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Eu nunca fui abusada, estuprada, violentada – pelo menos, não da forma que usualmente se entende, das vias de fato. Efetivamente – e por Deus, se é que ainda é possível nele crer durante essas situações – não tenho registro policiais como vítima e nem guardo segredos de apalpadas brutais e desprezíveis, sejam durante a infância ou a maioridade. Talvez eu tenha dado sorte.

Mas, quando por detrás de uma tela brilhante de 15” vejo mais de trinta vezes, como uma repetição da barbaridade, a notícia de uma jovem que “dando motivos”, pois sendo adolescente, sem um relacionamento estável no status do facebook, se dignando a ir na casa de um homem, sozinha e a noite, sendo uma vagabundinha que já tem até filho e que ainda usa drogas, é óbivio que ela deu motivos, não é mesmo?

Desculpas, ou melhor, justificativas para o que essa garota pediu – de forma mais válida do que registro em cartório – não faltam, verdade?

Quando vejo uma notícia dessas, que não é a primeira nem será a última que verei durante minha tão condenável existência de mulher, sinto uma dor. Uma dor no útero, como uma cólica, destinada a todas as que antes do nome tem um artigo feminino, a dor de ser apenas mulher.

Sinto a dor de ser essa menina e não poder fazer nada por ela, nem por mim.

Não estou dizendo que homens não sejam assediados e violentados. Nem desmerecendo, diminuindo ou ignorando a dor de qualquer outro grupo. Só que o fato inegável é que como mulher é essa a realidade que conheço, me compadeço e tenho que falar. É a que sinto na pele, literalmente. No decote que supostamente fala mais do que minha boca, nas pernas que mesmo cobertas não podem me levar a todos os lugares, no sorriso desprentencioso que não posso dar nos bares e nos olhos que sempre tenho de baixar.

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É a dor que estoura meus tímpanos todas as vezes que homens me “cortejam” no meio da rua. Não, não são cantadas. Não, não é flerte. Não, não sou frígida por recusar que homens velhos, muito velhos, com idade para ter a mim e mais três como filhas ou netas, me olhem e dispam com os olhos. Não quero mais ficar nua no meio da rua. E não estou sendo feminazi (termo que dá ânsias toda vez que vejo) e/ou me fazendo de difícil quando digo isso.

É a dor de saber que não posso, e não devo, me rebelar quando minha mãe diz “Filha, não chega tarde em casa. Filha, não sai com essa roupa. Filha, não anda sozinha a noite. Filha, toma cuidado.” porque sei que diz tudo isso porque tem motivos para temer por mim, pois muito antes já temia por si.

É o medo por mim e minhas amigas toda vez que alguém volta tarde da faculdade, da Igreja ou do bar. Toda vez que uma delas vai encontrar alguém do Tinder ou que lhes pedem nudes. Toda vez que saem. Todas as vezes em que os “se” podem tornar-se fatos, ou seja, o tempo todo.

Quando eu era criança por volta de dez anos um senhor passou a mão no meu rosto, acariciou meu cabelo e disse que eu era muito bonita e quase uma mocinha.

Quando eu tinha onze uma menina, mais velha, me perguntou porque eu não usava sutiã e ficava “me mostrando assim”.

Quando eu tinha treze, um garoto de dezoito pediu para ficar comigo porque eu “não tinha cara de criança e já tinha jeitinho de mulher e, sabe como é, ele curtia novinhas”.

Quando eu tinha dezessete, há poucos meses atrás, um taxista ficou parado me olhando – pois não sou nada mais que uma bunda – atravessar a rua enquanto passava a língua pelos lábios.

Quando tinha dezoito, semana passada, na faculdade fiquei meia hora simulando uma defesa em um caso de violência contra a mulher enquanto meu interlocutor só olhava para meu decote que aparentemente estava “inapropriado”.

E quando há seis minutos pesquisei estupro no Google encontrei 883000 resultados em 43 segundos. Não me surpreenderia se esse número fosse uma estatística. Na primeira página só haviam notícias do estupro coletivo. Na décima haviam cinco casos de estupro de vulnerável. Na décima quarta um caso de um professor que havia feito 20 vítimas e mais alguns links de estupro de vulnerável, que só para curiosidade (mórbida) em sua maioria não são cometidos por desconhecidos em becos escuros ou senhores do acaso que acham menininhas bonitinhas. São crimes cometidos por pais, avós, padrastos, tios, amigos, cuidadores, professores, parentes de quinto grau, em resumo todos aqueles nos quais crianças buscam colo e afeto e encontram zíperes abertos e paus eretos.

Certa vez, uma professora de matemática me disse que achava o termo desumano inapropriado, pois só o homem – não o sexo masculino, mas o ser humano – é capaz desses atos gratuitos de horror. E essa verdade eu aceitei por completo. Todos esses casos, os que vão se repetir e os que já aconteceram não são desumanos e sim absolutamente humanos. Todas as desculpas, as justificativas, os julgamentos, os inquéritos e as acusações são completamente humanas. Todos os pesadelos, a violência e a crueldade é humana. Já dizia Hobbes que “O homem é o lobo do homem”.

Em momentos como esse reverbera a pergunta fátidica: O que fazer para manter a esperança?

Talvez daqui uma semana isso mude e na primeira página do google eu encontre a resposta em um julgamento justo. Ou talvez alguém leia isso ou outra coisa e se sinta coberta com algum apoio e por telepatia – ou comentários – me faça sentir o mesmo.

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Enquanto isso só me ecoam as vozes que dizem “Não foram 33 contra uma. Foram 33 contra todas.”

Fazemos parte do todas. Talvez um dia não mais, quem sabe. Mas por enquanto, e independente dos fatos comprovados ou não, minha mão permanece estendida, escrevendo, e pronta para segurar a de qualquer uma que também esteja no todas. E minha luzinha da utopia de esperança – que todo escritor carrega – continua brilhando e querendo apagar essa barbarie.

Imagem: Pinterest

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