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Se não fora a existência de Capitu seria indubitável que Machado de Assis havia escrito “ela era muito mais mulher do que eu homem” pensando nela (e, no caso, em mim também).  Por mais tabelado que isso possa parecer, o fato é que se fosse preciso encontrar apenas uma palavra para descrevê-la – seja em uma corrente de facebook ou em seu epitáfio – esta seria: FASCINANTE. Pois, não há representante melhor para esta palavra do que ela ou palavra melhor para representá-la do que esta.

Fora de qualquer padrão de menina, mulher ou menina-mulher e ainda mais desviante dos padrões de princesa recata ou dama delicada, ela foge de todos os esteriótipos e legendas de selfie’s pré-moldadas. Em verdade, ela os contradiz mais do que político em fim de mandato.

Contrapondo todos os preceitos invocados por sua delicada face de Dakota Fanning em A Menina e o Porquinho, porque na realidade está mais para Megan Fox em Garota Infernal, ela é capaz de invocar pedidos de casamento para revelar sua pureza e de 0 para a explanar sua safadeza.

Não é preciso muito para perceber que eu preciso mais dela do que mulher precisa de chocolate na TPM. E ela, por sua vez, aparenta precisar de mim tanto quanto um peixe precisa de uma brisa fresca no inverno – apesar de no meio da noite recorrer a mim para aquecê-la quando os cobertores não dão conta e quando não se sente segura mesmo com as três certificadas voltas na fechadura.

Quando nos conhecemos, em um misto de Tinder com um bar sem nome e três doses de pinga barata (história que não pode ser contada no Natal com a família) e perguntei seu nome, ela me respondeu “acho que não vou lhe dizer ele todo. Que tal uma letra por encontro? Assim tenho mais chances de que você vai querer me ver de novo.” E eu juro, por tudo o que lhe pareça mais sagrado, que nunca torci tanto por um nome longo. Rezava para que fora um nome que não coubesse na assinatura, com muitas letras duplas, h’s e até mesmo y’s.

O nome dela não é muito grande. Mas ela tem muitos sobrenomes. Ela adora moda e justamente por isso não tem estilo nenhum, se veste de forma mais diversa do que modelo única em campanha de loja de departamento. E ela adora saltos, que a deixam mais elegante do que qualquer princesa inglesa antecipada de títulos. Mas, sobre eles, tem um detalhe: só usa quando os quer, por exemplo no domingo em que fui apresentá-la à minha mãe ela optou por usá-los no raiar do sol para ir comprar pão na padaria.

E não eram só os saltos, mas um look completo de Christina Aguilera em Burlesque. Já à noite, no jantar no bistrô reservado com um mês de antecedência, para o fatídico momento de encontro com a sogra preferiu alpargatas e jardineira colorida como a bandeira LGBT.

Quando eu era moço e minha mãe esperava meu tão irritante irmão mais novo, ela me disse que eu deveria me preparar, pois, quando tivesse uma esposa e ela estivesse grávida, eu teria de despertar às 03:37 da madrugada para ir em busca de morangos recém colhidos e lasanhas recém assadas para saciar os mais loucos anseios noturnos da futuramente grávida – e minha – mulher.

Acontece que minha mãe em sua infindável sabedoria que beira a de Dona Benta nunca deve ter conhecido uma artista – literalmente do fazer artistíco criativo – pois estas, ou melhor, esta, sim tem os mais mirabolantes e urgentes desejos na madrugada. Os quais vão de pincéis feitos com o bigode de Salvador Dalí à tinta feita da flor mágica da Rapunzel. E eu, meramente mortal e de exatas, cedo à seus insight’s noturno e rodo a cidade em busca de papelarias 24h, as quais digo, com propriedade, são mais raras do que picolé de leite condensado no verão do Cerrado.

E por mais que o porteiro que me vê sair de pijama com uma lista em mão e as chaves na outra creia que isto seja apenas uma loucura descompensada, tê-la cheirando à tinta, de mãos manchadas e surto criativo saciado com um sorriso grato ao seu mais fiel e nada crítico de sua arte, faz todas as buscas geladas valerem a pena.

Mas, de todas as suas peculiaridades, das quais poderia falar muito – realmente muito – mais do que amiga contando causos por aúdio do What’s app, a que mais me fascina é o fato de ela, toda artista e versadamente letrada, não saber fazer poemas. Talvez esse carinho também se deva por eu tê-lo descoberto na manhã seguinte à de nossa primeira noite.

Na noite, da qual não lembro nenhum detalhe que não tivesse seus olhos como plano de fundo, eu havia lhe comprado um livro. Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada, de Neruda. E, me achando o Romeu moderno em sarau íntimo li para sua cabeça levemente pendente e de olhos semi fechados de deleite as palavras que para mim, apaixonado como sempre já estava, me pareciam mais claras do que receita de miojo para micro-ondas.  

E na manhã seguinte, em uma cama repleta de perfume de condicionador de coco, havia um bilhete de versos tortos, mas com beijo caprichado de batom fraco ao final:

“Batatinha quando nasce espalha rama pelo chão

Menininha quando dorme põe a mão no coração

Toda vez que eu te vejo

Fico louca de tesão

Te encontro hoje de novo

Para sentir nossa paixão”

Tal graça até hoje me fascina, pois sempre me faz pensar se ela é a única artista que não sabe fazer um autorretrato (com letras). Deve ser, afinal, ela sempre é única.

 

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