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Eu era criança. Eu devia ter uns sete ou oito anos quando alguns pertences meus começaram a sumir ou a aparecer danificados na escola. Primeiro foi meu livro de Gramática. Como eu sempre fui uma aluna exemplar, a princípio, imaginou-se que alguém que precisasse de nota tivesse pegado meu livro para copiar as lições. Depois, o que sumiu foi o meu blusão do uniforme. Mas como eu sempre fui um pouquinho descuidada, não seria impossível que eu simplesmente o tivesse perdido. Até que, um dia, eu voltei do intervalo e a minha mochila estava rasgada: havia sido cortada na lateral com tesoura. Todos esses eventos aconteceram em questão de uma ou duas semanas. E aí começamos a suspeitar de que fosse tudo parte de um plano arquitetado para me magoar. Até o dia em que tivemos a certeza: um menino da minha classe, no meio da aula, tacou o meu estojo no chão, começou a sambar em cima e logo depois confessou que era o responsável por todos os outros estragos. Quando a coordenadora perguntou por que ele havia feito aquilo, ele respondeu, tímido, que não sabia. E então os boatos inundaram a escola: ele estava gostando de mim.

Aquilo me soou bastante perturbador. Não só pelo fator material – um livro e um blusão perdidos, uma mochila rasgada e um estojo pisoteado –, mas pela ideia assustadora de que toda aquela demonstração de ódio pudesse ser, na verdade, bem querer. Porque a gente não faz mal a alguém de que gosta. Pelo menos não intencionalmente. Por diversos motivos – principalmente medo da não correspondência – não é fácil admitir que se gosta de alguém. Mas, se você não tem coragem para assumir, pelo menos que fique no seu canto até que essa paixão toda passe, até que a pessoa corresponda ou até que você a esqueça para se dedicar a alguém que corresponda. Na minha cabeça, isso tudo sempre foi muito claro. Mas não é assim que o mundão é.

Existe o gostar, que é o que a gente sente pelo coleguinha de classe na escola e deveria sentir por todas as pessoas que nos rodeiam. Existe o amar, que é o que a gente deveria sentir pelos nossos familiares, parceiros e amigos do peito. E existe o ser obsessivo, que é uma coisa tão terrível e tão abominável que eu sequer encontro palavras para denominar, mas que, em função da noção absolutamente distorcida que as pessoas têm sobre relacionamentos, às vezes é confundido justamente com amor. Todo o caos que o menino que detonou meu material escolar provocou na minha vida foi fruto de uma obsessão – e não de amor. Crimes passionais – como os que tiraram a vida de Sandra Gomide, Eloá Pimentel e Mércia Nakashima – são frutos de obsessão, e não de amor. As violências que o marido da Maria da Penha praticou contra ela até condená-la a uma cadeira de rodas pelo resto da vida foram frutos de obsessão – e não de amor. E o atentado que a apresentadora Ana Hickmann sofreu na tarde do último sábado, em Belo Horizonte, foi fruto de obsessão – e não, nunca, jamais, uma loucura de amor.

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Hoje à tarde me peguei lendo a respeito do caso. Quanto mais eu me aprofundava, mais apavorada eu ficava. As ~declarações de amor~ e as mensagens de cunho pornográfico que o fã Rodrigo de Pádua escrevia para a modelo na clareza escancarada das redes sociais me provocaram um misto de medo e nojo. É tudo tão assustador e tão misógino que seria muito pior se não fosse… banal na vida de uma mulher. Sim, isso mesmo. Banal. B-A-N-A-L. Desde crianças, nós somos ensinadas a encarar assédios como cortejos e violências como demonstrações de afeto – afinal, os homens são muito brutos para amar convencionalmente, não? O menino só destruiu meu material escolar porque gostava de mim. Aquele coleguinha de sala só bateu na sua irmãzinha porque é apaixonado por ela. O garoto que passava trote toda santa madrugada para a sua casa durante a adolescência só o fazia porque queria ficar com você.

caso ana hickmann 2

É claro que há um abismo entre destruir uma mochila ou passar um trote e atentar contra uma vida. Mas são todas atitudes condenáveis que você, mulher, é induzida a engolir calada. Não o leve a mal – é o que você cresce ouvindo dos outros sobre o cara que humilhou você na frente de toda a sala de aula porque supostamente gostava de você. E como boa menina que sempre foi, você obedece.

Aí vem o primeiro relacionamento de fato – beijo na boca, passeio de mãos dadas no parque, sexo. E ele começa a implicar com as suas roupas. A dizer que a sua saia é curta demais, que a sua blusinha é decotada demais, que a sua calça é justa demais. Que você parece uma vadia. Muito embora aquilo incomode bastante, você resolve botar a lição em prática e não levar a mal. Afinal, se ele diz alguma coisa é porque se importa. Pior é o namorado da Aninha, que deixa ela rebolar até o chão nas festinhas e não fala nada.

O primeiro relacionamento acaba por qualquer motivo verdadeiramente banal (ou não), e aí vem o segundo. E você, mais vacinada, já começa a perceber que esse papo de homem querer controlar os seus comportamentos e culpá-la por absolutamente tudo só porque te ama não cola muito bem. Pode até não ser ódio, mas também não é amor. Tem mais cachorro nesse mato. Incomodada com esse tipo de comportamento, agora já reconhecido como machismo e misoginia, depois de muito choro, muita indecisão e muito medo, você resolve terminar. E aí ouve durante meses – quando não anos – que foi má. Ele te liga no celular no horário de trabalho para reviver o passado e relembrar como vocês eram um casal feliz, até que você estragou tudo quando cumprimentou com um abraço carinhoso aquele amigo de infância na rua, quando saiu com as amigas na sexta à noite sem a companhia dele, quando dançou até o chão na balada e foi assediada por um outro homem que não – não era culpado. Porque a culpa de tudo sempre foi sua.

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Assim como a culpa do Rodrigo de Pádua não dormir direito à noite era da Ana Hickmann. A culpa dele agir como um tarado ao postar uma foto da mão dele cheia de gozo no Twitter era dela, que é ~muito gostosa~. Como a culpa dele ser obsessivo e fazer montagens assustadoras e dignas de pena com as fotos da modelo no Instagram era única e exclusivamente da beleza dela. A culpada de tudo – da tragédia naquele quarto de hotel, do ferimento da cunhada, da morte do fã – foi ela. Porque ser mulher é isso: é ser julgada como culpada sem sequer ser ouvida. Se a gente é muito bonita e desperta desejos em homens doentes e que só pensam com a cabeça debaixo, a culpa é nossa – quem mandou ser bonita, se vestir desse jeito e postar foto com biquinho na internet? Se a gente é completamente fora dos padrões e vive solteira, sozinha e – por que não? – feliz, a culpa é nossa – quem mandou não se cuidar, não emagrecer, não dar um trato nesse cabelo? Se a gente levanta a voz numa briga, não importa o que tenham nos dito, a culpa é nossa – aquela lá é uma descontrolada, louca, histérica. Se a gente é apalpada no metrô, a culpa é nossa – quem mandou subir no transporte público com a popa da bunda aparecendo?

Aos olhos dos machistas e misóginos – como era o caso do Rodrigo –, a culpa sempre vai ser nossa. Não importa o que a gente tenha feito ou deixado de fazer, falado ou deixado de falar, pensado ou deixado de pensar, eles sempre vão arranjar uma maneira de colocar toda a responsabilidade nas nossas costas e de nos fazer pagar – seja privando a nossa liberdade, seja tirando a nossa vida, seja controlando a nossa buceta. Porque uma coisa é verdade: eles realmente querem nos ver molhadinhas. Só que não é de prazer. É de sangue.

Imagem: Pinterest

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