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Mal março chegou, e o mundo inteiro já está empenhado em nos homenagear pelo nosso ~tão honroso~ Dia Internacional da Mulher. Se geralmente não passamos de vadias que merecem ser estupradas quando usam roupas curtas, de loucas que pedem para ser violadas quando saem – ou viajam – sem a companhia de um macho, de pedaços de carne que devem ser apalpados tão logo o irrepreensível instinto sexual masculino der as caras ou de corpos voluptuosos em revistas cujas páginas ocasionalmente terminam coladas pelo esperma de algum adolescente tentando demonstrar virilidade, em 8 de março tudo é diferente. O mundo vira um grande país das maravilhas, onde Alice pode perambular sem medo e esquecer que Marina Menegazzo e María José Coni, duas mulheres como ela, foram mortas com pauladas na cabeça e facadas porque resistiram a uma tentativa de estupro numa viagem de férias, em fevereiro de 2016. Que Rosenilda Sarmento, uma mulher como ela, teve uma das mãos decepadas durante uma tentativa de estupro coletivo dentro da sua própria casa, em setembro de 2015. Que Araceli Cabrera Crespo, uma menina como ela, foi raptada, drogada, estuprada, morta e carbonizada em maio de 1973.

É tudo tão horrível, mas graças à benevolência que o patriarcado nos concede uma vez por ano, Alice, pode, enfim, esquecer tudo isso. Porque agora, neste incrível março de 2016, ela está voltando para casa com um botão de rosa que ganhou da empresa onde trabalha – e que a remunera com um salário 30% mais baixo do que o do seu colega que exerce exatamente a mesma função. E com um bombom que ganhou do banco onde tem conta – e onde é constantemente ~elogiada~ pelo gerente, que continua insistentemente chamando-a para sair, mesmo depois de ela já ter recusado três convites. E com uma amostra de shampoo que ganhou na entrada do metrô – de uma marca que vive oprimindo seus cachos, dividindo o mundo feminino entre as que têm “cabelo bom” e as que não têm. E com um vale-massagem que ganhou de uma clínica de estética que contribui, nos panfletos distribuídos pela rua, para disseminar a ojeriza às já demonizadas celulites, estrias e gorduras localizadas.

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Que dia feliz para Alice, não?

Não.

E Alice sou eu, por mais que eu não me chame Alice. É você, mana. É a sua mãe, é a sua irmã, é a sua namorada, é a sua amiga – todas essas que você já disse tantas vezes que ama. É a sua vizinha, que é sempre tão solícita ao compartilhar com você as acerolas que nascem na árvore que ela cultiva no quintal. É a sua colega de trabalho, que nunca mediu esforços para contribuir para aquele projeto de melhoria contínua que você desenvolveu na sua empresa.

Alice somos todas nós, mulheres.

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E nós, Alices, não precisamos de flor. Nem de bombom, amostra de shampoo, creme hidratante, condicionador ou qualquer coisa que o valha. Precisamos que o mundo pare de nos fragilizar, de nos estuprar, de nos agredir, de nos julgar, de nos rivalizar, de nos escarniar e de nos silenciar só porque nascemos – ou nos tornamos – mulheres. E tudo isso só floresce a partir do respeito, do reconhecimento e do espaço, e não de um mero – que me desculpe a natureza – e já morto botão de rosa.

Imagem: Pinterest

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