência, ou sobre minha personalidade.

E, junto com isso, percebi que esse mesmo ego também foi se transformando em um juiz carrasco de programa de talentos, criticando e esnobando as pessoas (muitas vezes sem elas nem saberem), com o constante pensamento de que tem muita gente errada e feia nesse mundo.

Bem, virei uma máquina de classificação instantânea: os bonitos e gostosos só tem visual e não tem substância, os bons de papo eram menos atraentes, muita conversa pouca ação, muita ação não tem conversa os “good on paper” e que não tem química, os que sei que são “errados” e que as partes baixas batem palminhas, e, finalmente, os que tudo encaixa e não estão disponíveis (seja pela geografia, pelo estado civil ou pela vontade do próprio cara).

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Eu ouvi o quanto eu sou bonita e interessante, e até diferente do que normalmente se vê em apps como esse (seja lá o que isso significa). Eu, a que foi a adolescente desengonçada, que nunca virou a cabeça dos caras nas ruas, que não fazia sucesso nas baladas, que tinha acne e aparelho. E nunca foi cool, nem a intelectual de posições firmes, nem extraordinária em nenhum sentido. Ela, essa adolescente que habita em mim, é quem ouve esses elogios.

Se eu deixasse ela tomar decisões por mim, eu teria me metido em muito mais roubadas do que eu me meti. Nem foram tantas assim, apesar de eu ter conversando com dezenas de caras e ter saído com vários deles e, enquanto eu escrevo este texto, estar há algumas semanas me relacionando exclusivamente com um deles.

Eu vi que tanto meu lado julgador quanto a minha adolescente ingênua queriam entrar no jogo o tempo inteiro, e havia momentos que eles eram até necessários. Mas, grande parte do tempo, eu convidava a mulher adulta madura para o jogo, e foi de imensa valia, porque aprendi as seguintes coisas depois de 100 matches no Tinder em algumas semanas:

1. O tipo de foto e o que nós descrevemos sobre nós faz total diferença

Eu tinha em mente uma coisa quando escolhi as fotos que escolhi: não importa se o match terminasse em sexo casual ou a possibilidade de um relacionamento, eu quero um cara que se interesse por mim por mais aspectos do que apenas meu visual. Claro que coloquei as fotos em que mais me acho bonita – usei umas duas que foram produzidas com mais cuidado – e escrevi os aspectos que mais gosto em mim, mas também usei vários ângulos e diferentes tipos de roupas. Tentei retratar com o máximo de naturalidade possível quem eu sou de verdade, e não uma versão de mim que pudesse agradar mais pessoas. Inclusive porque eu não tenho peitão nem bundão nem cabelão, se formos entrar em estereótipos. Mais do que ficar preocupada em como vou ser percebida pelos outros, parei para ver como eu me percebo e apresentar isso pros outros.

2. As regras sobre quem tem que abordar quem primeiro são nossas

Ficar presa ao paradigma de que a outra pessoa quem tem que puxar papo primeiro, seja porque ainda tem gente que pensa que é assim que tem que ser ou porque você não pode se mostrar tão interessada assim, não precisa ser mais o parâmetro. Além de vários caras terem adorado que fui eu quem puxei conversa no chat, ou pedi o número dos Whatsapp, ou chamei para sair, isso mostra logo de cara pra pessoa que eu sei exatamente o que quero e já ajuda a saber de primeira quem realmente não quer ficar só de conversinha mole. Mas isso é o que funciona pra mim, pro meio jeito de ser. Cada pessoa pode explorar maneiras e encontrar a que se sente mais confortável. Desde que seja uma escolha, e não uma imposição do que é bem ou mal visto pela sociedade.

3. Conversa por mensagem de texto e qualquer outra rede social é muito mais editável que uma conversa presencial

Tem gente que pode até me achar imprudente, mas no item 7 vou explicar mais como eu tomei as decisões de encontrar os homens com quem me encontrei. O caso aqui é que se achei a pessoa interessante o suficiente pelo chat, eu quero evoluir a conversa. Porque via mensagem de texto, temos muitas chances de pensar exatamente o que vamos escrever. Dessa forma, a possibilidade da gente criar toda uma imagem da pessoa e estar longe da realidade é muito grande. Então, antes mesmo de me sentir envolvida pela pessoa (porque acredite em mim, até conversa sobre casar e dar nomes pros cachorros, ou quais as fantasias sexuais vamos colocar em prática quando nos encontrarmos, pode rolar por mensagem), eu preferi encontrar com a pessoa e sentir por mim mesma se rolava essa conexão emocional e sexual. Porque acredito que podemos ter nada menos que isso. Se rola apenas tesão, taí uma oportunidade de um one night stand, ou até um P.A. pra fazer a manutenção. Se rola também emoção, taí uma possibilidade de um friends with benefits ou um namoro. Se não rola nada dessas coisas, seja porque a pessoa é mala, estranha, neutra, babaca, ou qualquer outra coisa que não agrada, podemos mandar trazer o próximo da fila e não perder muito tempo e energia com quem não vale a pena.

4. Não somos piranhas promíscuas se formos em muitos encontros e ficarmos com muitos caras

Infelizmente o slut shaming ainda rola com força. Mas cabe a nós quebrar essa forma retrógrada de alguém se meter onde não é chamado. Principalmente, temos que reprogramar os resquícios desses julgamentos em nossa própria mente. Eu, que sempre fui bem resolvida nesse sentido, me vi consultando as amigas sobre isso pra saber se eu estava errada em aproveitar a abundância de oferta que se apresentou. Ou seja, ainda estamos passíveis de deixar esse tipo de pensamento nos censurar. Agora, não to aqui defendendo que todo mundo tem que sair dando pra geral sem nenhum critério. Só nós mesmas podemos saber onde nosso desejo quer nos levar. Inclusive de até onde queremos levar a situação. Não é porque saímos com a pessoa que temos que beijar, ou se beijamos que temos que ir pra segunda ou terceira fases, ou que começou com o desejo de fazer sexo e não podemos mudar de ideia no meio do caminho, ou que porque já estamos fazendo sexo que precisamos continuar se não estiver bom, ou que temos que dormir com a pessoa ou necessariamente marcar de vê-la novamente. Vivi todas essas situações e outras variações, e percebi que, em vários momentos, passava por cima do meu limite em nome de agradar a outra pessoa para fazer ela gostar mais de mim. Percebendo o erro, corrigia a rota, e bola pra frente!

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5. As pessoas se aproximam de acordo com as nossas intenções

Não necessariamente as intenções que escrevemos na bio, ou que expomos nas primeiras conversas. Aquelas mais profundas das quais, muitas vezes, nem temos consciência. Por anos, eu tinha certeza que eu queria estar em um relacionamento sério, comprometido, só pra anos depois descobrir, explorando mais minha psiquê, que eu tinha pavor de intimidade. E isso tinha uma consequência óbvia: nada de namoros ou relacionamentos longos. Muitas de nós entram no Tinder ou qualquer outro app ou site do tipo e ficamos em cima do muro: se vier alguém pra algo casual, ótimo, e se vier alguém que quer compromisso, melhor ainda. Pode ser que encontraremos o sério no casual. Mas é muito mais provável que ficaremos frustradas na busca do relacionamento se ficarmos colocando nossa atenção no casual. Principalmente, tentando transformar esse casual em um relacionamento, quando tantos sinais nos mostram que aquela pessoa não quer nada a mais, ou que tem características que sabemos não encaixar exatamente com nosso jeito de funcionar ou ver o mundo. E como sabemos isso? Vamos ao item 6.

6. Encontrar com as pessoas presencialmente nos ensina mais sobre nós mesmas do que sobre a pessoa em si

Já ouviu falar que as pessoas com quem nos relacionamos são espelhamentos do que escondemos sobre nós mesmas, ou projeções de coisas que gostaríamos de ser mais? Se não, comece a prestar mais atenção. Quando começamos o processo de nos apresentar para a pessoa, colocamos na frente o que achamos que é o melhor de nós, certo? Esse alguém também está fazendo a mesma coisa. Ou seja, se o que essa pessoa apresenta já nos incomoda de alguma forma, isso pode significar que ela está jogando na sua cara coisas que te incomodam sobre você mesma. Um exemplo foi de dois caras que pareciam ótimas companhias por mensagem de texto, e que, quando nos encontramos, foi um desastre. Principalmente, porque vi que eles mostraram um jeito agressivo de se apresentar. Naquele momento vi, jogado na minha cara, minha tendência a ser passiva nas relações, e não mostrar de cara como me sinto ou o que penso para agradar a pessoa e fazer ela gostar de mim. Ali vi uma oportunidade de aprender algo e quebrar um padrão nada saudável de comportamento. Quando encontrei a oportunidade, respirei fundo, encontrei a forma mais tranquila de colocar o que estava pensando sobre aquilo tudo, e botei todas as cartas na mesa. Isso foi muito importante para eu aprender a reconhecer meus limites, me dar mais valor sobre o tipo de pessoa que mereço ter ao meu lado, e melhorar meu radar anti-babaca.

7. As melhores decisões são tomadas unindo razão com intuição

Finalmente, a coisa mais importante de todas foi aprender a usar as duas ferramentas mais eficazes para ser mais feliz usando o Tinder: tomar qualquer decisão consultando ambas razão e intuição. Eu sei, parece difícil. Somos educadas a usar a razão para tomar decisões no trabalho, nas finanças, nas partes práticas da vida, mas quase nunca na vida amorosa. Intuição então, parece que confundimos ela com a ilusão da paixão ou do tesão grande parte do tempo. Precisamos nos educar sobre usá-las a nosso favor nos relacionamentos também. Desde que comecei a cultivá-las mais, percebi quanta gente interessante foi se aproximando de mim, quanta gente que não valia fui afastando de mim, quantas experiências maravilhosas tive oportunidade de viver, em quantas roubadas deixei de me meter ao deixar de lado as opiniões de outras pessoas sobre o que eu deveria ou não fazer. Isso serviu pra saber quem eu trazia para dentro da minha casa, quem eu escolhi ver de novo, e até para quem eu percebi potencial para uma amizade ou um relacionamento romântico. Essa conexão comigo mesma é, com certeza, o aprendizado mais importante de toda essa minha experiência num app de relacionamentos. Afinal de contas, existe relacionamento mais comprometido do que o com a gente mesma?

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Imagem: pinterest.com/superelaoficial

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