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Mariela nasceu em 1995, agosto era o mês. Um domingo e chovia bastante. Sua mãe suada e exausta chorou ao beijá-la pela primeira vez. Mas Mariela não era um bebê qualquer, ela não sabia disso, mas ao ser concebida, não fora fruto de amor e prazer, nem sequer consonância. Mariela era o fruto de um estupro. A semente que plantou Mariela foi a semente da violência.

Com a barriga já aparente, a mãe de Mariela saia na rua para comprar pão. Era só um quarteirão, mas sempre havia algum muxoxo de incredulidade, entre si diziam “olha-lá-que-vagabunda”, já grávida nessa idade! E a garota fingia que não percebia, mas dentro dela, a tristeza mandava e tudo doía.

Era uma noite de verão quando a mãe de Mariela saiu de casa. Foi andando apressada até o ponto de ônibus. Já estava atrasada, ia chegar tarde na balada. Quando encontrou os amigos, o lugar já estava cheio. Ela pegou uma bebida e foi dançar, se divertir. Em um certo momento, sentiu-se observada. Quando encontrou o observador, sentiu-se atraída. Alguns minutos depois, sentiu-se tocada. Levemente, gentilmente. Rolaram uns beijos, abraços e alisadas. Nada demais, tudo na paz.

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Na volta para casa, ele disse que a levaria. Ela hesitou por um momento, mas acabou aceitando. Ela disse que morava à esquerda, mas ele virou à direita. Ela deu um sorriso nervoso e disse que ali na frente tinha um retorno. Ele olhou para ela e não disse nada. Mas os olhos dele já não eram como antes. Ele continuou dirigindo até uma quebrada, e estacionou ao lado de um hidrante.

Queria ficar a sós, ele por fim falou, enquanto lhe pôs a mão com menos suavidade. Ela ficou aflita e se encolheu no banco. Não queria estar ali, mas não sabia como ir embora e a rua não tinha luminosidade. Ele começou a beijá-la com força e com pressa, e os dedos dela tentavam tirar os dele de cima. Ele dizia pra ela parar de se fazer de santa, porque com aquela saia ela só podia ser piranha, e que ficou dando mole enquanto estavam na pista.

Ela tentou abrir a porta, mas estava trancada. Seja boazinha que logo eu termino com isso. Ela ficou com medo de ser espancada e decidiu que relutar era ainda mais cilada. Ele abriu suas pernas e deu a primeira estocada. Pelo rosto dela haviam lágrimas de dor e de humilhação. Lá fora ninguém podia ouvir nada enquanto a menina caia aos pedaços pelo estofado, com os olhos cerrados e o peito em furacão.

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Mariela quase foi abortada, duas ou três vezes. Mas as tentativas foram em vão. Quando nasceu, sua mãe chorava ao beijá-la pela primeira vez, mas desejava estar morta, junto com o bebê que tinha nas mãos. Mariela viveu por alguns breves instantes, mas longos o suficiente para sentir a pele de quem lhe deu à luz. Contudo, não resistiu às tentativas frustradas e padeceu abraçada numa maca do SUS. E sua mãe tremia ao pensar que era melhor assim, não ter uma filha nesse mundo tão ruim.

Amanhecia quando a mãe de Mariela desceu do carro. Fechou a porta sem conseguir olhar para trás. Seu coração machucado estava confuso, envergonhado. Não queria que ninguém soubesse sobre a festa e o rapaz. Banhou-se aos prantos, esfregando a sujeira, mas nunca mais se sentiria limpa novamente. Deitou-se pensando que tudo tinha acabado, que tinha dado bobeira e que pelo menos não tinha marcas no corpo, só na mente.

Semanas depois, quando no banheiro vomitava, descobriu que estava errada – que existia uma marca crescendo dentro de seu ventre e que se assomava àquela que permanecia, constantemente, dia após dia, dilacerando sem dó sua alma quebrada.

Imagem: Pinterest

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