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Uma menina foi estuprada por 30 homens. Outras quase 50.000 meninas e mulheres também o foram no último ano, em nosso país. A novidade é que hoje isso virou motivo de comoção nacional, gerou repercussão na mídia e nas redes sociais e ela pode experimentar a surpresa de se sentir apoiada pela opinião pública, ao invés de condenada, como de costume. Hoje sabemos que o estupro e a barbárie são a ponta do iceberg de uma cultura marcada pelo machismo e pela permissividade em relação às agressões cotidianas à mulher: a cultura do estupro.

Aos poucos vamos percebendo que educar nossas meninas para se protegerem dos homens é pouco eficaz se não educarmos nossos filhos a respeitar a mulher e sua prerrogativa de consentir. Precisamos empoderar nossas mulheres e civilizar nossos meninos.

Mas como?

Diariamente ouço, na vida e no consultório, histórias de mulheres instruídas, pertencentes às classes média e alta, profissionalmente atuantes e cientes dos seus direitos. Imagino que elas são uma pequena parcela de privilegiadas que pode se dar ao luxo de viver  um mundo mais igualitário, repleto de oportunidades e, objetivamente, mais seguro. Quem sabe elas teriam as condições necessárias para se sentirem empoderadas?  As histórias de opressão, agressão e fragilidade, contudo, se repetem.

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Empoderamento é muito mais do que um discurso, comportamento e teorias. É sobre quem elas  são. Para ser uma mulher empoderada, é preciso se sentir potente, genuinamente poderosa.

Quantas mulheres você conhece que se sentem assim?

Aquela mulher que coloca as necessidades dele acima das próprias,

a que acha que precisa ser boa mãe,

boa dona de casa,

boa profissional

e boa amante para ser valorizada,

a que deixa de se divertir porque não está depilada,

a que gasta boa parte do seu salário em procedimentos estéticos para consertar seu corpo cheio de defeitos,

a que faz sexo com o marido sem vontade por medo de ser trocada por outra,

a que questiona o próprio valor e os próprios comportamentos se ele não liga no dia seguinte,

a que vive de dieta,

a que aceita comportamentos que a incomodam por que eles são “coisa de homem”,

a que acha que não vai arrumar outro melhor,

a que aceita transar sem camisinha,

a que acredita que ele eventualmente vai largar a esposa para ficar com ela,

a que tem medo de ficar larga depois do parto,

a que se acha velha,

a que investe pouco na própria carreira por achar que a renda dela não é parte importante do sustento da família,

a que acha normal que ele possa destratá-la às vezes,

a que acha melhor não falar o que pensa para não contrariá-lo,

a que espera o marido chegar para disciplinar os filhos,

a que entende que ele está muito cansado para cuidar dos filhos quando chega em casa ou no final de semana,

a que vai sozinha na reunião de pais,

a que não sabe como investir o próprio dinheiro,

a que espera por ele para tomar decisões cotidianas,

a que lava toda a louça sozinha,

a que troca de roupa se ele pedir,

a que deixa de sair com as amigas solteiras quando casa,

a que aceita trabalhar ganhando menos do que a sua qualificação merece,

a que se qualifica pouco,

a que vota sem consciência,

a que acredita que foi traída porque a outra é uma vadia,

a que julga o comportamento das demais mulheres muito mais severamente do que o faz com os homens…

Qual delas se sente poderosa? Quantas delas acreditam que o estupro é apenas o auge de uma série de abusos cotidianos que passam como normais? Quantas delas passarão estes mesmos valores para seus filhos e filhas?

Empoderamento precisa ser maior do que o discurso. É um estado de espírito, uma lógica interna que se constrói junto com as crenças mais básicas que uma mulher tem sobre ela mesma, sobre os homens e sobre o mundo. É um estranhamento genuíno ao se deparar com homens que não a valorizam, que a tratam como se as necessidades dela importassem menos do que as dele. É entender que homens e mulheres são, obviamente diferentes, mas valem a mesma coisa, tem os mesmos direitos.

Se a própria mulher não vê dessa forma, quem poderá defendê-la? Como ensinar às nossas meninas não a se defender, mas a se amar a ponto de não se permitir ofender?

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No caso em questão, como em tantos outros envolvendo abuso e violência contra a mulher, o agressor é um conhecido. Um ficante. O que levou essa menina a querer se relacionar com esse indivíduo? Então o erro foi dela? Não me entendam assim. O que me choca é que o sistema de alarme dela não gritou, berrou e a fez sair correndo ao entrar em contato com esse monstro. Ele não causou nela estranhamento. Talvez porque ela esteja habituada, como todas nós, com os pequenos abusos cotidianos. Desses que a gente acha normais. Porque a cultura do estupro não apenas nos rodeia, mas cresce e desenvolve dentro de cada uma de nós, dia após dia, geração após geração.

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