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Sabe aquele protecionismo de mãe, de não querer ver seus filhos sofrerem de maneira alguma? Então, é um misto entre isso e pena que toma meu coração sempre que eu vejo uma menininha “livre” brincando na praia, andando na rua, tomando um sorvete, passeando no parque. Pode ser filha de algum parente meu, de algum amigo meu ou de um mero desconhecido: não consigo sentir outra coisa a não ser protecionismo e compaixão.

Um mix que provavelmente deriva da empatia. Porque eu sou mulher. Eu sei o que é ser mulher. Eu sinto todos os dias o peso de ter um duplo cromossomo X. Um par de peitos. Acúmulo de gordura na região do quadril. Dois ovários, um útero, duas trompas de falópio, uma vagina. E é inacreditável a maneira como tudo isso salta do biológico para amparar percepções sociais completamente estúpidas e preconceituosas.

Começa mais ou menos assim: nasceu com pipi, ganha roupa azul; nasceu com pepeca, ganha roupa rosa. E vai imediatamente furar a orelha, que é pra colocar o primeiro brinquinho e ficar com cara de menininha. Olha que lindinha. Ah, essa vai dar trabalho pro papai, de tanto gavião que vai ter pra espantar. É uma princesa! E taca-lhe roupa de princesa. Caderninho de princesa. Mochila de princesa. História de princesa antes de dormir – princesa que é sempre salva pelo beijo romântico do príncipe, vale ressaltar. Enquanto o irmãozinho tá construindo umas coisas maneiras com Lego, ela tenta achar graça num kit com fogãozinho, pia e panelinhas de plástico que ganhou de Natal. E acaba achando – afinal, quando mamãe e papai chegam em casa cansados, papai vai para o sofá e mamãe vai para a cozinha. Para ela, essa é a prova mais irrefutável de que habilidade com os afazeres domésticos é coisa de menina mesmo.

E como boa menina que sempre foi, ela continua fazendo coisas de menina. Brincando de casinha, de boneca, de salão de cabeleireiros. Se preparando, desde pequenininha, para ser a esposa exemplar: submissa, delicada, bonita. Como um troféu. O primeiro sutiã vem aos oito anos, presente daquela tia antenadíssima nas últimas tendências do AliExpress. Usa, querida, vai ficar tão bonito! Usa pra provar que você é uma mocinha. E ela, que de mocinha não tem nada, usa. E aproveita e usa também um esmalte, uma sombra, um rímel, um BB cream. Tudo hipoalergênico, que é pra não fazer mal pra pele dela. E quando nascem os primeiros pelinhos nas axilas, gilette neles, que é pra evitar o bullying que a Mariana, aquela menina peludinha da escola, sofreu por usar a bermuda de cotton do uniforme sem depilar a perna. Aos dez anos de idade.

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Aos onze e meio lhe vem a menstruação, a significância biológica de que ela já está em idade fértil e que, portanto, para a macharada, que sempre tem licença poética para pensar apenas com a cabeça do pau, já pode ser desejada. Que peitinhos lindos que você tem! – ela ouve de um homem quando está a caminho da padaria. Pronto, já sofreu o primeiro assédio. Primeiro de muitos. Que vai evoluir para uma apalpada na matinê aos 14, um beijo à força na balada aos 16, um sexo não consentido aos 18 – se ela tiver a mesma triste sina das 50 mil mulheres que são estupradas por ano no Brasil –, uma perseguição sexual do chefe aos 21.

Aí vão dizer de tudo. Que a culpa é da saia dela, que é mais curta do que deveria. Ou do decote, que é maior do que deveria. Ou do batom vermelho provocante que ela insiste em usar. Ou da maneira como ela se senta, com as pernas ligeiramente abertas – ou isso é coisa de sapatão ou coisa de mulher que quer dar. Ou do livro que ela estava lendo, aquele tal de “Cinquenta tons de cinza”. Ou das biritinhas que ela tomou a mais na festa de final de ano da firma. Ou da maneira como ela digita – que é exatamente igual à maneira como todo mundo no escritório digita. Inclusive o moço que senta ao lado dela, exerce a mesma função que ela, tem a mesma formação do que ela e ganha o dobro do salário dela.

E ela vai se chatear. Vai chorar. Vai se sentir o pior ser humano do mundo. Mas um dia vai, enfim, perceber que essa sociedade patriarcal, desumana e estúpida que a rodeia sempre vai encontrar uma maneira de colocar a culpa nela pelas violências que ela própria sofre. Afinal, homem que abusa é um coitado que sucumbiu aos próprios instintos; mulher que é abusada é provocadora e safada. Essa é Santa Inquisição do século XXI, que de santa não tem nada. E nós somos as netas, bisnetas, trinetas e tataranetas de todas as bruxas que vocês, caros inquisidores, não conseguiram queimar.

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Imagem: pinterest.com/superelaoficial

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