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Sob a ótica filosófica, liberdade é a capacidade que temos de agir por nós próprios, sem servidão ou submissão. É autonomia, independência. Em termos práticos, é a chancela para fazer o que se bem entende – desde que você não fira a liberdade dos outros ou a Constituição. É a possibilidade de vestir a roupa que lhe for mais aprazível – uma saia curta ou uma calça de moletom –, de ir aos lugares que lhe fazem bem – à balada ou à igreja –, de comer o que estiver de acordo com o seu paladar e a sua concepção de saúde – uma porção de batatas fritas ou uma salada de alface e tomate.

O feminismo é uma luta pela liberdade feminina – e dos homens também, mas isso é papo para outro dia. Graças ao feminismo, hoje podemos votar, estudar e trabalhar fora para garantir o nosso próprio sustento – embora nossos salários sejam 30% menores do que os dos homens que exercem as mesmas atividades que a gente. Podemos dirigir carros, sair desacompanhadas, denunciar agressões – ainda que sejamos humilhadas e colocadas em descrédito. Podemos – mesmo que sob ameaças e olhares tortos – beber num bar, usar uma sainha curta, transar quando e com quem bem entendemos.

Embora ainda haja um caminho longo e tortuoso pela frente para que possamos atingir a liberdade plena, uma boa parte dessa estrada já foi percorrida. O que é maravilhoso. Porém – permitam-me abrir um paradoxo – perigoso. A liberdade comportamental e sexual da mulher é algo a ser comemorado e praticado, claro. Mas sem fanatismo. Sem pregação. Sem proselitismo. Para que não floresça, do ventre da liberdade sexual, um novo tipo de repressão, uma nova regra de comportamento. Que, infelizmente, anda imperando a torto e a direito por aí: o “Manual de Como Ser Uma Mulher Livre”.

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Mais encontrado nas versões discurso oral ou papo de internet, o “Manual de Como Ser Uma Mulher Livre” corriqueiramente usa termos como “mulher de atitude” ou “mulher de verdade” para ~exaltar~ a liberdade feminina e diferenciar comportamentos: de um lado aqueles que devem ser seguidos, porque são prafrentex; de outro, aqueles que devem ser combatidos, porque são caretas. Aí vai um trecho bastante característico do manual da mulher livre: “Mulher de atitude não tem medo de chamar a atenção. Ela coloca um salto quinze, passa um batom vermelho e arrasa na pista da balada com as amigas. Mulher de atitude não se intimida na hora de chegar nos caras que lhe despertam desejo. Ela escolhe, em vez de ser escolhida. Mulher de atitude não tem vergonha de se assumir. Por mais que seu passado a condene, ela sabe que não deve nada a ninguém. Mulher de atitude transa no primeiro encontro – afinal, sabe que seu valor não está atrelado à sua vida sexual.”

Bacana. Acho ótimo que as mulheres não se intimidem em momento algum, seja na hora de se divertir, de demonstrar desejo, de se impor, de comandar a própria vida sexual. Acho mesmo que a gente tem que dançar até o chão, beber até as pernas ficarem bambas, vestir roupas que nos façam sentir poderosas, usufruir da nossa pepeca. Mas só se a gente quiser. E é aí que mora o gigantesco problema de colocar a mulher de atitude num pedestal de endeusamento: nem sempre a gente quer fazer o que o manual manda.

Tem noites de sexta em que a gente só quer ficar jogada no sofá, assistindo a um filme na Netflix. Tem noites de sábado em que a gente, mesmo estando no bar, quer beber um suco de laranja. Tem dias em que a gente até vê um cara bonitinho no happy hour, mas não tá minimamente interessada em chegar em ninguém, porque quer curtir a própria companhia. Tem vezes que, por mais interessadas que estejamos em alguém, não queremos transar com ninguém. Porque a verdadeira liberdade sexual é ser tão livre a ponto de não querer transar – e não ter que dar satisfações a respeito disso para ninguém.

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Isso, sim, é liberdade. Uma liberdade bem diferente da que você, defensor do “Manual de Como Ser Uma Mulher Livre”, prega. Porque apesar de parecer preocupado com a nossa liberdade, na real, você não passa de alguém que continua cagando regra sobre o que a gente deve ou não fazer. Que continua plantando preocupações na nossa cabeça para que sejamos aceitas e nos encaixemos em um padrão. Que continua atribuindo juízo de valor a todas as nossas escolhas e motivações. E isso não é libertário. Nem bacana. Muito menos feminista.

Imagem: Pinterest

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