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Eram os meus últimos dias em Londres depois de quase 2 meses morando na terra da rainha estudando inglês, também os últimos dias com os colegas de classe no Pub que frequentei nas últimas semanas. Durante o papo me convidaram para um programa o qual eu recusei, pois estava com viagem marcada para Paris para o dia seguinte. Na mesa, o amigo turco sentado ao meu lado perguntou:

-Paris? UAU! Que demais! Você já esteve lá?

– Não, é a primeira vez. Vou amanhã, fico por 4 noites e embarco para Roma em seguida.

– Muito bom! E você vai sozinha?

– Sim, vou sozinha.

Surpreso ele me perguntou

– Sério? Mas por que?

E com um sorriso no rosto eu respondi:

– E por que não?

Paris

No dia seguinte, após embarcar no trem ansiosa para conhecer a cidade luz, me peguei pensando na pergunta da noite anterior e refletindo “Porque será que para as pessoas é tão estranho alguém viajar sozinha?”. Já repararam que não podemos ir a um bar,  cinema, teatro, show ou restaurante sozinhas sem sermos taxadas como coitadas, solteiras sozinhas e depressivas, sem amigos, fáceis e/ou disponíveis? Percebo que há um certo preconceito com quem pede mesa ou ingresso pra um. Eu ainda não vejo maturidade suficiente em nossa sociedade para entender que é possível estarmos bem e desacompanhadas. Eu nunca tive muito problema em fazer as coisas sozinha, desde mais nova ia ao cinema, restaurantes (na verdade fast food, mas ainda assim conta, não?) e shows sozinha. A falta de companhia nunca me impediu de realizar aquilo que eu gostaria. Era ir sozinha ou não ir, e não ir ou fazer nunca foi uma opção. E foi nisso que pensei quando respondi a pergunta do meu amigo de Istambul. Porque não ir à Paris sozinha?

Antes de encarar essa aventura no continente antigo, eu conheci um pouco do Brasil viajando sozinha. Curitiba, Foz do Iguaçu, Rio de Janeiro e Fortaleza. E me lembro de programar as viagens sem me preocupar em estar sozinha, se ia ou não conhecer pessoas, na verdade todo o meu planejamento sempre foi em conhecer os lugares e fazer as coisas em minha própria companhia e acho que isso facilitou todo o processo, pois sem a ansiedade e expectativa de conhecer alguém, naturalmente eu conheci pessoas em todos os lugares que visitei. Em Foz do Iguaçu fiz amizade com um casal e eu sempre tirava fotos dos dois e eles tiravam minha, foram tantas fotos que um já sabia manusear a câmera do outro. No Rio de Janeiro eu me hospedei em um hostel em Copacabana e conheci pessoas da Argentina, Alemanha, Estados Unidos, Itália e um casal do Rio Grande do Sul que me fez companhia em vários passeios, e quando estive em Fortaleza, conheci as amigas que, alguns anos depois, me acompanhariam em alguns dias em Paris.

As pessoas te chamam de corajosa e louca quando você conta que viajou ou vai viajar sozinha, há uma certa admiração e curiosidade nessas palavras. Te admiram pela iniciativa e logo te enchem de perguntas sobre como você vai em tal lugar, onde vai dormir, com quem vai comer. A resposta para essas perguntas é sempre a mesma: “Se conhecer alguém ótimo, senão, vou sozinha.” Eu não me preocupava com essas coisas, pois as possibilidade eram inúmeras, é possível conhecer pessoas no seu hotel, no ônibus de turismo, algum passeio, em um pub ou restaurante.

Durante os 2 meses em que morei na Europa, visitei, Lisboa, Dublin, Amsterdã, Madrid, Paris e Roma. E o único lugar em que fiquei realmente sozinha, foi em Madrid, não por opção, mas porque durante o banho de banheira no hotel, minha pressão caiu e não consegui conhecer o Pub Crawl  da cidade. O que não estragou minha viagem, pois eu estava realmente cansada e depois que a turista brasileira sumiu em Barcelona, fiquei pensando se não foi alguma providência divina cuidando de mim. Foram dias incríveis na cidade espanhola, onde pude tomar cerveja local, provar a verdadeira sangria, conhecer a “minha” praça Plaza de Cibeles, visitar o Museu do Prado além de outros pontos turísticos na cidade. Mas estar sozinha na Espanha e ter passado mal, me trouxe grandes aprendizado para as minhas futuras viagens sozinhas e eu aqui os divido com vocês:

– Planeje sua viagem, estude o lugar que vai se hospedar e a distância até os lugares que quer visitar, se programe em como vai fazer isso. Existem muitos artigos da internet sobre “O que fazer em…”.

viajar-sozinha

– Antes de viajar, descanse. Não passe uma noite em claro, para no dia seguinte passar o dia inteiro visitando lugares, o corpo responde as nossas ações.

– Se alimente bem, não exagere, lembre-se que se algo te acontecer, você estará sozinha.

– Para viagens internacionais, estude o idioma local ou ao menos o inglês. Você vai precisar comer, pedir orientação e aproveitará melhor os lugares se entender o que dizem sobre ele, além disso, há a questão da segurança, pois você pode ser um alvo fácil estando sozinha em uma cidade em que não consegue se comunicar.

– Seja educada ao conversar com as pessoas ou pedir uma informação, não falar bem o idioma não é desculpa para falta de educação.  Dizem que os franceses não gostam de falar inglês ou de quem fala inglês, a minha impressão foi diferente, talvez eles não gostem de quem já os aborda em inglês. Pense em como você reagiria se estivesse andando na Avenida Paulista e um estrangeiro perguntasse “where is this place? (onde fica esse lugar?)”. Se em português isso é rude, quiçá em outro idioma. Em Paris eu sempre começava com “Bonjour, vous palez anglais?(Olá, você fala inglês?)” e fui muito bem atendida e recebida. Em Amsterdã vi um comerciante não ser tão educado quando sem nem um Hello perguntaram se ele sabia onde ficava a Casa da Anne Frank.

– Não confie em estranhos, seja simpática, receptiva às novas amizades, mas esteja sempre alerta. Ao pedir informações, prefira pessoas uniformizadas, lojas, restaurantes ou meios de hospedagem, e ande sempre com um folheto do seu hotel nas suas coisas.

– Sempre avise alguém onde você está! Cidade, hotel e número de quarto, se algo acontecer com você, saberão onde te procurar. Dar satisfação é questão de respeito e segurança. Eu tenho um casal de amigos morando em Londres e confesso que quando eu decidi estudar inglês fora, minha escolha pelo lugar teve grande influência em ter pessoas conhecidas por perto. Não pela facilidade do idioma ou pela companhia, mas por segurança, pois se algo por acaso acontecesse comigo, meus amigos saberiam a quem avisar

– E por último, jamais ligue a torneira de água quente da banheira e vá mexer no celular depois de um dia inteiro sem internet, a água muito quente, misturada à má alimentação e bebida podem gerar resultados desastrosos (e hilários).

São muitas as frases que ouço quando falo de viajar sozinha, “eu não iria”, “você é corajosa”, “não acredito que fez tudo isso”, “não é ruim não ter com quem conversar e dividir tudo o que está vendo?”, “Você não fica entediada?”. Claro que ter alguém com quem comentar aquele fato engraçado, um quadro no museu, dividir uma refeição e apreciar a paisagem é muito bom, mas ter a liberdade de fazer o que quer, na hora que quer também é incrível. Viajar sozinha é libertador, dá a sensação que você pode tudo. E se eu conheci 7 países viajando sozinha pela Europa, então eu posso muito mais.

Eu cheguei em Paris em um sábado à tarde, minhas amigas chegariam no domingo à noite e isso me deu quase 2 dias para fazer as coisas que eu queria fazer sem atrapalhar a nossa programação juntas. Caminhei pelas ruas de Paris, vi pessoas tomando vinho nos cafés parisienses, andei de metrô, reconheci os arredores de onde estava hospedada e aprendi como chegar no meu hotel. Na noite que cheguei, jantei no restaurante que havia planejado e no domingo visitei a Disney, passeio o qual minhas amigas não queriam fazer.

Na Disney, passei o dia conhecendo as atrações que eu havia escolhido, chorei horrores sem constrangimento no desfile dos personagens e chorei mais ainda no espetáculo do castelo da Bela Adormecida no fechamento do parque. Pode ser que tenham me achado meio doida chorando sozinha no diante do show de luzes e fontes, mas eu estava sozinha e não estava nem aí para o que podiam pensar. Voltei para o hotel encantada com tudo o que vi e extremamente feliz. Claro que estar sozinha nas filas de brinquedos foi um pouco cansativo.É difícil passar um dia inteiro sem entender o que as pessoas falam, mas existem filas específicas se você está sozinha nos parques para completar as atrações que precisem de números pares, o que pode diminuir um pouco o seu tempo de espera, mas mesmo assim, eu aproveitei esse momento para observar tudo ao redor. A ansiedade das crianças pelas atrações, os casais sorrindo um para o outro (ok, nesse momento assumo uma certa dor de cotovelo), as famílias e os grupos de amigos alegres e animados com o dia no parque. E eu, de alguma forma devia estar demonstrando alegria também, pois algumas pessoas puxaram papo comigo, me perguntando de onde eu era, se estava sozinha, se estava gostando de Paris e me desejando um ótimo dia no parque. Mesmo no restaurante que eu jantei na noite anterior, fui recebida pelo garçom com um sorriso no rosto, ele se apresentou, perguntou se eu estava sozinha e me colocou na mesa ao lado de 2 francesas com quem eu conversei boa parte da noite e descobri que estavam sofrendo por amor.

Foi em Roma que descobri o único grande inconveniente de viajar sozinha: tirar fotos. A não ser que você dê muita sorte, ninguém nunca vai tirar uma foto sua exatamente como você gostaria. Antes de viajar eu comprei uma câmera semi profissional e, na hora das fotos, buscava sempre pessoas que estivessem com câmeras parecidas com a minha, na esperança que essas pessoas gostassem tanto de fotografia quanto eu e tirassem boas fotos. Na saída do Coliseu, cheguei a ficar 20 minutos no mesmo lugar pedindo para pessoas diferentes tirassem fotos minhas para ver se ficariam como eu gostaria, nenhuma delas conseguiu e eu desisti. À caminho do Museu do Vaticano, vi um brasileiro passando pelo mesmo problema, e me aproximei me oferecendo para tirar a foto do jeito que ele queria, claro, pedindo para que ele fizesse o mesmo. Eu acho muito desagradável pedir para um desconhecido que está passeando como você tirar várias fotos apenas para que fique do jeito que você quer, mesmo que a pessoa se pergunte se ficou boa e se ofereça para tirar outra, especialmente quando lidamos com culturas diferentes. Uma oriental correu de mim quando a abordei, não deu nem tempo de pedir a foto, foi a amiga dela quem gentilmente parou e tirou uma das melhores fotos minhas em frente a Basílica de São Pedro.

Quando eu cheguei em Londres, 2 meses antes dessa viagem à Paris, me lembro de estar bastante preocupada. Era minha primeira viagem internacional sozinha e eu estava insegura com muitas questões, mas morar lá, viver a cidade em sua essência, conhecer pessoas de todo o lugar do mundo, usar da estrutura que a cidade oferece para turistas e nativos e, claro, dominar o idioma, me deixou bem adaptada, e essas coisas você não aprende até que vivencie. Ao final da viagem, conhecia algumas partes de Londres como a palma da mão. Andei bastante sozinha por lá, entrei em bares e restaurantes, fiz amizades, tive alguns encontros e fui percebendo que a reação “oh meu Deus, ela vai viajar sozinha!”, depende de como você se percebe. Você pode dizer com um sorriso no rosto transmitindo animação “Sim, eu vou viajar sozinha!”, ou você pode dizer um pouco constrangida “é, não consegui companhia, vou ter que ir sozinha”.

Estar sozinha e bem acompanhada depende de você, a escolha de entrar em um Pub desacompanhada e se preocupar em como as pessoas vão te olhar, entrar e estar aberta a conhecer pessoas novas ou entrar e apreciar um drink ou um pint de cerveja em sua própria companhia é sua, e as duas últimas podem ser bem mais agradáveis e surpreendentes do que se imagina. Pode parecer muito clichê, mas apreciar a própria companhia é muito importante, caso contrário você pode estar em casa ou na viagem dos seus sonhos e ficará entediada da mesma forma. É preciso que você se sinta bem em sua própria companhia para que os outros também sintam. É preciso transmitir uma boa energia (eu acredito nisso) para que os outros também sintam, como dizem por aí, é preciso que você cuide do próprio jardim para que as borboletas apareçam. E tenha certeza que elas sempre aparecem.

Imagem: Pinterest

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