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Já se passou mais de uma década e eu ainda lembro. Cheiro de pinga barata, barulho de móveis quebrando, gritos e choro – choro que ecoa dentro mim até hoje. Nesse dia, pedi que ela dormisse comigo. Ela que nunca soube negar um pedido meu, quando feito com olhos de medo, acatou e dormiu do lado direito da cama – até hoje ela deixa o lado da parede para mim, diz que me mexo muito enquanto durmo e, dessa forma, me protege de uma queda repentina.

Onze e trinta da noite – uma pancada na porta me faz acordar com o coração acelerado e sem fôlego – ele tinha chegado –, ela olhou para mim sorrindo e disse que estava tudo bem, mas eu sabia que não estava. Bastou apenas cinco minutos para que aquele monstro, bufando e com olhos vermelhos invadisse meu quarto. Ele a segurou pelo cabelo e a arrastou para fora como se fosse um saco de lixo. Como se ela não tivesse carne, ossos e sentimentos. Eu tentei ajudá-la, mas ele me empurrou e fechou a porta do quarto. Nunca senti tanto ódio na minha vida. Se tivesse uma arma, teria dado um tiro certeiro: bem no coração dele.

Porta fechada. Edredom por cima da cabeça. Mãos nos ouvidos. Tentei de todas as formas não ouvir o choro dela, mas foi em vão. O soco dele, atingia ela e me derrubava. Os chutes dele, marcavam as costas dela e deixavam uma mágoa irreversível no meu coração. Fui a nocaute naquela noite. Ele não me bateu, mas no dia seguinte, acordei quebrada. Não queria levantar. Não queria ver o rosto dela, nem os hematomas que ele havia deixado em seu corpo. Senti a dor dela naquela noite. Senti vontade de matar alguém naquela noite.

Eu queria ter tirado ele de cima dela, sabe? Queria ter protegido-a. Eu deveria ter dormido do lado direito naquela noite. Mas eu tinha medo. Era fraca demais. Eu só tinha dez anos.

Os amigos e parentes – incessantemente – pediam para que ela o denunciasse. Eu só queria que ela fizesse nossas malas e nos tirasse daquele inferno, mas ela sempre arranjava uma desculpa para ficar – e apanhar.

Perdi as contas de quantas vezes ele a agrediu. Às vezes eram socos, empurrões e tapa na cara. Outras, eram torturas psicológicas. Esbravejava rente ao rosto dela, que sem ele, ela passaria fome. Ele também contava sobre os casos extraconjugais sem o menor pudor. Dizia com orgulho que as mulheres da rua eram mulheres de verdade. Elas sim, faziam ele gozar como ela nunca fez.

Quando tinha treze anos, meus pais se separaram, muita coisa mudou na minha vida e na dela. As paredes erguidas a base de álcool e agressão caíram. Ela agarrou as rédias da sua vida e hoje é dona de si. Eu aprendi a conviver com as dores doutrora, hoje, as lembranças já não machucam tanto, mas o nó na garganta, ainda me visita às vezes. Apesar de ter passado uma década, ainda imagino muita coisa antes de dormir. A empatia já me fez o ser humano mais feliz do mundo, mas, também, me fez procurar um edredom azul em meio a prédios e carros.

Imagem: Pinterest

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